quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Lampião: cabra-macho ou flor do sertão?

 

Livro que questiona a sexualidade de Lampião gera revolta no meio acadêmico – sobretudo diante de ‘comprovações’ que remetem até a fóruns da internet

Felipe Sáles

Depois de Hitler, Zumbi dos Palmares e a Imperatriz Leopoldina, o, digamos, revisionismo sexual de grandes personagens da História atingiu o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva. O problema é que a “descoberta” do juiz aposentado Pedro de Morais, autor do livro “Lampião, o mata sete” – no qual afirma que o líder do cangaço era homossexual –, nem novidade é, mas se alastrou feito rastilho de pólvora nos megabytes do mundo moderno. O historiador Antônio Amaury, que dedicou nada menos que 63 anos ao estudo do cangaço, inclusive entrevistando vários membros da tropa de Lampião, é categórico: “isso nunca foi sequer cogitado por todos que conheceram e conviveram com Lampião. Portanto, levantar essa difamação foi apenas uma forma desse juiz aparecer”.

Se era esta a intenção (ou apenas difamar o mito), o ex-juiz conseguiu. Uma pesquisa no Google com os termos “Lampião” e “gay” remete a mais de 200 mil resultados, enquanto “Lampião” e “Pedro de Morais” respondem a mais de 40 mil links. Repercussão que, como de praxe nesses casos, ganhou força mesmo após a Justiça proibir o lançamento da obra, a pedido dos parentes do cangaceiro. Pedro de Morais acredita que a decisão será revertida em breve, já que tudo se trata de uma confusão de... sinônimos.

“O próprio juiz, na sentença, afirma que não leu o livro”, argumenta Pedro. “Ele se baseou na manchete de um jornal popularesco, que chamou Lampião de boiola e Maria Bonita de adúltera. Mas em momento algum eu usei esses termos... Depois que ele ler o livro, não haverá problema algum. Tudo o que eu disse está relatado por vários autores. Eu apenas tive a coragem de expor sem meias palavras”.

Fatos controversos

Para sustentar a versão, Pedro de Morais usa como exemplo até fóruns públicos do site Yahoo, onde “todo mundo sabe da homossexualidade de Lampião”.

“Você há de convir que obter prova material de homossexualidade seja difícil. Mas este era um fato amplamente sabido por vários estudiosos”, garante Pedro, citando como exemplo o professor Luiz Mott, doutor em antropologia e fundador do Grupo Gay da Bahia. A tese de Mott – igualmente não aceita por quem se dedicou especificamente ao tema cangaço – se baseia em relatos de que Lampião, na intimidade, adorava perfume francês, usava um lenço de seda e muitos anéis nos dedos. Foi o suficiente para a conclusão – de Pedro, claro, mas não de Antônio Amaury, do alto de suas mais de 250 horas de conversa com cangaceiros e mais de 7 mil entrevistas realizadas sobre o assunto.

“Com todo o respeito, Mott dedicou a vida ao tema da homossexualidade, não ao estudo do cangaço. Não há o menor fundamento para se afirmar isso. Eu conversei com mais de 30 cangaceiros, alguns diretamente ligados a Lampião, e ninguém jamais sequer comentou esse tipo de coisa. Inclusive, conversei uma vez com a mulher de um cangaceiro, que foi presa e levada para Salvador. Ela contou que só ouviu falar desse tipo de conduta, entre pessoas do mesmo sexo, ao chegar lá, na cidade grande”, conclui Antônio.

Provas x Anedotas

O médico-legista Estácio de Lima, autor de “O mundo estranho dos cangaceiros”, também é citado como fonte. Segundo Pedro, Lampião é descrito como um homem de “trejeitos afeminados”, com “postura de homossexual” e até “realizador da cultura homossexual”, conforme descreve o ex-juiz, acrescentando ainda que Lampião “não tinha capacidade de ereção”.

Antônio refuta:

“Não há testemunhos nem a menor evidência para esse tipo de acusação. Mas agora está na moda dizer que toda personalidade histórica foi homossexual. Uma das bases dessa acusação estapafúrdia de impotência foi um tiro que Lampião levou na virilha. Mas esse ferimento, comprovadamente, de modo algum afetou sua virilidade, muito menos, obviamente, sua masculinidade”.

Seja como for, Pedro de Morais não faz questão de esconder a antipatia pelo rei do cangaço, que foi tema da reportagem “Fascinantes facínoras”, publicada em “falo o que penso”.

“Eu trabalhei nas comarcas de Canindé e Poço Redonda e cansei de ouvir histórias escabrosas de Lampião. Meu objetivo é desmitificar esse canalha, um dos piores elementos que a natureza já produziu”, afirma.

Policial militar de Sergipe, Marcelo Rocha também faz pesquisas sobre o cangaceiro, mas sob o ponto de vista da polícia – ou seja, de quem não teria o menor motivo para defender Lampião. Ele também rejeita a tese.

“Não há a menor evidência sobre isso, nenhum relato ou livro com fundamento para tanto. O máximo que havia era conversas de esquina, meras anedotas do povo”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Dieta totalmente natural? Isso não existe, diz cientista

 

Jeff Grabmeier

Dieta totalmente natural? Isso não existe, diz cientista

"Não há uma maneira natural de comer para a qual precisamos retornar. A cultura influencia tudo o que fazemos," defende a pesquisadora.[Imagem: Cambridge Press]

Saudosismo alimentar

Da dieta do paleolítico à dieta dos alimentos crus, muitas pessoas preocupadas com a saúde física agora querem comer da maneira que elas acreditam que nossos ancestrais comiam.

Mas algumas dessas prescrições alimentares fazem pouco sentido para os humanos modernos, de acordo com um novo livro sobre a evolução do uso de alimentos e dos hábitos alimentares entre os povos pré-históricos.

Embora haja muito que possamos aprender com o que nossos antepassados comiam, muitos dos nossos alimentos e dietas mais modernos foram desenvolvidos por bons motivos, afirma a Dra. Kristen Gremillion, professora de antropologia da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos.

Dietas naturais

"Os seres humanos são onívoros, nós podemos comer uma grande variedade de coisas," diz Gremillion, que acaba de publicar seu livro Apetites Ancestrais: A Comida na Pré-História, ainda sem lançamento no Brasil.

"Em vez de tentar fundamentar uma dieta saudável naquilo que nós pensamos que as pessoas costumavam comer milhares de anos atrás, faria muito mais sentido olhar para as nossas necessidades nutricionais hoje e encontrar a melhor maneira de atendê-las," explica.

Uma questão que a pesquisadora levanta contra os muitos modismos das novas dietas é a alegação de que elas seriam de algum modo mais "naturais" porque se concentram em um tempo antes que a cultura moderna estragasse nossos hábitos alimentares.

"Esse tempo nunca existiu", disse Gremillion.

"O comportamento alimentar humano não pode ser reduzido apenas à nossa biologia. A cultura sempre exerceu uma influência importante naquilo que nós comemos e como nós comemos. E as pessoas têm sido criativas, encontrando novos alimentos para comer e novas maneiras de prepará-los. Não há como dizer que só há uma forma correta para comermos," completa a pesquisadora.

Dieta do paleolítico

Uma dieta popular hoje é a chamada "paleo" ou "dieta do paleolítico", algumas vezes também chamada de dieta do homem das cavernas.

Esta dieta é baseada no que as pessoas comiam antes da introdução da agricultura. Há uma ênfase em carnes magras e frutas e legumes, evitando alimentos processados e grãos de todos os tipos.

Gremillion afirma que a dieta paleo tem uma base científica e é uma forma saudável de comer. Mas não é de modo algum mais natural do que outras dietas.

"Não é contra a natureza dos seres humanos comer cereais e grãos, apesar do que algumas pessoas possam dizer. Os humanos começaram a agricultura porque era difícil conseguir alimentos suficientes através da caça e da coleta. Grãos de cereais representam uma fonte estável de calorias," disse ela.

Os grãos de cereais não podem ser a única base de uma dieta, mas podem ser parte de uma alimentação saudável, garante.

Dieta dos alimentos crus

Apesar de a dieta paleo ter uma base científica, Gremillion afirma que a dieta de alimentos crus não tem.

