sábado, 24 de março de 2012

Quem foram os amigos de Hitler?

veja


Livro acusa a IBM de ajudar os 
nazistas e reacende a polêmica 
sobre a ascensão de Hitler


Ricardo Amorim e Cristiano Dias

AP 

 
Hitler (à esq.) ao lado do chefão da IBM, Watson: simpatia e condecoração

A ascensão e o triunfo dos nazistas na Alemanha é um dos momentos mais tenebrosos da História recente da humanidade. E um dos menos compreendidos. Quando se vê o filme de trás para a frente, como é o mais comum ao se analisar um fato histórico, tudo faz mais sentido. Os nazistas eram monstruosos, colocaram fogo no estopim das latentes tensões européias na primeira metade do século passado, desencadearam uma guerra mundial que levou à morte 60 milhões de pessoas. Enquanto combatiam, montaram uma máquina mortífera paralela que assassinou 6 milhões de judeus. Mas como, antes da guerra, os nazistas puderam firmar seu poder na Europa e montar a estrutura para o holocausto dos judeus sem serem incomodados pelas potências daquele período? Eis um tema cujo interesse nunca diminui. Na semana passada, mais um capítulo dessa interminável obra chegou ao público pelas mãos do jornalista americano Edwin Black. O lançamento mundial de seu livro IBM e o Holocausto acirrou as discussões em torno do holocausto anti-semita perpetrado pelos alemães. Segundo o autor, graças à tecnologia da Dehomag, a subsidiária da IBM na Alemanha, os nazistas puderam mais facilmente localizar, identificar e assassinar os judeus. "Quem acreditar que de algum modo o holocausto não teria ocorrido sem a IBM está redondamente enganado", escreve Black. "Mas há razões para examinar os fantásticos números atingidos por Hitler na matança de tantos milhões de seres humanos com tanta rapidez e analisar o papel crucial da automação e da tecnologia no genocídio."
Segundo que a máquina de morte engendrada por Hitler funcionasse, era preciso primeiro catalogar suas vítimas, tarefa nada fácil. Afinal, para começar, havia enorme quantidade de judeus e era preciso primeiro identificá-los e registrá-los em listas. Aí teria entrado a IBM. A poderosa corporação não dispunha ainda dos PCs que ajudaram a promover sua expansão, mas dominava uma tecnologia adequada para a tarefa: as máquinas Holleriths de cartões perfurados. Black tenta provar que os equipamentos desenvolvidos para uso no censo americano foram instrumentais na tarefa de dizimar o povo judeu empreendida pelos nazistas.

Reuters


Edwin Black e seu livro-denúncia: vendo os fatos de 1930 com olhos de hoje


Precursora dos computadores modernos, a tecnologia consistia na perfuração de cartões em pontos específicos que serviam para a identificação das características de um determinado indivíduo. Com colunas e linhas numeradas, havia centenas de combinações possíveis. As colunas relacionavam diferentes categorias e as linhas tratavam de particularizar o indivíduo. As colunas 3 e 4, por exemplo, enumeravam dezesseis categorias de cidadãos. O furo na linha 3 identificava o homossexual. A linha 12 indicava um cigano e a linha 8 identificava os judeus.
Quando se passou da perseguição ao extermínio, as máquinas da IBM continuaram fazendo seu trabalho. Algumas delas, segundo o autor, instaladas em campos de concentração. Mesmo durante a guerra, ocasião em que empresas americanas ficaram proibidas de negociar com a Alemanha, a IBM usou suas subsidiárias européias, principalmente a suíça e a alemã Dehomag, para continuar faturando alto com as demandas nazistas, sustenta Edwin Black. O fundador da IBM, Thomas J. Watson, acabou sendo condecorado por Hitler em 1937 pelos serviços prestados. Em 1940, pressionado, Watson, que não escondia sua simpatia pelo líder nazista, devolveu a comenda.
Isso é o que descreve Edwin Black. Os que examinaram o livro com experiência no tema acham que sua descrição força demais nas cores e nos fatos. "É ridículo imaginar que o holocausto ocorreu graças à IBM. A maioria dos planos e sua execução foram desenhados a mão mesmo, com lápis e papel", rebate Efraim Zuroff, diretor do Simon Wiesenthal Center, de Israel, um dos maiores centros de estudo do holocausto no mundo. "Não há novidade nessas revelações. Acho que estão fazendo uma tempestade em copo d'água para vender livro", diz Zuroff. Um dos mais controversos estudiosos do assunto, o historiador americano Norman Finkelstein, lembrou imediatamente do argumento de seu livro The Holocaust Industry (A Indústria do Holocausto), lançado no ano passado, no qual condena as tentativas de responsabilização de empresas e governos pelo genocídio com o propósito de auferir vantagens. Ele se recusou a comentar as acusações à IBM, por não ter lido o livro de Black, mas disse que o lançamento da semana passada pode estar incluído na categoria caça-níquel.

