quarta-feira, 4 de maio de 2011

Quem diabos é o diabo?

 

Satanás já fez a figura de um promotor público

celeste e de um orgulhoso Anjo Caído. Mas ele

também tem seu lado ridículo


Jerônimo Teixeira

  Exclusivo on-line
Trechos dos livros
•
Satã - Uma Biografia
• Anjos Caídos

Satanás pelo jeito faz o maior sucesso nos cursos de letras. Acabam de chegar às livrarias brasileiras duas obras de professores de literatura americanos que tentam, cada um a seu modo, limpar a péssima reputação do demônio. Satã – Uma Biografia (tradução de Renato Rezende; Globo; 388 páginas; 40 reais), de Henry Ansgar Kelly, da Universidade da Califórnia, procede a um exame minucioso da Bíblia para demonstrar que o livro sagrado não dá apoio à imagem tradicional que se faz do Diabo. Em Anjos Caídos (tradução de Antonio Nogueira Machado; Objetiva; 88 páginas; 29,90 reais), Harold Bloom, famoso crítico de Yale, chama a humanidade a se solidarizar com o velho Satã: criaturas mortais e imperfeitas, seríamos todos – inclusive você, leitor – Anjos Caídos. Satã, no entanto, sai um tanto diminuído da leitura dessas obras. O fascínio e o pavor que ele inspira resistem mal a tentativas de humanização.

A análise do texto bíblico realizada por Kelly às vezes se perde em filigranas gramaticais, o que torna a leitura um tanto árdua (a tradução inepta também atrapalha: chega ao ponto de confundir o Eclesiástico com o Eclesiastes, dois livros diferentes do Antigo Testamento). No cômputo final, Satanás é quase como um figurante na Bíblia. Sua aparição mais marcante no Antigo Testamento se dá no Livro de Jó, quando ele instiga Deus a testar a devoção de Jó infligindo toda sorte de castigo ao pobre. No Novo Testamento, mais vitaminado do que o barnabé jurídico que aparece em Jó, Satanás parece ter o mundo terrestre sob seu comando – mas tal poder, Kelly argumenta, é em última instância delegado por Deus.

A narrativa cristã da perdição e da redenção do homem quase poderia prescindir do Coisa-Ruim. A Igreja, porém, logo sentiria necessidade de um opositor supremo, uma figura na qual concentrar todo o terror do pecado. Aos poucos, foram atribuídas a Satã qualidades que não lhe pertenciam (seus chifres de bode, por exemplo, não aparecem na Bíblia e são uma provável herança pagã dos faunos, criaturas luxuriosas). Kelly atribui a Orígenes de Alexandria, teólogo do século III, o lance criativo de transformar Satanás em um anjo das hostes divinas que, por orgulho, tenta sobrepujar Deus – e acaba caindo do céu. O Anjo Caído, que prefere sofrer no inferno a servir no céu, ganhará uma dignidade diabólica no Paraíso Perdido, poema do inglês John Milton, do século XVII. É nessa figura que se centra Anjos Caídos, ensaio ligeiro de Bloom, admirador ardoroso de Milton. Derivação menor de Presságios do Milênio, a mais complexa (e esquisita) digressão teológica de Bloom, Anjos Caídos repisa os temas tradicionais do autor: Bloom reclama da decadência da leitura na cultura audiovisual contemporânea e reitera que Shakespeare (que não falava muito de anjos, caídos ou não) é muito, muito importante.