Esta dieta enfatiza a obtenção de calorias de alimentos não cozidos e não transformados.

"Não há realmente nada a se ganhar por comer apenas alimentos crus. Cozinhamos os alimentos há centenas de milhares de anos," disse ela.

O cozinhar remove alguns nutrientes dos alimentos, assim como também divide os compostos nos alimentos para tornar alguns nutrientes mais fáceis para serem assimilados por nossos corpos.

Além disso, é muito mais fácil para nossos dentes e mandíbulas comer alimentos cozidos do que rasgar e triturar alimentos duros e fibrosos.

"Cozinhar pegou por um bom motivo, e não há nenhuma razão real para descartá-lo," defende.

Retorno à natureza

A preocupação com o retorno a um estado mais natural muitas vezes envolve não apenas o que comemos, mas como e onde podemos cultivar alimentos e domesticar animais.

Grande parte da própria pesquisa de Gremillion envolve as origens da agricultura e como os povos primitivos interagiam com o meio ambiente.

"Tem havido uma tendência na cultura americana de pensar que a selva virgem é algo totalmente separado das pessoas. Mas é um equívoco pensar que as paisagens que queremos trazer de volta não foram tocados por pessoas," disse ela.

Estudando os nativos da América do Norte, ela afirma que os seres humanos têm interagido com o meio ambiente desde o momento que pisaram no continente.

Uma das primeiras formas que os nativos interagiram com o ambiente foi através do uso do fogo para limpar áreas para a sua utilização. Mais tarde, eles também adotaram a agricultura em pequena escala.

"Mas não era apenas uma ligação espiritual com a natureza. Foi uma maneira prática de viver da terra", disse ela.

Hábitos culturais

Gremillion afirma que, em tudo o que se relaciona à alimentação - os alimentos que comemos, a forma como os cultivamos e como os preparamos - não há uma maneira natural de fazer as coisas.

"Os seres humanos são flexíveis. Isso é o que fazemos melhor do que qualquer outro animal, e isso significa que podemos nos adaptar às condições," disse ela.

"Não há uma maneira natural de comer para a qual precisamos retornar. A cultura influencia tudo o que fazemos," conclui ela.

Dieta totalmente natural? Isso não existe, diz cientista

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ícone moderno

 

Revista de História

Livro 'O risco - Lucio Costa e a utopia moderna' traça o percurso de vida e as obras do arquiteto que chamava Brasília de 'a cidade que inventei'

Luiz Cruz

Fachada norte do edifício Gustavo Capanema, no Centro do Rio

Fachada norte do edifício Gustavo Capanema, no Centro do Rio

Iluminado. Assim vamos encontrar Lucio Costa no livro “O risco - Lucio Costa e a utopia moderna”, editado por Sesc/RJ e CEF. Geralmente um livro pode virar filme. Este é o contrário, foi o filme de Geraldo Motta Filho que virou livro. Um belo livro, todo em páginas pretas, num bonito projeto gráfico para mostrar a grande figura da arquitetura moderna brasileira. “O risco” traz uma série de depoimentos de pessoas da família, amigos, companheiros de trabalho e admiradores. É obra que contribui muito para entendermos a trajetória do arquiteto.

Lucio Marçal Ferreira Ribeiro Lima Costa nasceu em Toulon, França, em 27 de fevereiro de 1902 e faleceu no Rio de Janeiro, no dia13 de junho de 1998. Ele foi “um pensador, muito mais do que mero arquiteto ou urbanista”, segundo depoimento do arquiteto Lauro Cavalcanti. Iniciou sua formação na França, depois na Suíça e, posteriormente, na Inglaterra. Retornou ao Brasil para cursar a Escola Nacional de Belas Artes. Logo que se formou, em 1924, instalou seu escritório de arquitetura em parceria com Gregory Warchavchik – russo, com formação na Itália, que se mudou para o Brasil em 1923 e foi o precursor da arquitetura moderna em São Paulo. O escritório da dupla se tornaria num reduto de puristas (em oposição ao neocolonial, cheio de detalhes), procurado por jovens arquitetos. Em 1930, foi convidado a dirigir a Escola de Belas Artes e conseguiu inovar todo o sistema de ensino. Uma das consequências foi o Salão Nacional de Arte, de 1931, que tornou-se uma referência das artes plásticas.

Um pouco antes disso, foi criado o Sphan – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (hoje Iphan), ligado à trajetória do arquiteto. Ele integrou a equipe técnica do instituto a partir de 1937 e lá ficou até se aposentar, em 1972. O Sphan nasceu como resultado das propostas dos modernistas brasileiros. Em 1924, foi realizada a conhecida expedição a Minas, que tinha como objetivo uma “redescoberta” do se havia produzido de arte no Brasil. Dela faziam parte: Mario de Andrade, Oswald de Andrade e seu filho Nonê, Tarsila do Amaral, Olívia Guedes Penteado, René Thiollier, Gofredo da Silva Telles e o poeta franco-suíço Blaise Cendrars. Encontraram tesouros, além de sítios correndo grave risco de se perderem devido ao total abandono. Foi a partir dessa expedição que se iniciou a preocupação para a preservação patrimônio cultural. O texto do Decreto-Lei Nº 25, de 30 de novembro de 1937, teve redação de Mario de Andrade, com orientação jurídica de Rodrigo Mello Franco de Andrade, que era advogado e foi o primeiro diretor do órgão, dirigindo-o por 30 anos. Rodrigo conseguiu formar um grupo de apoio expressivo, envolvendo várias figuras como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mario de Andrade e outros.

Em 1935, por meio de edital publicado em 23 de abril, foi realizado um concurso para a escolha do projeto arquitetônico para a nova sede do Ministério da Educação, Cultura e Saúde. A proposta vencedora foi de Archimedes Memória, de inspiração “marajoara”. O vencedor recebeu o prêmio, mas o projeto não foi executado. Como naquele momento predominava a influência “modernista”, em circunstância deliberada por Drummond, o ministro Gustavo Capanema, convidou Lucio Costa para criar o projeto para a sede do ministério.

Lucio monta, então, uma equipe para desenvolver a proposta, fazendo parte dela Carlos Leão, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos, Affonso Eduardo Reidy. Oscar Niemeyer trabalhava juntamente com Lucio, em seu escritório, mas não se sentia parte da equipe – estava aprendendo. Porém, deu contribuições expressivas para a elaboração do projeto.

Foi o Lucio Costa quem sugeriu que se convidasse o arquiteto Charles Edouard Janneret, mais conhecido por Le Corbusier, para prestar uma consultoria durante a elaboração do projeto para a sede do Ministério da Educação, Cultura e Saúde, depois Palácio da Cultura e atualmente Palácio Gustavo Capanema. O arquiteto passou seis semanas no Brasil e fez muitas sugestões, mas predominou a inspiração dos arquitetos brasileiros e o prédio ficou com as características leves e sobre pilotis elegantes. Enquanto a obra deste arquiteto é pesada, extremamente arrojada. O oposto desenvolvido pela arquitetura moderna brasileira, que foi reconhecida internacionalmente pela ousadia e inovação.

O edifício é considerado um marco no estabelecimento da arquitetura moderna brasileira, tendo-se tornado referência internacional. Foi a grande atração da mostra “Brasil Builds”, realizada no Museum of Modern Art of New York, de 1943, e referência na revista francesa “Architecture D’Aujourd’hui”, de 1947.

 

Lucio Costa foi um homem do patrimônio. Ele dizia que só é possível revolucionar o futuro se você conhecer bem o passado. E como arquiteto e urbanista, ele mergulhou profundamente no passado. Sua viagem a Diamantina, em 1924, marcou para sempre sua vida profissional. Ele se encantou pela cidade, organizada e instalada num lugar isolado, onde a pedra predominava. Depois, a convite de Rodrigo Melo Franco de Andrade, pelo Iphan, realizou duas longas viagens por Portugal coletando informações para redigir um trabalho mais amplo sobre a origem de nossa arquitetura. Como Lucio Costa foi postergando a redação do trabalho e Rodrigo tinha pressa em ver resultados, decidiu, então, convidar Germain Bazin, do Museu do Louvre, que prontamente aceitou o convite e redigiu “L’architecture religieuse baroque au Brésil”, Paris, Plon, 1956. Lúcio ficou inconformado, achou que tinha sido traído por Rodrigo, mas suas viagens a Portugal resultaram em cadernos com muitos desenhos e informações. Se Lucio não redigiu o trabalho, as viagens muito contribuíram para o entendimento da formação das antigas vilas portuguesas e nossas cidades.