Reuters

A máquina Hollerith, de cartões perfurados: a serviço do mal


Especialista em temas relacionados ao holocausto, a geógrafa Solange Terezinha Guimarães, da Universidade Estadual Paulista, lembra que não foram apenas a IBM e suas subsidiárias que colaboraram com o regime de Adolf Hitler. "Se vamos falar de responsabilidades, temos de citar outras empresas, como a IG-Farben, que deu origem à Basf e foi a principal fornecedora do gás usado nas câmaras dos campos de concentração", diz. A IG-Farben era o principal conglomerado industrial da Alemanha nazista e, com o fim do conflito, teve vários de seus executivos condenados por crimes de guerra pelo Tribunal de Nuremberg, que julgou as atrocidades cometidas no período. A empresa se dividiu em companhias menores, hoje tão famosas quanto a IBM, como é o caso de Basf, Hoescht e Bayer.
A farta documentação que o sustenta não livra o trabalho de Edwin Black de um equívoco fatal: a falta de perspectiva histórica. Black avalia principalmente acontecimentos ocorridos entre 1933 e 1939, época da ascensão do nazismo na Europa, com a visão atual do fenômeno. Diferentemente da percepção que se tem hoje do nazismo, uma ideologia contrária à própria humanidade, o conceito que se tinha na época não era tão nítido nem tão clara a informação sobre seus atos. Hitler era chefe de um governo legítimo e democraticamente eleito, que estava promovendo a recuperação econômica da Alemanha e suscitava simpatias mesmo nos Estados Unidos e na Europa democrática. As atrocidades do nazismo contra os judeus, que já estavam ocorrendo, não eram amplamente conhecidas e, de certa forma, batiam com o largamente disseminado anti-semitismo que grassava em toda a Europa, da Rússia até a França. Assim, muita gente acima de qualquer suspeita acabou aderindo ao fascínio do führer alemão.
Henry Ford, fundador da maior fabricante de carros dos Estados Unidos, nunca escondeu sua admiração por Hitler. A simpatia era correspondida e Hitler cita o nome do empresário americano em Mein Kampf, livro autobiográfico do líder nazista. A exemplo de Watson, Ford também foi condecorado por Hitler em 1938. As boas relações com os nazistas renderam à Ford alemã uma encomenda de 100.000 caminhões para o Exército alemão em 1942. A imagem romântica e combativa da resistência francesa também não corresponde à realidade. Até meados de 1941, os nazistas foram muito bem tratados na França ocupada. Paris fez uma festa com a dinheirama dos soldados e oficiais nazistas. Pelas salas suntuosas do Hotel Ritz, onde morava, a famosa estilista Coco Chanel exibia seu amante, um oficial nazista atlético, jogador de tênis, bom bebedor de champanhe. Depois da guerra, Chanel tentou minimizar o caso. "Na minha idade, quando um homem quer dormir com você, não dá para pedir seu passaporte", disse. Documentos revelados na França, em 1999, mostram seu envolvimento político com oficiais alemães. Chanel teria inclusive sido incumbida pelo alto comando da Wehrmacht, o Exército nazista, de sondar o primeiro-ministro inglês, Winston Churchill, sobre a possibilidade de a Inglaterra assinar um acordo de paz em separado com a Alemanha. Colaboração mais direta teve Ferdinand Porsche, um dos mais talentosos designers de automóveis da época. A admiração de Hitler por Ford levou-o à idéia de produzir na Alemanha um carro popular. Encarregado da tarefa, Porsche inventou o Volkswagen ("carro do povo") em 1935. Com o início da guerra, passou a desenhar tanques para o Exército alemão.