Álbum/AKG/Latinstock

CHIFRES PAGÃOS
O diabo no centro de um sabá de feiticeiras, em quadro do espanhol Goya: figura inspirada nos luxuriosos faunos

A dignidade do Anjo Caído de Milton é uma exceção. Ao caracterizar o Satã de Jó, Bloom diz que ele age como "o diretor da CIA de Deus". No mesmo tom, Kelly diz que o Satã do Novo Testamento não é mais diabólico do que um diretor do FBI. Na Legenda Áurea, coleção de histórias de santos do século XIII, um demônio faz um papelão ao tentar (sem sucesso) fazer com que Santa Justina ceda às investidas sexuais de um sedutor atrapalhado. No Fausto de Goethe, o demônio Mefistófeles se distrai espiando as nádegas dos anjos – e perde a alma de Fausto, carregada para os céus. O poeta francês Charles Baudelaire observou que o maior truque do diabo é nos convencer de que ele não existe. Faz sentido: é só dar-lhe um pouco de atenção, para o diabo se tornar uma figurinha ridícula.

http://veja.abril.com.br/170908/p_140.shtml

sábado, 9 de abril de 2011

Brasilianas na internet

 

A formação de bibliotecas digitais, com acervos a respeito do Brasil, representa um importante passo na democratização da cultura.

Renato Venâncio

 

O conceito de biblioteca brasiliana remete a instituições especializadas em acervos bibliográficos nacionais. Nos últimos anos surgiram importantes brasilianas on line. Esse desenvolvimento preencheu uma importante lacuna. Há uma década, quem quisesse consultar bibliotecas com significativos acervos especializados em história e cultura nacional tinha poucas opções institucionais, quase sempre restritas às cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Os sites que vamos apresentar ainda estão em processo de incorporação de acervos. A utilização integrada deles gera bons resultados. Nesse sentido, primeiramente cabe destacar a “Brasiliana do Itaú Cultural”. Esse portal é, na realidade, uma enciclopédia da literatura brasileira. Os verbetes abarcam os cinco séculos de nossa história cultural, de José de Anchieta a Caio Fernando Abreu. Também são disponibilizados vídeos com entrevistas e apresentações de escritores contemporâneos.

Justamente por ter um caráter enciclopédico, este site serve de porta de entrada a outro, mantido pela Universidade de São Paulo-USP. Esse último está progressivamente acolhendo o magnífico acervo do bibliófilo José Mindlin, recentemente falecido (foto acima).

No portal da “Brasiliana do Itaú Cultural” podemos contextualizar a produção literária dos autores brasileiros. Em seguida, caso a obra seja de domínio público, podemos recuperá-la através da “Brasiliana da USP”. Um exemplo: no primeiro site lemos um resumo da trajetória intelectual de  Casimiro de Abreu; no segundo, recuperamos as primeiras edições de cinco livros desse autor.

A terceira brasiliana a ser destacada é a da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. No site que abriga o projeto, podemos ler e fazer pesquisas em mais de cem livros publicados pela Companhia Editora Nacional. São livros publicados a partir da década de 1930, há muito esgotados, mas fundamentais para a compreensão da história do Brasil.

Revista de História da Biblioteca Nacional

terça-feira, 22 de março de 2011

Preciosidade paleográfica

 

Preciosidade paleográfica

Publicação de A Estatística da Imperial Província de São Paulo, documento de 1827 da Biblioteca Mindlin, descreve o patrimônio paulista natural e humano no século 19

Por Mônica Pileggi

Agência FAPESP – Quando o príncipe dom Pedro de Alcântara proclamou a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, o que atualmente se conhece por estados eram províncias do novo Império.

Criado o estado independente chamado Império do Brasil, era necessário fazer um balanço – do território e do patrimônio natural e humano – para saber o que havia restado da colonização e seguir adiante com a construção de um país.

A Estatística da Imperial Província de São Paulo é resultado desse levantamento, preparado em 1827 a pedido da Assembleia Geral. Na época, a província de São Paulo incluía o que é hoje o Estado do Paraná.

A Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) reuniu em uma única publicação a versão fac-similar do manuscrito, assim como sua transcrição paleográfica – forma antiga de escrita – e a transcrição moderna.

De acordo com Plínio Martins Filho, diretor-presidente da Edusp, a ideia do projeto, que teve apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações, surgiu há cerca de seis anos com o bibliófilo e empresário José Mindlin (1914-2010).