“A cidade inventada”. Assim, o arquiteto e urbanista se referia à Brasília, cidade que ele criou. Isto surgiu em decorrência a uma série de críticas que fizeram sobre a nova capital brasileira. Uma capital instalada no nada, sem referência, sem memória, apenas implantada no centro do País, no cerrado. Onde predominavam árvores retorcidas e terra vermelha (um lugar totalmente desconhecido no aspecto ambiental). Lucio não compareceu à inauguração de Brasília. Só a visitou depois de muitos anos, acompanhado de sua filha, Maria Elisa Costa, também arquiteta, e ficou encantado com sua criação, ao constatar que lá já havia uma geração de pessoas nascidas na cidade, havia vida própria. E era uma cidade com alma. “A cidade que inventei”. Esta passa a ser a referência que Lucio Costa utilizava após sua visita.

Essa “invenção” aconteceu após o retorno de uma de suas muitas viagens. Após desembarcar, pôs-se a trabalhar. Havia se inscrito no concurso para a criação do Plano Urbanístico de Brasília. Trabalhou silenciosamente durante dois meses em casa e em seu escritório. Apenas sua filha sabia o que se passava em sua cabeça. No dia 10 de março de 57, poucos minutos antes de encerrar o prazo de inscrições, Maria Elisa Costa entrega o projeto criado seguindo os preceitos da Carta de Atenas, documento elaborado em 1933, pelo Congresso Internacional de Arquitetura Moderna. Era uma proposta diferente, um projeto literário e muitos desenhos feitos a lápis de cor.

A comissão julgadora era composta pelo sir William Holford, urbanista inglês, André Sive, Stamos Papadaki, Oscar Niemeyer, Luiz Hildebrando Horta Barbosa e Paulo Antunes Ribeiro. À primeira vista, tudo parecia confuso, mas após a terceira leitura, sir Holford entendeu e clamou que estava diante da maior contribuição urbanística do século XX. O projeto de Lucio Costa foi o vencedor e Oscar Niemeyer foi o arquiteto escolhido para criar as edificações. Assim, Brasília saiu do papel e se tornou realidade.

Em 1962, Darcy Ribeiro era o ministro da Educação e Cultura, no Governo de João Goulart, e trouxe novamente ao Brasil Le Corbusier. Um dos pontos visitados por ele foi o Parque Guinle, projetado por Lucio Costa, com amplo uso de treliças e bastante inspirado na arquitetura colonial mineira. Ítalo Campofiorito foi o escolhido para acompanhar o arquiteto, inclusive a visita à Brasília. Ítalo registrou as impressões do famoso urbanista franco-suíço em “O risco”, que disse: “eles conseguiram uma coisa que nunca consegui. Mas contavam com uma coisa que eu nunca tive ao meu lado: a autoridade”. E continuou: “Essa cidade foi pensada par un type”. Mais adiante: “O que é bom nessa cidade é que ela tem uma alma”. A visita dele e os registros de suas impressões são um presente à capital brasileira, uma cidade símbolo do modernismo, da ousadia do brasileiro.

No mesmo livro “O risco - Lucio Costa e a utopia moderna”, vamos encontrar depoimentos impressionantes, especialmente o de Sergio Ferro que apresenta um enorme contraste sobre o clima de sonho e prosperidade que tomou conta dos anos em que se construía Brasília e a triste realidade do dia a dia da construção, das péssimas condições oferecidas aos operários, uma mão-de-obra sem qualificação alguma. Milhares de homens que enfrentavam jornadas enormes de trabalho, com alimentação precária. Cercados e ameaçados. Segundo Sergio Ferro, o sofrimento era tanto que muitos operários se suicidaram. Jogaram-se embaixo de caminhões, desesperados, com fome, diarreia e impossibilitados de sair de lá. Um contraste entre a proposta de Lucio Costa e Niemeyer e, principalmente, o discurso oficial de Juscelino Kubitscheck e a realidade.

A memória de Lucio Costa é preservada através da ONG Casa Lucio Costa, criada no Rio de Janeiro, para reunir sua vasta coleção de documentos, desenhos e projetos. Mais informações podem ser obtidas através do site: www.casadeluciocosta.org/

Luiz Cruz é professor de Línguas e Educação Patrimonial, vive em Tiradentes/MG

Referência Bibliográfica:

AMARAL, Aracy A. Blaise “Cendras no Brasil e os modernistas”. São Paulo: Ed.34/FAPESP, 1997.

CAVALCANTI, Lauro Pereira. “Moderno e brasileiro: a história de uma nova linguagem na arquitetura”. Rio de Janeiro: Jorge Zahah Ed., 2006.

WISNIK, Guilherme –Organização. O risco - Lucio Costa e a utopia moderna”. Coordenação de projeto: Juliana Simões de Carvalho e Geraldo Motta Filho. Apoio Cultural SESC/RJ e outros

Ícone moderno - Revista de História

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

John Milton

 

John Milton, filho do banqueiro John Milton Senior e Sara Jeffrey, nasceu em 9 de dezembro de 1608 em Londres, Inglaterra. Recebeu sua educação formal na mesma cidade, no St Paul's School. Posteriormente, em 1625, matriculou-se no Christ's College, em Cambridge, ali permanecendo por sete anos até concluir os estudos e formar-se em Artes, no ano de 1632. Assim, contrariando o desejo paterno de que Milton seguisse a vida religiosa.

Milton, neste momento, com apenas 25 anos, já se revelava um homem de mente e espírito privilegiados, tendo se graduado com expressão em disciplinas como filosofia, teologia, história, política, ciências e literatura. Também já era um ávido escritor de poemas e sonetos em latim, italiano e, obviamente, inglês. Nesta época ele compõe a obra L'Allegro, uma ode à vida e hábitos no campo, e Il Penseroso, como um complemento do primeiro, sendo um louvor à contemplação e ao recolhimento. Ainda, dedica-se à redação da peça teatral intitulada Comus – Um disfarce, uma fábula mitológica na qual aborda o conflito entre o bem e o mal.

Passa alguns anos de sua juventude morando com seu pai em Buckinghamshire. Neste período, teve a oportunidade de dedicar-se intensamente aos estudos de matemática e de clássicos como Dante, Tasso e Petrarca.

No ano de 1638, após o falecimento da mãe, Milton viaja para a França, Suíça e Itália, tendo conhecido pessoalmente o físico e pensador italiano Galileu Galilei e se aproximado do movimento renascentista. No mesmo ano compõe a elegia Lycidas. A partir de 1641 tem início sua fase mais criativa e produtiva. Milton elabora, além de poemas, sonetos e peças teatrais, ensaios sobre política e religião.

Em junho de 1642, já atuando profissionalmente na área de ensino, casa-se com Mary Powell de apenas dezesseis anos de idade. Porém, cerca de um mês após o matrimônio, Mary parte em visita aos pais e não retorna. Fato que certamente influiu na produção literária de Milton nos anos seguintes, publicando ensaios nos quais defende com veemência a legalidade e os aspectos morais do divórcio.

Em 1641, afrontou a doutrina eclesiástica publicando Of Reformation Touching Church Discipline in England (Sobre a reforma da disciplina eclesiástica na Inglaterra). O contato com o professor tcheco Comenius e com o educador inglês Samuel Hartlib inspirou Milton a elaborar um tratado sobre educação em 1644. No mesmo ano, publicou Areopagitica, um discurso que defende a liberdade da imprensa e até hoje é considerado uma das obras mais bem construídas sobre o tema. Neste período, também participa ativamente da política inglesa e ocupa cargos elevados durante o período republicano.