Reprodução

Porsche e o führer: projetos de carros e tanques de guerra


Com o lusco-fusco ideológico que caracterizou a época, fica difícil traçar a fronteira entre o colaboracionismo explícito com o regime nazista e a prestação de serviço a um cliente. Essa confusão atingiu seu grau mais dramático na França ocupada pelos nazistas em 1940. Ao dominar o país, os alemães instalaram um governo na cidade de Vichy, de onde o país seria governado pelos próprios franceses mas a serviço do führer. Coube ao marechal Henri-Philippe Pétain o serviço sujo. Mas ele não estava sozinho. A França de Vichy só sobreviveu graças ao anti-semitismo latente entre os franceses, que aumentou ainda mais após a ocupação. A febre do colaboracionismo acabou levando Louis Renault a colocar suas fábricas de automóvel a serviço do adversário. Ao contrário de Ford e Porsche, Renault foi preso em 1944. Acusado de traição, morreu na cadeia no mesmo ano.
O ataque alemão foi avassalador, a derrota francesa humilhante e qualquer reação à ocupação parecia ridícula. O próprio general Charles de Gaulle desaconselhava enfrentamentos, o que permitiu aos alemães se acomodarem confortavelmente atrás de um governo subserviente em Vichy. O pacto de não-agressão entre a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stalin garantia a vida boa aos alemães, livrando-os de uma resistência armada dos comunistas. Intimamente ligada ao Partido Comunista francês, a resistência francesa só passou a ser efetiva depois que Hitler, em 1941, invadiu a União Soviética, como assinala o historiador francês Marc Ferro, em sua História da Segunda Guerra Mundial, outro livro que procura ver os episódios dentro de uma ótica do seu tempo. A ordem de reagir ao domínio estrangeiro partia assim muito mais de Moscou que de Londres, onde De Gaulle passava seus dias de exilado com muito mais medo dos comunistas que dos próprios nazistas.
A dúvida sobre qual era o verdadeiro inimigo, se o nazismo ou o comunismo, persistiu mesmo depois que as tropas de Hitler invadiram a Rússia em 1941 e lançaram os soviéticos nos braços dos aliados. Mas era muito mais forte dois anos antes, quando Hitler e Stalin assinaram um tratado de não agressão enquanto trocavam amabilidades. O Projeto Avalon, da Universidade de Yale dos Estados Unidos, levantou uma vasta documentação, disponível em seu site na internet desde 1998, que comprova as relações incestuosas entre o regime de Hitler e o de Stalin. Há documentos com força de martelada, como um telegrama enviado pelo chanceler soviético Molotov a seu colega alemão Ribbentrop, logo depois da invasão da Polônia pelos alemães, que detonou a II Guerra Mundial. Diz a mensagem de Molotov: "Recebi sua comunicação a respeito da entrada das tropas alemãs em Varsóvia. Por favor, aceite minhas congratulações e meus cumprimentos ao Governo do Reich Alemão". Com os aliados nazistas atacando por um lado, os russos aproveitaram e tomaram a outra metade da Polônia. Além da cumplicidade de Stalin, Hitler contava com a conivência ou a indiferença das potências ocidentais. Hitler foi recebido como herói nacional em Viena depois da incorporação da Áustria, em 1938, e ninguém moveu uma palha quando a Alemanha anexou a Checoslováquia no ano seguinte. Foi somente no final de 1942 que o mundo, atordoado, começou a tomar conhecimento da política de extermínio do governo alemão, mas até o fim da guerra não se tinha plena consciência das dimensões da tragédia. O livro de Black, se erra em focar no papel de uma única empresa, a IBM, tem o mérito de lembrar que sem a ajuda de comunistas e capitalistas o veneno de Hitler talvez pudesse ter sido contido antes de espalhar destruição pelo mundo.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