“Essa foi uma das últimas sugestões de Mindlin, junto com as edições da Bibliographia Brasiliana e de Ciência, História e Arte: Obras Raras e Especiais do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, que também foram publicadas pela Edusp”, disse à Agência FAPESP. Essas outras obras também tiveram apoio FAPESP para publicação.

Martins Filho explica que o motivo de produzir uma edição fac-similar vai além de sua importância histórica. “Na questão estética, a obra revela a caligrafia cursiva, que é muito bonita. Além disso, a cópia do documento original permite ao pesquisador conferir a transcrição paleográfica direto na fonte, sem a necessidade de ir à biblioteca”, explicou.

Já os não estudiosos da paleografia, mas interessados nos dados geográficos, históricos, políticos e econômicos, entre outros aspectos levantados pelos autores, podem contar com a transcrição moderna, uma espécie de tradução do português do século 19 para a linguagem atual.

Membros da estatística

Embora o manuscrito tenha sido originalmente produzido por sete pessoas, apenas uma delas teve seu nome destacado na página de rosto, o tenente-coronel José Antônio Teixeira Cabral.

Cartógrafo e engenheiro, sua participação no documento não foi a mais significativa, segundo Martins Filho. Assim como Cabral, o padre-mestre Francisco de Paula e Oliveira também teve colaboração tímida, porém importante, descrevendo o contexto histórico.

Os demais membros responsáveis pelo original da obra são o tenente-general José Arouche de Toledo Rendon, morto sete anos após a produção do relatório, que fez o levantamento territorial de São Paulo. Por ser advogado, descreveu as normas de distribuição das terras, conhecidas como sesmarias.

Os recursos minerais da região, entre outros aspectos do país, foram explorados pelo padre-mestre Manoel Joaquim do Amaral Gurgel. Outro sacerdote a contribuir com o documento foi José Antônio dos Reis ao coletar os dados do setor agropecuário.

Parte dos recursos hídricos e dos recursos naturais foi levantado por Candido Gonçalves Gomide. Um dado curioso descrito no documento é sobre o rio Tietê: “As margens do Tietê abundam de soberbo arvoredo e de muitas e ótimas frutas silvestres. Cria copiosíssimo e delicioso peixe e, entre outras espécies, há: dourados, saupés, pacus, piracanjubas, surubins, piracambucus, jaús e piraquaxiaras, algumas de duas arrobas”. Cenário inimaginável para os atuais habitantes da capital paulista com o poluído rio que corta a metrópole.

Joaquim Floriano de Toledo foi um dos que mais atuaram no manuscrito ao abordar a região costeira da província paulista. Toledo faz também um relato da organização política, assim como a relação entre a igreja e o Estado de uma das mais importantes províncias do Brasil Império.

  • A Estatística da Imperial Província de São Paulo
    Autor: José Antônio de Teixeira Cabral
    Lançamento: 2010
    Preço: R$ 120
    Páginas: 440
    Mais informações: www.edusp.com.br

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sábado, 12 de março de 2011

Movimento da senzala

 

Movimento da senzala

Referência na historiografia brasileira, livro O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da Abolição, ganha edição revista (Imagem: J.B. Debret)

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Com base na historiografia tradicional, o abolicionismo e o fim da escravidão no Brasil foram interpretados por muito tempo como processos elitistas, nos quais o escravo aparecia como um personagem passivo. O livro O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da Abolição, que acaba de ganhar sua segunda edição, revista, vem contribuindo desde 1994 para mudar essa visão.

O fim da escravidão foi resultado de uma cultura política gestada no cotidiano do trabalho nas senzalas, de acordo com a obra, fundamentada em pesquisa realizada a partir de múltiplas fontes por Maria Helena Toledo de Machado, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com Maria Helena, a tese central do livro – que teve origem em sua pesquisa de doutorado, concluída na USP em 1991 – é que os escravos não tiveram um papel passivo no processo que culminou com o fim da escravidão, que não teve nada de elitista, ao contrário do que deixava transparecer a historiografia abolicionista.