Em 1645, Mary regressa e Milton aceita seu retorno. O casal teria quatro filhos: Anne, Mary, John e Deborah. No ano seguinte, Milton em boas condições econômicas abandona o ensino. Paralelamente, sofre com a perda de seu pai.

No ano de 1649 o poeta já apresenta sinais da perda gradativa da visão. Foi diretor do jornal Mercurius Politicus em 1651 e abertamente defendeu a revolução em detrimento da monarquia. Manifestou-se também em relação à matança de protestantes na Itália no episódio do Piemonte, através do soneto On the Late Massacre in Piedmont (Sobre o recente massacre em Piemonte).

Mary Powell falece em maio de 1652 devido à complicações no parto de Deborah. No mês seguinte, John de apenas 15 meses, também falece. Estas perdas abalaram sensivelmente Milton. Porém, neste momento, devido à saúde debilitada, não chegou a ser detido após a restauração da monarquia.

Em 1656 Milton casa-se com Katherine Woodcock. No final do ano seguinte, Katherine dá à luz a menina também de nome Katherine. Porém, em fevereiro a esposa Katherine falece. No mês seguinte, a filha Katherine também morre. Em 1658 dá início à produção literária de uma de suas obras mais relevantes: Paradise Lost (Paraíso Perdido). Em 1660, empobrecido, enfermo e contrário às condições políticas da Inglaterra, recolhe-se e dedica o tempo a compilar as próprias obras.

Em fevereiro de 1663, Milton casa-se novamente. Elizabeth Minshull, de apenas 25 anos, é sua terceira esposa. A esta altura, já completamente cego e passando por sérias dificuldades financeiras, dita o poema Paradise Lost que foi redigido em versos não rimados e aborda sob uma perspectiva cristã, a criação de Adão e Eva, o pecado original e a queda de Lúcifer.

Milton, vivendo imerso na pobreza, vende os direitos de publicação de Paradise Lost em 1667, sendo publicada no mesmo ano. Em 1671 publica a continuidade de Paradise Lost, a obra Paradise Regained (Paraíso Recuperado), que teria sido inspirada no Evangelho de Lucas e aborda o retorno de Cristo à Terra para resgatar o que Adão havia perdido. No mesmo ano é publicado Samson Agonistes. Em 1674, Paradise Lost é reorganizado em doze partes pelos editores e é publicado novamente.

Em 8 de novembro de 1674, pouco antes de completar 66 anos e ainda vivendo na companhia de Elizabeth Minshull, John Milton falece devido à diversas enfermidades.

Ao lado de Shakespeare, John Milton é uma das mais célebres e significativas personalidades da literatura inglesa. Sem dúvida, sua obra mais relevante é Paradise Lost que coloca Satã como personagem central e seria fonte de inspiração para os românticos que viriam. Mais do que a figura de autor classicista, um Milton pensador e contestador, politizado e corajoso ajudam a compor sua admirável biografia.

Por Spectrum

John Milton

sábado, 23 de julho de 2011

Livro histórico de Vital Brazil é relançado

 

Obra comemorativa do Instituto Butantan traz fac-símile da original “A Defesa Contra o Ophidismo”, do cientista Vital Brazil, analisada por 12 pesquisadores

 

Agência FAPESP – O Instituto Butantan lançou no dia 4 de julho a edição comemorativa do livro A Defesa Contra o Ophidismo – 100 Anos Depois.

A obra traz um fac-símile da original A Defesa Contra o Ophidismo, do cientista Vital Brazil Mineiro da Campanha (1865-1950), com análises de 12 pesquisadores que abordam desde aspectos históricos dos acidentes e tratamentos envolvendo animais peçonhentos, quanto cenários envolvendo as atuais tecnologias para a produção de soros hiperimunes.

Eentre os autores das análises estão pesquisadores dos Institutos Butantan, de Infectologia Emílio Ribas, Adolpho Lutz, da Fundação Oswaldo Cruz e da Sociedade Brasileira de Toxinologia.

A publicação da obra original completou 100 anos em abril e se tornou um marco na história da produção científica brasileira. Ela é responsável por estabelecer parâmetros para a identificação e tratamento de acidentes com animais peçonhentos por meio de soros.

O ofidismo era um dos maiores desafios da saúde pública no início do século 20 e as descobertas de Vital Brazil, detalhadas no livro, ainda ajudam a salvar vidas. O cientista produziu no Butantan soros específicos para os venenos das serpentes brasileiras.

Mais informações: www.butantan.gov.br

Livro histórico de Vital Brazil é relançado | Agência FAPESP :: Notícias

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mais de 4 mil livros de ciência de graça

 

National Academies Press, editora das academias nacionais de ciência dos EUA, publica todo o catálogo em pdf para ser baixado livremente

Agência FAPESP – A National Academies Press (NAP), editora das academias nacionais de ciência dos Estados Unidos, anunciou no dia 2 de junho que passou a oferecer seu catálogo completo para ser baixado e lido de graça pela internet.

São mais de 4 mil títulos, que podem ser baixados inteiros ou por capítulos, em arquivos pdf. A NAP publica mais de 200 livros por ano nas mais diversas áreas do conhecimento, com destaque para publicações importantes em política científica e tecnológica.

Os livros podem ser copiados livremente a partir de qualquer computador conectado na internet e mostram o esforço da NAP em democratizar o acesso ao conteúdo produzido pelas academias norte-americanas. As academias, que atuam há mais de 100 anos, são: National Academy of Sciences, National Academy of Engineering, Institute of Medicine e National Research Council.

Os títulos em capa dura continuarão à venda no site da NAP. A opção de ler de graça parte de livros ou títulos inteiros começou a ser oferecida pelo site em 1994. A oferta de todo o catálogo de graça para ser baixado em pdf foi feita primeiro para os países em desenvolvimento.

Entre os títulos que podem ser baixados estão: On Being a Scientist: A Guide to Responsible Conduct in Research, Guide for the Care and Use of Laboratory Animals e Prudent Practices in the Laboratory: Handling and Management of Chemical Hazards.

Mais informações: www.nap.edu

Mais de 4 mil livros de ciência de graça | Agência FAPESP :: Notícias

sábado, 28 de maio de 2011

Barroco

 

 Arquitetura – obra da época barroca

O Barroco começa a partir do ano de 1600 e todas as manifestações entre essa data e 1700 estão inseridas em um contexto assimétrico e rebuscado das obras barrocas. Segundo alguns autores, a palavra “barroco” deriva da palavra “verruca” do latim, que significa elevação de terreno em superfície lisa. Toda pedra preciosa que não tinha forma arredondada era chamada de barrueca. Logo após, toda e qualquer coisa que possuía forma bizarra, que fugia do normal, era chamada de baroque. O poeta italiano Giosuè Carducci foi quem, em 1860, adjetivou o estilo da época dos Seiscentos, referindo-se às manifestações artísticas ocorridas a partir do ano de 1600, como sendo barroco. Então, apesar de não possuir características unânimes em todas as obras, o barroco passou a ser a denominação dos artistas e escritores da referida época.

O Barroco ou Seiscentismo teve início em Portugal com a unificação da Península Ibérica, fato que acarreta ao período intensa influência espanhola, e também faz surgir outra denominação para o período, Escola Espanhola. No Brasil, o Barroco teve início em 1601, com a publicação do poema épico Prosopopéia, de Bento Teixeira (http://pt.scribd.com/doc/7289654/Bento-Teixeira-Prosopopeia-1601), o qual introduz em definitivo o modelo da poesia camoniana na literatura brasileira. 

Portugal estava em decadência nos últimos vinte e cinco anos do século XVI, o comércio tornava Lisboa a capital da pimenta, no entanto, a agricultura estava abandonada e as colônias portuguesas, inclusive o Brasil, não deram riquezas imediatas. Pouco tempo depois, com o desaparecimento de D. Sebastião, Filipe II da Espanha consolidou a unificação da Península Ibérica, o que possibilitou e favoreceu o avanço da Companhia de Jesus em nome da Contra-Reforma, o que ocasionou a permanência de uma cultura praticamente medieval na península, enquanto o restante da Europa vivia as descobertas científicas de Galileu, Kepler e Newton, por exemplo.