História em megabytes

Revista de História

Em tempos de livros digitais, ‘bibliotecas públicas virtuais’ aproximam os leitores de grandes autores que já caíram em domínio público – e também de obras pirateadas e até proibidas pela Justiça

Felipe Sáles

  • Capa do livro de Capistrano de Abreu, transformado em ebook
    Capa do livro de Capistrano de Abreu, transformado em ebook
    Não há dúvidas de que os historiadores gostam mesmo é de papel – de preferência, velho. Mas em tempos de tanta documentação histórica digitalizada – e diante da popularização de tablets que agitam o consumismo natalino –, a RHBN Online preparou o caminho das pedras para os leitores mais modernos encontrarem livros eletrônicos gratuitos no emaranhado de megabytes da internet.
    Há uma infinidade de obras em domínio público presentes nas estantes das bibliotecas públicas virtuais, que permitem pegar livros “emprestados” por tempo indeterminado. É o caso, por exemplo, de um dos nossos mais célebres escritores. Machado de Assis conta até com um site especial, feito pelo Ministério da Educação, que disponibiliza em formato PDF a obra completa do primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Até as correspondências do escritor podem ser baixadas para o seu computador ou tablet.
    O site Domínio Público, do Ministério da Educação, é o oásis dos novos leitores, com mais de 180 mil obras à disposição. Quem não ganhou um tabletno Natal não precisa se preocupar: os livros são disponibilizados, na maioria das vezes, em formato PDF e HTML, padrão das páginas de internet que pode ser visto em qualquer computador. Desde 2004, já foram feitos mais de 30 milhões de downloads de livros diversos.
    Apenas sobre História Geral, são 1.263 obras – 726 delas em português. A mais acessada é “A escravidão”, de Joaquim Nabuco, lida virtualmente por mais de 33 mil pessoas. Outro que se destaca é “História do Brasil: 1500-1627”, de Frei Vicente de Salvador. Quem não leu o célebre “Capítulos de História Colonial (1500-1800)”, de João Capistrano de Abreu, pode começar a qualquer momento.
    Obviamente, a benesse não se restringe aos autores nacionais. Basta um clique para ter acesso a obras de William Shakespeare, Fernando Pessoa e Dante Alighieri – best seller online, com mais de 1,7 milhão de livros baixados –, passando por Pero Vaz de Caminha e Luís de Camões. Não há por que se preocupar com o idioma: o site oferece 16 opções – de latim a sânscrito! –, incluindo, obviamente, versões em português.

    Livro de 1908 sobre o Amazonas
    Livro de 1908 sobre o Amazonas
    Bibliotecas virtuais estaduais e independentes
    Outras opções interessantes são o Google Livros e os sites independentes Biblio e eBooksBrasil. Porém, há alguns problemas: o Google não permite a busca por disciplina, mas torna-se uma boa opção para quem sabe o que procura. Já os outros não têm uma navegabilidade muito fácil de lidar.
    Mas o melhor é que a ideia se irradia por outros estados. O governo do Amazonas, por exemplo, criou sua própria Biblioteca Virtual onde é possível encontrar o “Almanaque do Amazonas para 1908”, repleto de informações sobre Manaus no início do século XX, com direito a fotos e informações gerais da cidade. Já aeditora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) resolveu disponibilizar, gratuitamente, 120 títulos acadêmicos em formato digital. Desde o ano passado, mais de 60 mil pessoas fizeram o download.