“Os escravos tiveram ampla participação no processo, em um movimento que também envolveu trabalhadores livres pobres e imigrantes. A atuação dos líderes abolicionistas só é compreensível como parte de um contexto de uma cultura política que teve origem nas senzalas, com a tensão social causada por sucessivas fugas em massa ao longo da década de 1880”, disse à Agência FAPESP.

Segundo a historiadora, o objetivo do livro era analisar a atuação dos escravos no processo de abolição, no período entre 1880 e 1888, no contexto paulista. Para isso, além de consultar uma bibliografia internacional, ela realizou uma pesquisa inédita considerando acervos judiciários e a documentação da polícia em cidades paulistas.

“Tratava-se de uma documentação massiva, com milhares de documentos que mapeei para selecionar apenas o que se referia aos escravos. A partir dessa seleção, valorizei os casos que relatavam revoltas, fugas em massa, homicídios, invasões de cidades e outros movimentos de maior impacto”, afirmou.

A pesquisadora, então, visitou diversas cidades paulistas, consultou cartórios locais e levantou processos criminais relacionados aos eventos que estavam listados na documentação oficial da polícia.

“Além disso, encontrei no Arquivo do Estado, pela primeira vez, o livro de reservados da polícia – onde eram registrados os fatos que não podiam ser divulgados para o público. Colhi os relatórios mais gerais dos chefes da polícia, dos presidentes das províncias e dos jornais da época”, disse Maria Helena.

No ano de 1885, por exemplo, os relatórios do chefe de polícia de Campinas relatavam que havia sido um ano tranquilo, sem maiores problemas a não ser pequenas ocorrências pontuais com escravos. Enquanto isso, o livro de reservados registrava um cenário certamente mais próximo da realidade: a cidade estava em perigo iminente com as fugas em massa de escravos.

“Percebi que os jornais eram censurados e retratavam uma versão rósea da realidade que a polícia de fato estava enfrentando. Acompanhei diversos estágios da produção dos eventos. Desde os primeiros telegramas, nos quais os fazendeiros pediam socorro ao subdelegado depois da invasão da sede de uma fazenda por escravos armados, passando pela notificação de cada autoridade, até chegar ao desenrolar do conflito e à divulgação nos jornais”, disse.

Onda de pânico

A historiadora descobriu revoltas de escravos que não haviam sido documentadas anteriormente. Uma delas, abortada, estava planejada para ser realizada em Resende (RJ), em 1881. Os registros diziam que um homem branco conhecido como Mesquita tinha chegado dos Estados Unidos e estava organizando uma revolta de escravos sem precedentes.

“Ele orientava os escravos a roubar armas dos senhores, a cortar os fios dos telégrafos e a roubar cavalos. Planejava articular uma ação orquestrada e formar uma excursão para a corte, no Rio de Janeiro, a fim de exigir a abolição da escravidão. Vários episódios mostravam grande movimentação social naquela década – entre São Paulo e Rio de Janeiro – com participação ativa dos escravos”, disse Maria Helena.

Outra revolta estudada foi organizada em 1882, em Campinas (SP), e chegou a ser realizada, embora em dimensão menor que a planejada. Liderada por um escravo liberto chamado Felipe Santiago, essa revolta foi associada à organização de uma seita religiosa denominada Arásia.

“Os adeptos tinham iniciações, recebiam novos nomes e eram marcados no corpo em ritos iniciáticos. Esses escravos haviam comprado armas e invadiram a cidade de Campinas em uma ação muito violenta. Esse tipo de episódio dissipa a ideia de que a abolição foi uma libertação passiva, ou um protesto irracional e apolítico dos escravos”, contou.

O título do livro – O Plano e o pânico –, segundo Maria Helena, remete à organização deliberada das revoltas arquitetadas por escravos e à onda de pânico por elas espalhada entre os escravistas.