É durante este quadro cultural europeu que o estilo Barroco surgiu, em meio à crise dos valores renascentistas, ocasionada pelas lutas religiosas e dificuldades econômicas. O contexto assimétrico e rebuscado do barroco, citado anteriormente, é reflexo do conflito do homem entre as coisas terrenas e as coisas celestiais, o homem e Deus, antropocentrismo (homem no centro) e o teocentrismo (Deus no centro), pecado e o perdão, enfim, constantes dicotomias.

No Barroco podemos classificar dois estilos literários: O Cultismo e o Conceptismo.

Cultismo – caracterizado pela linguagem culta, rebuscada, ligado à forma, jogo de palavras, com influência do poeta espanhol Luís de Gôngora, e por isso, chamado também de Gongorismo.
Conceptismo – caracterizado pelo jogo de idéias, ligado ao conteúdo, raciocínio lógico, com influência do espanhol Quevedo, e por isso, chamado também de Quevedismo.

No Barroco brasileiro destacam-se os autores: Padre Antônio Vieira com suas obras de profecias, cartas e sermões e Gregório de Matos Guerra, essencialmente poético.

Por Sabrina Vilarinho
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

Barroco - Brasil Escola

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Fragmentos gregos

 

Fragmentos gregos

Pesquisadora da USP faz estudo filológico sobre fragmentos do primeiro poeta lírico da Grécia antiga

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Os animais tinham uma presença marcante na obra de Arquíloco, um dos mais importantes poetas da Grécia antiga, nascido na ilha de Paros na primeira metade do século 7 a.C. Os fragmentos de seus escritos que contêm fábulas e imagens de animais foram o mote para um estudo realizado pela professora Paula da Cunha Corrêa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

O resultado foi o livro Um bestiário arcaico – Fábulas e imagens de animais na poesia de Arquíloco, lançado com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicação. A obra desvenda a conotação do caráter dos animais – bastante diferentes para os gregos antigos – nos fragmentos de Arquíloco, comentando não apenas os poemas, mas também as fontes e os processos de transmissão dos textos ao longo dos séculos.

Corrêa já havia lançado, em 2009, o livro Armas e Varões – A Guerra na Poesia de Arquíloco, que se dedicava ao comentário da obra de Arquíloco sob o ponto de vista da guerra – outra temática recorrente em seus poemas. A autora dedica suas pesquisas ao poeta de Paros desde o doutorado, concluído em 1995 na USP. Em 2001, fez também pós-doutorado sobre o tema na Universidade de Oxford (Inglaterra), com Bolsa da FAPESP.

Embora seja um poeta fundamental da literatura grega, não há um comentário exaustivo de seus poemas. Por isso, resolvi comentá-los a partir de enfoques temáticos. Vários de seus poemas narram fábulas e há um grande grupo deles em que aparecem imagens ou metáforas de animais, geralmente utilizados em poemas eróticos”, disse à Agência FAPESP.

Segundo ela, depois de Homero e Hesíodo – que viveram no século 8 a.C –, Arquíloco é o primeiro poeta grego. “Ele é o primeiro autor da chamada lírica grega, considerando-se a classificação moderna que divide a literatura entre teatro, poesia épica e poesia lírica. Apesar disso, seus gêneros característicos eram o jambo e a elegia”, afirmou.

Os antigos colocavam Arquíloco no mesmo patamar de Homero, mas hoje o poeta de Paros é bem menos conhecido do que o autor de Ilíada e Odisseia.

“Sobrou muito pouco da obra de Arquíloco, cerca de 300 fragmentos. Provavelmente isso ocorreu porque os versos em jambos, além da conotação erótica, têm uma moralidade que mais tarde poderia ser chocante para os cristãos”, indicou.

Além da possível rejeição da Igreja, segundo Corrêa, na própria antiguidade os poemas de Arquíloco podem ter sido mal interpretados, já que o jambo é um gênero que tem afinidade com a comédia, em sua forma de zombar da sociedade e abordar temas como sexo.

“O ‘eu lírico’ presente em um poema em primeira pessoa é um personagem criado pelo autor. Mas, eventualmente, poderia ser lido como se fosse um dado autobiográfico. Então, muitos podiam pensar que o próprio poeta fazia as coisas descritas, que podiam ser consideradas indignas”, disse.

Segundo Corrêa, a obra se divide em duas partes. Na primeira, dedicada às fábulas, a autora fez uma análise de cada um dos poemas, a partir de um ponto de vista filológico. A segunda parte consiste em um levantamento do caráter dos animais desde a Antiguidade.

“São fragmentos que nos chegaram, em alguns casos, por transmissão direta – por meio de papiros do segundo século a.C. – ou, nos casos mais frequentes, por transmissão indireta, por meio de comentários e outras obras que nos chegaram pela tradução manuscrita ao longo da Idade Média”, explicou.

Para cada um dos poemas, a autora fez um levantamento das edições de origem e apresenta comentários. Nem todos os versos estão completos. “Ao estudar os poemas, percebi que a conotação ética – o ethos, ou seja, o caráter – dos animais era em alguns casos fundamental para a compreensão do próprio poema. A raposa, por exemplo, aparecia com uma conotação muito diferente da nossa, que remete a uma esperteza maldosa, pejorativa”, disse.

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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Quem diabos é o diabo?

 

Satanás já fez a figura de um promotor público

celeste e de um orgulhoso Anjo Caído. Mas ele

também tem seu lado ridículo


Jerônimo Teixeira

  Exclusivo on-line
Trechos dos livros
Satã - Uma Biografia
Anjos Caídos

Satanás pelo jeito faz o maior sucesso nos cursos de letras. Acabam de chegar às livrarias brasileiras duas obras de professores de literatura americanos que tentam, cada um a seu modo, limpar a péssima reputação do demônio. Satã – Uma Biografia (tradução de Renato Rezende; Globo; 388 páginas; 40 reais), de Henry Ansgar Kelly, da Universidade da Califórnia, procede a um exame minucioso da Bíblia para demonstrar que o livro sagrado não dá apoio à imagem tradicional que se faz do Diabo. Em Anjos Caídos (tradução de Antonio Nogueira Machado; Objetiva; 88 páginas; 29,90 reais), Harold Bloom, famoso crítico de Yale, chama a humanidade a se solidarizar com o velho Satã: criaturas mortais e imperfeitas, seríamos todos – inclusive você, leitor – Anjos Caídos. Satã, no entanto, sai um tanto diminuído da leitura dessas obras. O fascínio e o pavor que ele inspira resistem mal a tentativas de humanização.

A análise do texto bíblico realizada por Kelly às vezes se perde em filigranas gramaticais, o que torna a leitura um tanto árdua (a tradução inepta também atrapalha: chega ao ponto de confundir o Eclesiástico com o Eclesiastes, dois livros diferentes do Antigo Testamento). No cômputo final, Satanás é quase como um figurante na Bíblia. Sua aparição mais marcante no Antigo Testamento se dá no Livro de Jó, quando ele instiga Deus a testar a devoção de Jó infligindo toda sorte de castigo ao pobre. No Novo Testamento, mais vitaminado do que o barnabé jurídico que aparece em Jó, Satanás parece ter o mundo terrestre sob seu comando – mas tal poder, Kelly argumenta, é em última instância delegado por Deus.

A narrativa cristã da perdição e da redenção do homem quase poderia prescindir do Coisa-Ruim. A Igreja, porém, logo sentiria necessidade de um opositor supremo, uma figura na qual concentrar todo o terror do pecado. Aos poucos, foram atribuídas a Satã qualidades que não lhe pertenciam (seus chifres de bode, por exemplo, não aparecem na Bíblia e são uma provável herança pagã dos faunos, criaturas luxuriosas). Kelly atribui a Orígenes de Alexandria, teólogo do século III, o lance criativo de transformar Satanás em um anjo das hostes divinas que, por orgulho, tenta sobrepujar Deus – e acaba caindo do céu. O Anjo Caído, que prefere sofrer no inferno a servir no céu, ganhará uma dignidade diabólica no Paraíso Perdido, poema do inglês John Milton, do século XVII. É nessa figura que se centra Anjos Caídos, ensaio ligeiro de Bloom, admirador ardoroso de Milton. Derivação menor de Presságios do Milênio, a mais complexa (e esquisita) digressão teológica de Bloom, Anjos Caídos repisa os temas tradicionais do autor: Bloom reclama da decadência da leitura na cultura audiovisual contemporânea e reitera que Shakespeare (que não falava muito de anjos, caídos ou não) é muito, muito importante.