    Capa do livro proibido pela Justiça e disponível na internet
    Capa do livro proibido pela Justiça e disponível na internet
    Exclusivo na internet
    Na internet é possível não só encontrar livros para todos os gostos e preços, mas também preciosidades bem longe das prateleiras, graças à Justiça brasileira.
    É o caso de “Roberto Carlos em detalhes”, do historiador Paulo César de Araújo, à disposição, com exclusividade, na internet. Para desespero do rei, que proibiu a comercialização da obra, o Google sinaliza mais de 6 mil sites disponibilizando gratuitamente o livro que disseca a vida do cantor. Paulo César, que não tem ideia de como a obra foi parar na rede, não se cansa de receber e-mails de leitores, não só do Brasil como da Argentina, México e Portugal.
    O livro apareceu digitalizado logo após a proibição, em abril de 2007. Na época, até o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, admitiu que estava lendo a biografia pela internet. Apesar de não capitalizar um trabalho de 15 anos de pesquisa, que abrangeu cerca de 200 entrevistas, Paulo César vê um lado positivo.
    “A rapidez e amplitude com que isto aconteceu podem ser vistas como um ato de desobediência civil, uma reação da sociedade contra a censura. Isto eu acho positivo.  Só lamento que meu livro não possa continuar também livremente nas livrarias, na forma como foi originalmente publicado. Seja como for, o importante é que 'Roberto Carlos em detalhes' continue acessível ao público. Eu escrevi para ser lido”. 

    ‘Democratização da leitura’
    Por outro lado, vários sites e blogs disponibilizam obras inteiras pirateadas – em alguns casos, envoltas num vieis ideológico de democratização da leitura. Num manifesto na internet, os idealizadores do projeto argumentam que a democratização do acesso à tecnologia e a precariedade dos espaços físicos de leitura obrigam a “reconhecer a falência do governo em prover sua população com as ferramentas tradicionais de inclusão cultural, como as bibliotecas”.
    O projeto – que conta com mais de 50 mil usuários cadastrados – parte da hipótese de que “as bibliotecas digitais têm o potencial de provocar mudanças no hábito de leitura e ampliar o acesso a livros”. Até aí, tudo bem. Só falta combinar com os autores que, afinal, precisam sobreviver para manter a "causa".
    Num desses sites são oferecidos, só de História Geral, 19 títulos, como o “Livro das moedas do Brasil – 1643 até o presente”, de Cláudio Amato, Irlei Neves e Arnaldo Russo, e até os oito volumes de “História da Geral África”. Nenhuma editora escapa, ao ponto de algumas capas de livros ganharem até selo do site pirata.

    Iniciativas em prol de pesquisadores e leitores
    Mas como a nova ordem veio para ficar, a Biblioteca Nacional, claro, não ficaria de fora e está com um laboratório de digitalização a todo vapor, seguindo a tendência das bibliotecas mundo afora. A BN faz parte do projeto Biblioteca Digital Mundial, juntamente com instituições de Alexandria, Egito e Rússia. O projeto prevê a digitalização de documentos, cartas, fotos e mapas nas seis línguas oficiais da ONU (inglês, francês, espanhol, árabe, chinês e russo), além do português, graças à participação da Biblioteca Nacional. Estão sendo digitalizados 1.500 mapas raros dos séculos XVI a XVIII, além de 42 álbuns com cerca de 1.200 fotos da Coleção Thereza Christina Maria, doada pelo Imperador D. Pedro II à BN.
    Mas, quem não aguenta de saudade do cheirinho de papel, a internet também oferece uma solução. O site Trocando Livrosfaz, justamente, o que o nome propõe: você cria uma lista de livros que quer trocar e fica aguardando o interesse de algum usuário. Quando houver a solicitação, você envia pelos correios e ganha um crédito para solicitar outro livro. E quem estiver de olho na estante alheia, pode comprar crédito por uma quantia pré-fixada.
    Então, Feliz ano novo e ótimos downloads!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Lampião: cabra-macho ou flor do sertão?