“Depois da revolta de Resende em 1881, houve vários outros episódios e o pânico se espalhou pelo território paulista. O medo era tamanho que, em Bananal, por exemplo, as pessoas chegaram a abandonar as fazendas e fugir para a cidade. As polícias paulista e fluminense, despreparadas, sem armamentos, sem treinamento, viram-se sob o risco palpável de eventos violentos durante toda a década”, disse Maria Helena.

  • O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da Abolição
    Autor: Maria Helena Toledo de Machado
    Lançamento: 2011
    Preço: R$ 37
    Páginas: 248
    Mais informações: www.edusp.com.br

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Os Cortiços de Santa Ifigênia

 

Os Cortiços de Santa Ifigênia

Livro mostra processo de urbanização em região no centro da cidade de São Paulo entre os séculos 19 e 20

Agência FAPESP – O Arquivo Público do Estado de São Paulo lançou, em coedição com a Imprensa Oficial, o livro Os Cortiços de Santa Ifigênia: sanitarismo e urbanização, organizado por Simone Lucena Cordeiro, diretora do Centro de Acervo Permanente do Arquivo.

O livro foi elaborado a partir do Relatório da comissão de exame e inspecção das habitações operárias e cortiços no districto de Sta Ephigenia, documento de 1893 que faz parte do acervo permanente do Arquivo.

O relatório foi escrito em uma época de grande crescimento de São Paulo. De uma população de 69.934 habitantes em 1890, a cidade saltou para 239.820 em 1900.

Novas construções, iluminação elétrica e linha de bondes sinalizavam o projeto de igualar a cidade às grandes capitais europeias. Mas essas iniciativas não resolviam problemas como a falta de saneamento básico ou as péssimas condições de higiene nas habitações populares – que podiam causar epidemias como as de tifo e febre amarela.

O texto permite estudar as condições e as técnicas urbano-sanitárias, bem como a escala espacial das ações do poder público, o projeto de cidade que se queria construir/remodelar e os habitantes das moradias dessa parte da população paulistana, em sua maioria imigrantes.

A reprodução fac-símile do documento ocupa as últimas 128 páginas do livro, juntamente com o Código Sanitário de 1894. Historiadores de diversas áreas contribuíram com textos de análise no novo livro, como Maria Stella Bresciani (Unicamp), Maria Alice Rosa Ribeiro (Unesp) e Jaime Rodrigues (Unifesp).

    Título: Os Cortiços de Santa Ifigência: Sanitarismo e Urbanização (1893)
    Organizadora: Simone Lucena Cordeiro
    Páginas: 224
    Preço: R$ 31,50
    Mais informações: http://livraria.imprensaoficial.com.br

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Questão de pele

 

Questão de pele

Atlas de Dermatologia em Povos Indígenas é lançado para auxiliar profissionais de saúde que atuam em áreas isoladas ou de difícil acesso (reprodução)

Por Mônica Pileggi

Agência FAPESP – O Atlas de Dermatologia em Povos Indígenas foi produzido por um grupo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para colaborar com a rotina de profissionais de saúde ou de agentes indígenas de saúde – representante da tribo ou aldeia que participa de cursos e treinamentos para atuar na atenção básica de sua comunidade – em locais onde nem sempre a presença de um dermatologista é possível.

De autoria dos dermatologistas Jane Tomimori e Marcos César Floriano, e do casal de médicos sanitaristas Sofia Mendonça e Douglas Rodrigues, o livro foi elaborado a partir de um estudo apoiado pela FAPESP, a respeito das doenças de pele mais frequentes entre os povos do Parque Indígena do Xingu.

O projeto, coordenado pelo professor Roberto Geraldo Baruzzi, do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp, teve como finalidade investigar os casos da doença de Jorge Lobo – micose crônica causada pelo fungo Lacazia loboi – nas aldeias do Parque do Xingu, além de capacitar a equipe local de saúde para lidar com as principais dermatoses.

“Como também fazíamos o atendimento dermatológico em diversas aldeias, até mesmo no estado do Pará, observamos muitas outras doenças de pele. Foi então que surgiu a ideia do atlas”, disse Jane Tomimori à Agência FAPESP.