Álbum/AKG/Latinstock

CHIFRES PAGÃOS
O diabo no centro de um sabá de feiticeiras, em quadro do espanhol Goya: figura inspirada nos luxuriosos faunos

A dignidade do Anjo Caído de Milton é uma exceção. Ao caracterizar o Satã de Jó, Bloom diz que ele age como "o diretor da CIA de Deus". No mesmo tom, Kelly diz que o Satã do Novo Testamento não é mais diabólico do que um diretor do FBI. Na Legenda Áurea, coleção de histórias de santos do século XIII, um demônio faz um papelão ao tentar (sem sucesso) fazer com que Santa Justina ceda às investidas sexuais de um sedutor atrapalhado. No Fausto de Goethe, o demônio Mefistófeles se distrai espiando as nádegas dos anjos – e perde a alma de Fausto, carregada para os céus. O poeta francês Charles Baudelaire observou que o maior truque do diabo é nos convencer de que ele não existe. Faz sentido: é só dar-lhe um pouco de atenção, para o diabo se tornar uma figurinha ridícula.

http://veja.abril.com.br/170908/p_140.shtml

sábado, 9 de abril de 2011

Brasilianas na internet

 

A formação de bibliotecas digitais, com acervos a respeito do Brasil, representa um importante passo na democratização da cultura.

Renato Venâncio

 

O conceito de biblioteca brasiliana remete a instituições especializadas em acervos bibliográficos nacionais. Nos últimos anos surgiram importantes brasilianas on line. Esse desenvolvimento preencheu uma importante lacuna. Há uma década, quem quisesse consultar bibliotecas com significativos acervos especializados em história e cultura nacional tinha poucas opções institucionais, quase sempre restritas às cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Os sites que vamos apresentar ainda estão em processo de incorporação de acervos. A utilização integrada deles gera bons resultados. Nesse sentido, primeiramente cabe destacar a “Brasiliana do Itaú Cultural”. Esse portal é, na realidade, uma enciclopédia da literatura brasileira. Os verbetes abarcam os cinco séculos de nossa história cultural, de José de Anchieta a Caio Fernando Abreu. Também são disponibilizados vídeos com entrevistas e apresentações de escritores contemporâneos.

Justamente por ter um caráter enciclopédico, este site serve de porta de entrada a outro, mantido pela Universidade de São Paulo-USP. Esse último está progressivamente acolhendo o magnífico acervo do bibliófilo José Mindlin, recentemente falecido (foto acima).

No portal da “Brasiliana do Itaú Cultural” podemos contextualizar a produção literária dos autores brasileiros. Em seguida, caso a obra seja de domínio público, podemos recuperá-la através da “Brasiliana da USP”. Um exemplo: no primeiro site lemos um resumo da trajetória intelectual de  Casimiro de Abreu; no segundo, recuperamos as primeiras edições de cinco livros desse autor.

A terceira brasiliana a ser destacada é a da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. No site que abriga o projeto, podemos ler e fazer pesquisas em mais de cem livros publicados pela Companhia Editora Nacional. São livros publicados a partir da década de 1930, há muito esgotados, mas fundamentais para a compreensão da história do Brasil.

Revista de História da Biblioteca Nacional

terça-feira, 22 de março de 2011

Preciosidade paleográfica

 

Preciosidade paleográfica

Publicação de A Estatística da Imperial Província de São Paulo, documento de 1827 da Biblioteca Mindlin, descreve o patrimônio paulista natural e humano no século 19

Por Mônica Pileggi

Agência FAPESP – Quando o príncipe dom Pedro de Alcântara proclamou a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, o que atualmente se conhece por estados eram províncias do novo Império.

Criado o estado independente chamado Império do Brasil, era necessário fazer um balanço – do território e do patrimônio natural e humano – para saber o que havia restado da colonização e seguir adiante com a construção de um país.

A Estatística da Imperial Província de São Paulo é resultado desse levantamento, preparado em 1827 a pedido da Assembleia Geral. Na época, a província de São Paulo incluía o que é hoje o Estado do Paraná.

A Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) reuniu em uma única publicação a versão fac-similar do manuscrito, assim como sua transcrição paleográfica – forma antiga de escrita – e a transcrição moderna.

De acordo com Plínio Martins Filho, diretor-presidente da Edusp, a ideia do projeto, que teve apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações, surgiu há cerca de seis anos com o bibliófilo e empresário José Mindlin (1914-2010).

“Essa foi uma das últimas sugestões de Mindlin, junto com as edições da Bibliographia Brasiliana e de Ciência, História e Arte: Obras Raras e Especiais do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, que também foram publicadas pela Edusp”, disse à Agência FAPESP. Essas outras obras também tiveram apoio FAPESP para publicação.

Martins Filho explica que o motivo de produzir uma edição fac-similar vai além de sua importância histórica. “Na questão estética, a obra revela a caligrafia cursiva, que é muito bonita. Além disso, a cópia do documento original permite ao pesquisador conferir a transcrição paleográfica direto na fonte, sem a necessidade de ir à biblioteca”, explicou.

Já os não estudiosos da paleografia, mas interessados nos dados geográficos, históricos, políticos e econômicos, entre outros aspectos levantados pelos autores, podem contar com a transcrição moderna, uma espécie de tradução do português do século 19 para a linguagem atual.

Membros da estatística

Embora o manuscrito tenha sido originalmente produzido por sete pessoas, apenas uma delas teve seu nome destacado na página de rosto, o tenente-coronel José Antônio Teixeira Cabral.

Cartógrafo e engenheiro, sua participação no documento não foi a mais significativa, segundo Martins Filho. Assim como Cabral, o padre-mestre Francisco de Paula e Oliveira também teve colaboração tímida, porém importante, descrevendo o contexto histórico.

Os demais membros responsáveis pelo original da obra são o tenente-general José Arouche de Toledo Rendon, morto sete anos após a produção do relatório, que fez o levantamento territorial de São Paulo. Por ser advogado, descreveu as normas de distribuição das terras, conhecidas como sesmarias.

Os recursos minerais da região, entre outros aspectos do país, foram explorados pelo padre-mestre Manoel Joaquim do Amaral Gurgel. Outro sacerdote a contribuir com o documento foi José Antônio dos Reis ao coletar os dados do setor agropecuário.

Parte dos recursos hídricos e dos recursos naturais foi levantado por Candido Gonçalves Gomide. Um dado curioso descrito no documento é sobre o rio Tietê: “As margens do Tietê abundam de soberbo arvoredo e de muitas e ótimas frutas silvestres. Cria copiosíssimo e delicioso peixe e, entre outras espécies, há: dourados, saupés, pacus, piracanjubas, surubins, piracambucus, jaús e piraquaxiaras, algumas de duas arrobas”. Cenário inimaginável para os atuais habitantes da capital paulista com o poluído rio que corta a metrópole.

Joaquim Floriano de Toledo foi um dos que mais atuaram no manuscrito ao abordar a região costeira da província paulista. Toledo faz também um relato da organização política, assim como a relação entre a igreja e o Estado de uma das mais importantes províncias do Brasil Império.

  • A Estatística da Imperial Província de São Paulo
    Autor: José Antônio de Teixeira Cabral
    Lançamento: 2010
    Preço: R$ 120
    Páginas: 440
    Mais informações: www.edusp.com.br

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sábado, 12 de março de 2011

Movimento da senzala

 

Movimento da senzala

Referência na historiografia brasileira, livro O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da Abolição, ganha edição revista (Imagem: J.B. Debret)

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Com base na historiografia tradicional, o abolicionismo e o fim da escravidão no Brasil foram interpretados por muito tempo como processos elitistas, nos quais o escravo aparecia como um personagem passivo. O livro O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da Abolição, que acaba de ganhar sua segunda edição, revista, vem contribuindo desde 1994 para mudar essa visão.