 

Livro que questiona a sexualidade de Lampião gera revolta no meio acadêmico – sobretudo diante de ‘comprovações’ que remetem até a fóruns da internet

Felipe Sáles

Depois de Hitler, Zumbi dos Palmares e a Imperatriz Leopoldina, o, digamos, revisionismo sexual de grandes personagens da História atingiu o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva. O problema é que a “descoberta” do juiz aposentado Pedro de Morais, autor do livro “Lampião, o mata sete” – no qual afirma que o líder do cangaço era homossexual –, nem novidade é, mas se alastrou feito rastilho de pólvora nos megabytes do mundo moderno. O historiador Antônio Amaury, que dedicou nada menos que 63 anos ao estudo do cangaço, inclusive entrevistando vários membros da tropa de Lampião, é categórico: “isso nunca foi sequer cogitado por todos que conheceram e conviveram com Lampião. Portanto, levantar essa difamação foi apenas uma forma desse juiz aparecer”.

Se era esta a intenção (ou apenas difamar o mito), o ex-juiz conseguiu. Uma pesquisa no Google com os termos “Lampião” e “gay” remete a mais de 200 mil resultados, enquanto “Lampião” e “Pedro de Morais” respondem a mais de 40 mil links. Repercussão que, como de praxe nesses casos, ganhou força mesmo após a Justiça proibir o lançamento da obra, a pedido dos parentes do cangaceiro. Pedro de Morais acredita que a decisão será revertida em breve, já que tudo se trata de uma confusão de... sinônimos.

“O próprio juiz, na sentença, afirma que não leu o livro”, argumenta Pedro. “Ele se baseou na manchete de um jornal popularesco, que chamou Lampião de boiola e Maria Bonita de adúltera. Mas em momento algum eu usei esses termos... Depois que ele ler o livro, não haverá problema algum. Tudo o que eu disse está relatado por vários autores. Eu apenas tive a coragem de expor sem meias palavras”.

Fatos controversos

Para sustentar a versão, Pedro de Morais usa como exemplo até fóruns públicos do site Yahoo, onde “todo mundo sabe da homossexualidade de Lampião”.

“Você há de convir que obter prova material de homossexualidade seja difícil. Mas este era um fato amplamente sabido por vários estudiosos”, garante Pedro, citando como exemplo o professor Luiz Mott, doutor em antropologia e fundador do Grupo Gay da Bahia. A tese de Mott – igualmente não aceita por quem se dedicou especificamente ao tema cangaço – se baseia em relatos de que Lampião, na intimidade, adorava perfume francês, usava um lenço de seda e muitos anéis nos dedos. Foi o suficiente para a conclusão – de Pedro, claro, mas não de Antônio Amaury, do alto de suas mais de 250 horas de conversa com cangaceiros e mais de 7 mil entrevistas realizadas sobre o assunto.

“Com todo o respeito, Mott dedicou a vida ao tema da homossexualidade, não ao estudo do cangaço. Não há o menor fundamento para se afirmar isso. Eu conversei com mais de 30 cangaceiros, alguns diretamente ligados a Lampião, e ninguém jamais sequer comentou esse tipo de coisa. Inclusive, conversei uma vez com a mulher de um cangaceiro, que foi presa e levada para Salvador. Ela contou que só ouviu falar desse tipo de conduta, entre pessoas do mesmo sexo, ao chegar lá, na cidade grande”, conclui Antônio.

Provas x Anedotas

O médico-legista Estácio de Lima, autor de “O mundo estranho dos cangaceiros”, também é citado como fonte. Segundo Pedro, Lampião é descrito como um homem de “trejeitos afeminados”, com “postura de homossexual” e até “realizador da cultura homossexual”, conforme descreve o ex-juiz, acrescentando ainda que Lampião “não tinha capacidade de ereção”.

Antônio refuta:

“Não há testemunhos nem a menor evidência para esse tipo de acusação. Mas agora está na moda dizer que toda personalidade histórica foi homossexual. Uma das bases dessa acusação estapafúrdia de impotência foi um tiro que Lampião levou na virilha. Mas esse ferimento, comprovadamente, de modo algum afetou sua virilidade, muito menos, obviamente, sua masculinidade”.