A publicação está dividida em 11 capítulos, separados por tipos de doenças: causadas por fungos, bactérias, vírus ou parasitas, entre outras. No primeiro capítulo, os autores remetem o leitor à cultura indígena, abordando aspectos da medicina local e a representação do corpo para esses povos.

O capítulo seguinte serve como um guia introdutório para os agentes de saúde. Por meio de imagens e textos explicativos, os autores descrevem as lesões elementares mais encontradas durante o trabalho de campo, para futuras identificações em exames dermatológicos.

Entre as doenças de pele observadas nos atendimentos, segundo Jane, o tipo mais comum entre as populações isoladas no Parque do Xingu é o impetigo, infecção causada por bactéria – principalmente Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes – de maior frequência em crianças. Contagiosa, pode ser transmitida por lesões existentes ou pelo simples ato de coçar a pele.

“Encontramos também uma doença chamada hiperplasia epitelial focal, caracterizada por verrugas na boca. Ela é descrita em algumas etnias espalhadas pelo mundo, entre elas indígenas norte-americanos, e é causada pelo papilomavírus humano”, disse a cientista.

Os pesquisadores estimam que, em vez de disseminada nas aldeias pelo homem “branco”, os índios tenham tendência genética a desenvolver tal doença, que, apesar de benigna, é contagiosa.

Populações ribeirinhas

Jane explica ainda que as variações de temperatura ao longo do dia e os hábitos dos índios influenciam não só na saúde da pele, como também ocasionam problemas respiratórios.

“À noite faz muito frio naquela região. Para se aquecer, eles dormem em torno de uma fogueira. Por conta disso, o número de índios com problemas respiratórios, como bronquite, é muito alto. Esse hábito também resseca muito a pele indígena”, afirmou.

A exposição ao fogo, aliada aos diversos banhos diários desses povos, acabam desenvolvendo ou piorando os casos de eczemas. Durante o trabalho na região, a pesquisadora conta que observou alta incidência da dermatose nos índios.

Segundo Jane, embora o título do atlas aponte para doenças observadas em indígenas, seu uso também é indicado a profissionais que atuam com populações ribeirinhas, uma vez que seus hábitos são semelhantes aos dos índios brasileiros.

  • Atlas de Dermatologia em Povos Indígenas
    Autores: Douglas A. Rodrigues, Jane Tomimori, Marcos C. Floriano e Sofia Mendonça
    Preço: R$ 70
    Páginas: 160
    Editora: Unifesp
    Mais informações: www.fapunifesp.edu.br/editora

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Dos banguês às usinas

 

Dos banguês às usinas

Livro analisa o desenvolvimento da economia açucareira do fim do Império até 1940 e mostra como produtores paulistas conquistaram o mercado brasileiro

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – O Estado de São Paulo ocupa o topo da produção de açúcar no Brasil. Segundo dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), o Brasil produziu 31 milhões de toneladas na safra de 2008/9 e o açúcar paulista foi responsável por mais de 19,6 milhões de toneladas, ou cerca de 63% do total.

A história da cultura de cana-de-açúcar no país mostra que essa liderança foi conquistada gradativamente e somente a partir de 1940. Na década de 1910, por exemplo, o açúcar produzido em São Paulo respondia por apenas 8% da produção brasileira.

O livro Banguês, engenhos centrais e usinas: o desenvolvimento da economia açucareira em São Paulo e a sua correlação com as políticas estatais (1875-1941), de Roberta Barros Meira, analisa de que forma os engenhos e usinas paulistas se modernizaram e estruturaram seu negócio.

De acordo com autora, São Paulo, apesar de ter sido uma área secundária da produção açucareira, passou no período por uma grande mudança no setor. A compra de maquinário importado, como centrífugas de açúcar, moendas mais potentes e a construção de ferrovias – que ligavam os engenhos aos canaviais –, deram impulso na disputa pelo mercado do produto.

