sábado, 26 de fevereiro de 2011

Os Cortiços de Santa Ifigênia

 

Os Cortiços de Santa Ifigênia

Livro mostra processo de urbanização em região no centro da cidade de São Paulo entre os séculos 19 e 20

Agência FAPESP – O Arquivo Público do Estado de São Paulo lançou, em coedição com a Imprensa Oficial, o livro Os Cortiços de Santa Ifigênia: sanitarismo e urbanização, organizado por Simone Lucena Cordeiro, diretora do Centro de Acervo Permanente do Arquivo.

O livro foi elaborado a partir do Relatório da comissão de exame e inspecção das habitações operárias e cortiços no districto de Sta Ephigenia, documento de 1893 que faz parte do acervo permanente do Arquivo.

O relatório foi escrito em uma época de grande crescimento de São Paulo. De uma população de 69.934 habitantes em 1890, a cidade saltou para 239.820 em 1900.

Novas construções, iluminação elétrica e linha de bondes sinalizavam o projeto de igualar a cidade às grandes capitais europeias. Mas essas iniciativas não resolviam problemas como a falta de saneamento básico ou as péssimas condições de higiene nas habitações populares – que podiam causar epidemias como as de tifo e febre amarela.

O texto permite estudar as condições e as técnicas urbano-sanitárias, bem como a escala espacial das ações do poder público, o projeto de cidade que se queria construir/remodelar e os habitantes das moradias dessa parte da população paulistana, em sua maioria imigrantes.

A reprodução fac-símile do documento ocupa as últimas 128 páginas do livro, juntamente com o Código Sanitário de 1894. Historiadores de diversas áreas contribuíram com textos de análise no novo livro, como Maria Stella Bresciani (Unicamp), Maria Alice Rosa Ribeiro (Unesp) e Jaime Rodrigues (Unifesp).

    Título: Os Cortiços de Santa Ifigência: Sanitarismo e Urbanização (1893)
    Organizadora: Simone Lucena Cordeiro
    Páginas: 224
    Preço: R$ 31,50
    Mais informações: http://livraria.imprensaoficial.com.br

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Questão de pele

 

Questão de pele

Atlas de Dermatologia em Povos Indígenas é lançado para auxiliar profissionais de saúde que atuam em áreas isoladas ou de difícil acesso (reprodução)

Por Mônica Pileggi

Agência FAPESP – O Atlas de Dermatologia em Povos Indígenas foi produzido por um grupo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para colaborar com a rotina de profissionais de saúde ou de agentes indígenas de saúde – representante da tribo ou aldeia que participa de cursos e treinamentos para atuar na atenção básica de sua comunidade – em locais onde nem sempre a presença de um dermatologista é possível.

De autoria dos dermatologistas Jane Tomimori e Marcos César Floriano, e do casal de médicos sanitaristas Sofia Mendonça e Douglas Rodrigues, o livro foi elaborado a partir de um estudo apoiado pela FAPESP, a respeito das doenças de pele mais frequentes entre os povos do Parque Indígena do Xingu.

O projeto, coordenado pelo professor Roberto Geraldo Baruzzi, do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp, teve como finalidade investigar os casos da doença de Jorge Lobo – micose crônica causada pelo fungo Lacazia loboi – nas aldeias do Parque do Xingu, além de capacitar a equipe local de saúde para lidar com as principais dermatoses.

Como também fazíamos o atendimento dermatológico em diversas aldeias, até mesmo no estado do Pará, observamos muitas outras doenças de pele. Foi então que surgiu a ideia do atlas”, disse Jane Tomimori à Agência FAPESP.

A publicação está dividida em 11 capítulos, separados por tipos de doenças: causadas por fungos, bactérias, vírus ou parasitas, entre outras. No primeiro capítulo, os autores remetem o leitor à cultura indígena, abordando aspectos da medicina local e a representação do corpo para esses povos.

O capítulo seguinte serve como um guia introdutório para os agentes de saúde. Por meio de imagens e textos explicativos, os autores descrevem as lesões elementares mais encontradas durante o trabalho de campo, para futuras identificações em exames dermatológicos.

Entre as doenças de pele observadas nos atendimentos, segundo Jane, o tipo mais comum entre as populações isoladas no Parque do Xingu é o impetigo, infecção causada por bactéria – principalmente Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes – de maior frequência em crianças. Contagiosa, pode ser transmitida por lesões existentes ou pelo simples ato de coçar a pele.

Encontramos também uma doença chamada hiperplasia epitelial focal, caracterizada por verrugas na boca. Ela é descrita em algumas etnias espalhadas pelo mundo, entre elas indígenas norte-americanos, e é causada pelo papilomavírus humano”, disse a cientista.

Os pesquisadores estimam que, em vez de disseminada nas aldeias pelo homem “branco”, os índios tenham tendência genética a desenvolver tal doença, que, apesar de benigna, é contagiosa.

Populações ribeirinhas

Jane explica ainda que as variações de temperatura ao longo do dia e os hábitos dos índios influenciam não só na saúde da pele, como também ocasionam problemas respiratórios.

“À noite faz muito frio naquela região. Para se aquecer, eles dormem em torno de uma fogueira. Por conta disso, o número de índios com problemas respiratórios, como bronquite, é muito alto. Esse hábito também resseca muito a pele indígena”, afirmou.

A exposição ao fogo, aliada aos diversos banhos diários desses povos, acabam desenvolvendo ou piorando os casos de eczemas. Durante o trabalho na região, a pesquisadora conta que observou alta incidência da dermatose nos índios.

Segundo Jane, embora o título do atlas aponte para doenças observadas em indígenas, seu uso também é indicado a profissionais que atuam com populações ribeirinhas, uma vez que seus hábitos são semelhantes aos dos índios brasileiros.