O fim da escravidão foi resultado de uma cultura política gestada no cotidiano do trabalho nas senzalas, de acordo com a obra, fundamentada em pesquisa realizada a partir de múltiplas fontes por Maria Helena Toledo de Machado, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com Maria Helena, a tese central do livro – que teve origem em sua pesquisa de doutorado, concluída na USP em 1991 – é que os escravos não tiveram um papel passivo no processo que culminou com o fim da escravidão, que não teve nada de elitista, ao contrário do que deixava transparecer a historiografia abolicionista.

Os escravos tiveram ampla participação no processo, em um movimento que também envolveu trabalhadores livres pobres e imigrantes. A atuação dos líderes abolicionistas só é compreensível como parte de um contexto de uma cultura política que teve origem nas senzalas, com a tensão social causada por sucessivas fugas em massa ao longo da década de 1880”, disse à Agência FAPESP.

Segundo a historiadora, o objetivo do livro era analisar a atuação dos escravos no processo de abolição, no período entre 1880 e 1888, no contexto paulista. Para isso, além de consultar uma bibliografia internacional, ela realizou uma pesquisa inédita considerando acervos judiciários e a documentação da polícia em cidades paulistas.

Tratava-se de uma documentação massiva, com milhares de documentos que mapeei para selecionar apenas o que se referia aos escravos. A partir dessa seleção, valorizei os casos que relatavam revoltas, fugas em massa, homicídios, invasões de cidades e outros movimentos de maior impacto”, afirmou.

A pesquisadora, então, visitou diversas cidades paulistas, consultou cartórios locais e levantou processos criminais relacionados aos eventos que estavam listados na documentação oficial da polícia.

Além disso, encontrei no Arquivo do Estado, pela primeira vez, o livro de reservados da polícia – onde eram registrados os fatos que não podiam ser divulgados para o público. Colhi os relatórios mais gerais dos chefes da polícia, dos presidentes das províncias e dos jornais da época”, disse Maria Helena.

No ano de 1885, por exemplo, os relatórios do chefe de polícia de Campinas relatavam que havia sido um ano tranquilo, sem maiores problemas a não ser pequenas ocorrências pontuais com escravos. Enquanto isso, o livro de reservados registrava um cenário certamente mais próximo da realidade: a cidade estava em perigo iminente com as fugas em massa de escravos.

Percebi que os jornais eram censurados e retratavam uma versão rósea da realidade que a polícia de fato estava enfrentando. Acompanhei diversos estágios da produção dos eventos. Desde os primeiros telegramas, nos quais os fazendeiros pediam socorro ao subdelegado depois da invasão da sede de uma fazenda por escravos armados, passando pela notificação de cada autoridade, até chegar ao desenrolar do conflito e à divulgação nos jornais”, disse.

Onda de pânico

A historiadora descobriu revoltas de escravos que não haviam sido documentadas anteriormente. Uma delas, abortada, estava planejada para ser realizada em Resende (RJ), em 1881. Os registros diziam que um homem branco conhecido como Mesquita tinha chegado dos Estados Unidos e estava organizando uma revolta de escravos sem precedentes.

Ele orientava os escravos a roubar armas dos senhores, a cortar os fios dos telégrafos e a roubar cavalos. Planejava articular uma ação orquestrada e formar uma excursão para a corte, no Rio de Janeiro, a fim de exigir a abolição da escravidão. Vários episódios mostravam grande movimentação social naquela década – entre São Paulo e Rio de Janeiro – com participação ativa dos escravos”, disse Maria Helena.

Outra revolta estudada foi organizada em 1882, em Campinas (SP), e chegou a ser realizada, embora em dimensão menor que a planejada. Liderada por um escravo liberto chamado Felipe Santiago, essa revolta foi associada à organização de uma seita religiosa denominada Arásia.

Os adeptos tinham iniciações, recebiam novos nomes e eram marcados no corpo em ritos iniciáticos. Esses escravos haviam comprado armas e invadiram a cidade de Campinas em uma ação muito violenta. Esse tipo de episódio dissipa a ideia de que a abolição foi uma libertação passiva, ou um protesto irracional e apolítico dos escravos”, contou.

O título do livro – O Plano e o pânico –, segundo Maria Helena, remete à organização deliberada das revoltas arquitetadas por escravos e à onda de pânico por elas espalhada entre os escravistas.

Depois da revolta de Resende em 1881, houve vários outros episódios e o pânico se espalhou pelo território paulista. O medo era tamanho que, em Bananal, por exemplo, as pessoas chegaram a abandonar as fazendas e fugir para a cidade. As polícias paulista e fluminense, despreparadas, sem armamentos, sem treinamento, viram-se sob o risco palpável de eventos violentos durante toda a década”, disse Maria Helena.

  • O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da Abolição
    Autor: Maria Helena Toledo de Machado
    Lançamento: 2011
    Preço: R$ 37
    Páginas: 248
    Mais informações: www.edusp.com.br

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Os Cortiços de Santa Ifigênia

 

Os Cortiços de Santa Ifigênia

Livro mostra processo de urbanização em região no centro da cidade de São Paulo entre os séculos 19 e 20

Agência FAPESP – O Arquivo Público do Estado de São Paulo lançou, em coedição com a Imprensa Oficial, o livro Os Cortiços de Santa Ifigênia: sanitarismo e urbanização, organizado por Simone Lucena Cordeiro, diretora do Centro de Acervo Permanente do Arquivo.

O livro foi elaborado a partir do Relatório da comissão de exame e inspecção das habitações operárias e cortiços no districto de Sta Ephigenia, documento de 1893 que faz parte do acervo permanente do Arquivo.

O relatório foi escrito em uma época de grande crescimento de São Paulo. De uma população de 69.934 habitantes em 1890, a cidade saltou para 239.820 em 1900.

Novas construções, iluminação elétrica e linha de bondes sinalizavam o projeto de igualar a cidade às grandes capitais europeias. Mas essas iniciativas não resolviam problemas como a falta de saneamento básico ou as péssimas condições de higiene nas habitações populares – que podiam causar epidemias como as de tifo e febre amarela.

O texto permite estudar as condições e as técnicas urbano-sanitárias, bem como a escala espacial das ações do poder público, o projeto de cidade que se queria construir/remodelar e os habitantes das moradias dessa parte da população paulistana, em sua maioria imigrantes.

A reprodução fac-símile do documento ocupa as últimas 128 páginas do livro, juntamente com o Código Sanitário de 1894. Historiadores de diversas áreas contribuíram com textos de análise no novo livro, como Maria Stella Bresciani (Unicamp), Maria Alice Rosa Ribeiro (Unesp) e Jaime Rodrigues (Unifesp).

    Título: Os Cortiços de Santa Ifigência: Sanitarismo e Urbanização (1893)
    Organizadora: Simone Lucena Cordeiro
    Páginas: 224
    Preço: R$ 31,50
    Mais informações: http://livraria.imprensaoficial.com.br

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Questão de pele

 

Questão de pele

Atlas de Dermatologia em Povos Indígenas é lançado para auxiliar profissionais de saúde que atuam em áreas isoladas ou de difícil acesso (reprodução)

Por Mônica Pileggi

Agência FAPESP – O Atlas de Dermatologia em Povos Indígenas foi produzido por um grupo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para colaborar com a rotina de profissionais de saúde ou de agentes indígenas de saúde – representante da tribo ou aldeia que participa de cursos e treinamentos para atuar na atenção básica de sua comunidade – em locais onde nem sempre a presença de um dermatologista é possível.

De autoria dos dermatologistas Jane Tomimori e Marcos César Floriano, e do casal de médicos sanitaristas Sofia Mendonça e Douglas Rodrigues, o livro foi elaborado a partir de um estudo apoiado pela FAPESP, a respeito das doenças de pele mais frequentes entre os povos do Parque Indígena do Xingu.

O projeto, coordenado pelo professor Roberto Geraldo Baruzzi, do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp, teve como finalidade investigar os casos da doença de Jorge Lobo – micose crônica causada pelo fungo Lacazia loboi – nas aldeias do Parque do Xingu, além de capacitar a equipe local de saúde para lidar com as principais dermatoses.