“Essa modernização ocorreu também no Nordeste. Mas, diferentemente de São Paulo, cujos engenhos foram montados principalmente por empreendimentos nacionais, lá houve maior participação de empresas estrangeiras, que trouxeram maquinário já defasado, visando apenas a lucros imediatos”, disse Roberta, doutoranda em História Econômica pela Universidade de São Paulo, à Agência FAPESP.

O livro teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações. Roberta desenvolve atualmente a pesquisa de doutorado “Do terceiro distrito dos engenhos centrais às usinas”, também com apoio da Fundação.

De acordo com Carlos de Almeida Prado Bacellar, do Departamento de História da Universidade de São Paulo e orientador do estudo, o livro ressalta o papel que o açúcar teve dentro da economia paulista em um período que é mais lembrado pela produção do café.

O livro é dividido em três blocos temáticos. O primeiro analisa o processo de substituição dos engenhos tradicionais (banguês) pelos engenhos centrais. O segundo aborda o nascimento das usinas na Primeira República e o terceiro foca nas políticas estatais que ajudaram a consolidar o negócio açucareiro durante o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945).

De acordo com a autora, umas das primeiras medidas para modernizar o setor se deu com a criação dos engenhos centrais no fim do Império. “Eles surgiram como forma de promover a racionalização da produção, a partir da separação da parte agrícola da parte fabril. O objetivo era separar a tarefa do fazendeiro, que seria exclusivamente agricultor, da atividade do usineiro”, disse Roberta.

Mas a ideia dessas estruturas fracassou por vários problemas dentre eles a falta de mão obra especializada,  de matéria-prima e necessidade de mais ferrovias ligadas aos canaviais para escoar a produção. “São Paulo saiu na frente na questão do transporte e por empregar a mesma mão de obra utilizada e que dava certo no café: o colono imigrante”, disse.

Devido à forte concorrência de grandes produtores, de Cuba e da Europa (com o açúcar de beterraba), o Nordeste perdeu espaço nas exportações no fim do século 19. As exportações para os Estados Unidos – maior mercado no período – declinaram drasticamente entre 1884 e 1886, despencando de 140 mil toneladas por ano para 80 mil.

São Paulo se firmou com o crescimento do mercado interno e a produção paulista passou a interessar aos investidores estrangeiros, em especial aos franceses, que adquiriram vários engenhos centrais no período.

Sob atuação do IAA

Algumas políticas implementadas no primeiro governo Vargas foram decisivas para tentar consolidar a indústria açucareira no país, segundo a autora. Em 1933, foi criado o Instituto do Açúcar e Álcool (IAA), cuja atuação garantiu por mais tempo a hegemonia dos produtores nordestinos e conteve o avanço paulista até 1940.

“O IAA tentou regular o preço, estabelecendo cotas de produção para cada usina e para cada estado. Sob a atuação do IAA, o açúcar nordestino voltou a ser exportado. São Paulo também se beneficiou nessa época porque conseguiu vender o produto internamente a preços vantajosos, enquanto o Nordeste exportava com margem de lucro muito pequena”, contou Roberta.

Entre outras medidas adotadas no governo Vargas se destacou a obrigatoriedade da mistura de 5% de álcool anidro à gasolina importada, mas o pequeno mercado automobilístico e o preço inviabilizaram os investimentos dos usineiros em destilarias.

O governo Vargas, segundo Roberta, assumiu uma postura definitiva para que o açúcar de usina fosse aceito pela população. “O açúcar produzido nas refinarias, o cristal, era consumido pela elite, enquanto a população consumia o mascavo. Mas, com o aumento na produção industrial e nos subsídios à produção, o preço do açúcar cristalizado se tornou mais acessível à população”, disse.

    Título: Banguês, engenhos centrais e usinas, o desenvolvimento da economia açucareira em São Paulo e a sua correlação com as políticas estatais (1875-1941)
    Autor: Roberta Barros Meira
    Páginas: 338
    Preço: R$ 62
    Mais informações:
    www.alamedaeditorial.com.br

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