  • Atlas de Dermatologia em Povos Indígenas
    Autores: Douglas A. Rodrigues, Jane Tomimori, Marcos C. Floriano e Sofia Mendonça
    Preço: R$ 70
    Páginas: 160
    Editora: Unifesp
    Mais informações: www.fapunifesp.edu.br/editora

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Dos banguês às usinas

 

Dos banguês às usinas

Livro analisa o desenvolvimento da economia açucareira do fim do Império até 1940 e mostra como produtores paulistas conquistaram o mercado brasileiro

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – O Estado de São Paulo ocupa o topo da produção de açúcar no Brasil. Segundo dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), o Brasil produziu 31 milhões de toneladas na safra de 2008/9 e o açúcar paulista foi responsável por mais de 19,6 milhões de toneladas, ou cerca de 63% do total.

A história da cultura de cana-de-açúcar no país mostra que essa liderança foi conquistada gradativamente e somente a partir de 1940. Na década de 1910, por exemplo, o açúcar produzido em São Paulo respondia por apenas 8% da produção brasileira.

O livro Banguês, engenhos centrais e usinas: o desenvolvimento da economia açucareira em São Paulo e a sua correlação com as políticas estatais (1875-1941), de Roberta Barros Meira, analisa de que forma os engenhos e usinas paulistas se modernizaram e estruturaram seu negócio.

De acordo com autora, São Paulo, apesar de ter sido uma área secundária da produção açucareira, passou no período por uma grande mudança no setor. A compra de maquinário importado, como centrífugas de açúcar, moendas mais potentes e a construção de ferrovias – que ligavam os engenhos aos canaviais –, deram impulso na disputa pelo mercado do produto.

“Essa modernização ocorreu também no Nordeste. Mas, diferentemente de São Paulo, cujos engenhos foram montados principalmente por empreendimentos nacionais, lá houve maior participação de empresas estrangeiras, que trouxeram maquinário já defasado, visando apenas a lucros imediatos”, disse Roberta, doutoranda em História Econômica pela Universidade de São Paulo, à Agência FAPESP.

O livro teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações. Roberta desenvolve atualmente a pesquisa de doutorado “Do terceiro distrito dos engenhos centrais às usinas, também com apoio da Fundação.

De acordo com Carlos de Almeida Prado Bacellar, do Departamento de História da Universidade de São Paulo e orientador do estudo, o livro ressalta o papel que o açúcar teve dentro da economia paulista em um período que é mais lembrado pela produção do café.

O livro é dividido em três blocos temáticos. O primeiro analisa o processo de substituição dos engenhos tradicionais (banguês) pelos engenhos centrais. O segundo aborda o nascimento das usinas na Primeira República e o terceiro foca nas políticas estatais que ajudaram a consolidar o negócio açucareiro durante o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945).

De acordo com a autora, umas das primeiras medidas para modernizar o setor se deu com a criação dos engenhos centrais no fim do Império. “Eles surgiram como forma de promover a racionalização da produção, a partir da separação da parte agrícola da parte fabril. O objetivo era separar a tarefa do fazendeiro, que seria exclusivamente agricultor, da atividade do usineiro”, disse Roberta.

Mas a ideia dessas estruturas fracassou por vários problemas dentre eles a falta de mão obra especializada,  de matéria-prima e necessidade de mais ferrovias ligadas aos canaviais para escoar a produção. “São Paulo saiu na frente na questão do transporte e por empregar a mesma mão de obra utilizada e que dava certo no café: o colono imigrante”, disse.

Devido à forte concorrência de grandes produtores, de Cuba e da Europa (com o açúcar de beterraba), o Nordeste perdeu espaço nas exportações no fim do século 19. As exportações para os Estados Unidos – maior mercado no período – declinaram drasticamente entre 1884 e 1886, despencando de 140 mil toneladas por ano para 80 mil.

São Paulo se firmou com o crescimento do mercado interno e a produção paulista passou a interessar aos investidores estrangeiros, em especial aos franceses, que adquiriram vários engenhos centrais no período.

Sob atuação do IAA

Algumas políticas implementadas no primeiro governo Vargas foram decisivas para tentar consolidar a indústria açucareira no país, segundo a autora. Em 1933, foi criado o Instituto do Açúcar e Álcool (IAA), cuja atuação garantiu por mais tempo a hegemonia dos produtores nordestinos e conteve o avanço paulista até 1940.

O IAA tentou regular o preço, estabelecendo cotas de produção para cada usina e para cada estado. Sob a atuação do IAA, o açúcar nordestino voltou a ser exportado. São Paulo também se beneficiou nessa época porque conseguiu vender o produto internamente a preços vantajosos, enquanto o Nordeste exportava com margem de lucro muito pequena”, contou Roberta.

Entre outras medidas adotadas no governo Vargas se destacou a obrigatoriedade da mistura de 5% de álcool anidro à gasolina importada, mas o pequeno mercado automobilístico e o preço inviabilizaram os investimentos dos usineiros em destilarias.

O governo Vargas, segundo Roberta, assumiu uma postura definitiva para que o açúcar de usina fosse aceito pela população. “O açúcar produzido nas refinarias, o cristal, era consumido pela elite, enquanto a população consumia o mascavo. Mas, com o aumento na produção industrial e nos subsídios à produção, o preço do açúcar cristalizado se tornou mais acessível à população”, disse.

    Título: Banguês, engenhos centrais e usinas, o desenvolvimento da economia açucareira em São Paulo e a sua correlação com as políticas estatais (1875-1941)
    Autor: Roberta Barros Meira
    Páginas: 338
    Preço: R$ 62
    Mais informações:
    www.alamedaeditorial.com.br

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