Como também fazíamos o atendimento dermatológico em diversas aldeias, até mesmo no estado do Pará, observamos muitas outras doenças de pele. Foi então que surgiu a ideia do atlas”, disse Jane Tomimori à Agência FAPESP.

A publicação está dividida em 11 capítulos, separados por tipos de doenças: causadas por fungos, bactérias, vírus ou parasitas, entre outras. No primeiro capítulo, os autores remetem o leitor à cultura indígena, abordando aspectos da medicina local e a representação do corpo para esses povos.

O capítulo seguinte serve como um guia introdutório para os agentes de saúde. Por meio de imagens e textos explicativos, os autores descrevem as lesões elementares mais encontradas durante o trabalho de campo, para futuras identificações em exames dermatológicos.

Entre as doenças de pele observadas nos atendimentos, segundo Jane, o tipo mais comum entre as populações isoladas no Parque do Xingu é o impetigo, infecção causada por bactéria – principalmente Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes – de maior frequência em crianças. Contagiosa, pode ser transmitida por lesões existentes ou pelo simples ato de coçar a pele.

Encontramos também uma doença chamada hiperplasia epitelial focal, caracterizada por verrugas na boca. Ela é descrita em algumas etnias espalhadas pelo mundo, entre elas indígenas norte-americanos, e é causada pelo papilomavírus humano”, disse a cientista.

Os pesquisadores estimam que, em vez de disseminada nas aldeias pelo homem “branco”, os índios tenham tendência genética a desenvolver tal doença, que, apesar de benigna, é contagiosa.

Populações ribeirinhas

Jane explica ainda que as variações de temperatura ao longo do dia e os hábitos dos índios influenciam não só na saúde da pele, como também ocasionam problemas respiratórios.

“À noite faz muito frio naquela região. Para se aquecer, eles dormem em torno de uma fogueira. Por conta disso, o número de índios com problemas respiratórios, como bronquite, é muito alto. Esse hábito também resseca muito a pele indígena”, afirmou.

A exposição ao fogo, aliada aos diversos banhos diários desses povos, acabam desenvolvendo ou piorando os casos de eczemas. Durante o trabalho na região, a pesquisadora conta que observou alta incidência da dermatose nos índios.

Segundo Jane, embora o título do atlas aponte para doenças observadas em indígenas, seu uso também é indicado a profissionais que atuam com populações ribeirinhas, uma vez que seus hábitos são semelhantes aos dos índios brasileiros.

  • Atlas de Dermatologia em Povos Indígenas
    Autores: Douglas A. Rodrigues, Jane Tomimori, Marcos C. Floriano e Sofia Mendonça
    Preço: R$ 70
    Páginas: 160
    Editora: Unifesp
    Mais informações: www.fapunifesp.edu.br/editora

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Dos banguês às usinas

 

Dos banguês às usinas

Livro analisa o desenvolvimento da economia açucareira do fim do Império até 1940 e mostra como produtores paulistas conquistaram o mercado brasileiro

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – O Estado de São Paulo ocupa o topo da produção de açúcar no Brasil. Segundo dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), o Brasil produziu 31 milhões de toneladas na safra de 2008/9 e o açúcar paulista foi responsável por mais de 19,6 milhões de toneladas, ou cerca de 63% do total.

A história da cultura de cana-de-açúcar no país mostra que essa liderança foi conquistada gradativamente e somente a partir de 1940. Na década de 1910, por exemplo, o açúcar produzido em São Paulo respondia por apenas 8% da produção brasileira.

O livro Banguês, engenhos centrais e usinas: o desenvolvimento da economia açucareira em São Paulo e a sua correlação com as políticas estatais (1875-1941), de Roberta Barros Meira, analisa de que forma os engenhos e usinas paulistas se modernizaram e estruturaram seu negócio.

De acordo com autora, São Paulo, apesar de ter sido uma área secundária da produção açucareira, passou no período por uma grande mudança no setor. A compra de maquinário importado, como centrífugas de açúcar, moendas mais potentes e a construção de ferrovias – que ligavam os engenhos aos canaviais –, deram impulso na disputa pelo mercado do produto.

“Essa modernização ocorreu também no Nordeste. Mas, diferentemente de São Paulo, cujos engenhos foram montados principalmente por empreendimentos nacionais, lá houve maior participação de empresas estrangeiras, que trouxeram maquinário já defasado, visando apenas a lucros imediatos”, disse Roberta, doutoranda em História Econômica pela Universidade de São Paulo, à Agência FAPESP.

O livro teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações. Roberta desenvolve atualmente a pesquisa de doutorado “Do terceiro distrito dos engenhos centrais às usinas, também com apoio da Fundação.

De acordo com Carlos de Almeida Prado Bacellar, do Departamento de História da Universidade de São Paulo e orientador do estudo, o livro ressalta o papel que o açúcar teve dentro da economia paulista em um período que é mais lembrado pela produção do café.

O livro é dividido em três blocos temáticos. O primeiro analisa o processo de substituição dos engenhos tradicionais (banguês) pelos engenhos centrais. O segundo aborda o nascimento das usinas na Primeira República e o terceiro foca nas políticas estatais que ajudaram a consolidar o negócio açucareiro durante o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945).

De acordo com a autora, umas das primeiras medidas para modernizar o setor se deu com a criação dos engenhos centrais no fim do Império. “Eles surgiram como forma de promover a racionalização da produção, a partir da separação da parte agrícola da parte fabril. O objetivo era separar a tarefa do fazendeiro, que seria exclusivamente agricultor, da atividade do usineiro”, disse Roberta.

Mas a ideia dessas estruturas fracassou por vários problemas dentre eles a falta de mão obra especializada,  de matéria-prima e necessidade de mais ferrovias ligadas aos canaviais para escoar a produção. “São Paulo saiu na frente na questão do transporte e por empregar a mesma mão de obra utilizada e que dava certo no café: o colono imigrante”, disse.

Devido à forte concorrência de grandes produtores, de Cuba e da Europa (com o açúcar de beterraba), o Nordeste perdeu espaço nas exportações no fim do século 19. As exportações para os Estados Unidos – maior mercado no período – declinaram drasticamente entre 1884 e 1886, despencando de 140 mil toneladas por ano para 80 mil.

São Paulo se firmou com o crescimento do mercado interno e a produção paulista passou a interessar aos investidores estrangeiros, em especial aos franceses, que adquiriram vários engenhos centrais no período.

Sob atuação do IAA

Algumas políticas implementadas no primeiro governo Vargas foram decisivas para tentar consolidar a indústria açucareira no país, segundo a autora. Em 1933, foi criado o Instituto do Açúcar e Álcool (IAA), cuja atuação garantiu por mais tempo a hegemonia dos produtores nordestinos e conteve o avanço paulista até 1940.

O IAA tentou regular o preço, estabelecendo cotas de produção para cada usina e para cada estado. Sob a atuação do IAA, o açúcar nordestino voltou a ser exportado. São Paulo também se beneficiou nessa época porque conseguiu vender o produto internamente a preços vantajosos, enquanto o Nordeste exportava com margem de lucro muito pequena”, contou Roberta.

Entre outras medidas adotadas no governo Vargas se destacou a obrigatoriedade da mistura de 5% de álcool anidro à gasolina importada, mas o pequeno mercado automobilístico e o preço inviabilizaram os investimentos dos usineiros em destilarias.

O governo Vargas, segundo Roberta, assumiu uma postura definitiva para que o açúcar de usina fosse aceito pela população. “O açúcar produzido nas refinarias, o cristal, era consumido pela elite, enquanto a população consumia o mascavo. Mas, com o aumento na produção industrial e nos subsídios à produção, o preço do açúcar cristalizado se tornou mais acessível à população”, disse.

    Título: Banguês, engenhos centrais e usinas, o desenvolvimento da economia açucareira em São Paulo e a sua correlação com as políticas estatais (1875-1941)
    Autor: Roberta Barros Meira
    Páginas: 338
    Preço: R$ 62
    Mais informações:
    www.alamedaeditorial.com.br

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