Seja como for, Pedro de Morais não faz questão de esconder a antipatia pelo rei do cangaço, que foi tema da reportagem “Fascinantes facínoras”, publicada em “falo o que penso”.

“Eu trabalhei nas comarcas de Canindé e Poço Redonda e cansei de ouvir histórias escabrosas de Lampião. Meu objetivo é desmitificar esse canalha, um dos piores elementos que a natureza já produziu”, afirma.

Policial militar de Sergipe, Marcelo Rocha também faz pesquisas sobre o cangaceiro, mas sob o ponto de vista da polícia – ou seja, de quem não teria o menor motivo para defender Lampião. Ele também rejeita a tese.

“Não há a menor evidência sobre isso, nenhum relato ou livro com fundamento para tanto. O máximo que havia era conversas de esquina, meras anedotas do povo”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Dieta totalmente natural? Isso não existe, diz cientista

 

Jeff Grabmeier

Dieta totalmente natural? Isso não existe, diz cientista

"Não há uma maneira natural de comer para a qual precisamos retornar. A cultura influencia tudo o que fazemos," defende a pesquisadora.[Imagem: Cambridge Press]

Saudosismo alimentar

Da dieta do paleolítico à dieta dos alimentos crus, muitas pessoas preocupadas com a saúde física agora querem comer da maneira que elas acreditam que nossos ancestrais comiam.

Mas algumas dessas prescrições alimentares fazem pouco sentido para os humanos modernos, de acordo com um novo livro sobre a evolução do uso de alimentos e dos hábitos alimentares entre os povos pré-históricos.

Embora haja muito que possamos aprender com o que nossos antepassados comiam, muitos dos nossos alimentos e dietas mais modernos foram desenvolvidos por bons motivos, afirma a Dra. Kristen Gremillion, professora de antropologia da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos.

Dietas naturais

"Os seres humanos são onívoros, nós podemos comer uma grande variedade de coisas," diz Gremillion, que acaba de publicar seu livro Apetites Ancestrais: A Comida na Pré-História, ainda sem lançamento no Brasil.

"Em vez de tentar fundamentar uma dieta saudável naquilo que nós pensamos que as pessoas costumavam comer milhares de anos atrás, faria muito mais sentido olhar para as nossas necessidades nutricionais hoje e encontrar a melhor maneira de atendê-las," explica.

Uma questão que a pesquisadora levanta contra os muitos modismos das novas dietas é a alegação de que elas seriam de algum modo mais "naturais" porque se concentram em um tempo antes que a cultura moderna estragasse nossos hábitos alimentares.

"Esse tempo nunca existiu", disse Gremillion.

"O comportamento alimentar humano não pode ser reduzido apenas à nossa biologia. A cultura sempre exerceu uma influência importante naquilo que nós comemos e como nós comemos. E as pessoas têm sido criativas, encontrando novos alimentos para comer e novas maneiras de prepará-los. Não há como dizer que só há uma forma correta para comermos," completa a pesquisadora.

Dieta do paleolítico

Uma dieta popular hoje é a chamada "paleo" ou "dieta do paleolítico", algumas vezes também chamada de dieta do homem das cavernas.

Esta dieta é baseada no que as pessoas comiam antes da introdução da agricultura. Há uma ênfase em carnes magras e frutas e legumes, evitando alimentos processados e grãos de todos os tipos.

Gremillion afirma que a dieta paleo tem uma base científica e é uma forma saudável de comer. Mas não é de modo algum mais natural do que outras dietas.

"Não é contra a natureza dos seres humanos comer cereais e grãos, apesar do que algumas pessoas possam dizer. Os humanos começaram a agricultura porque era difícil conseguir alimentos suficientes através da caça e da coleta. Grãos de cereais representam uma fonte estável de calorias," disse ela.

Os grãos de cereais não podem ser a única base de uma dieta, mas podem ser parte de uma alimentação saudável, garante.

Dieta dos alimentos crus

Apesar de a dieta paleo ter uma base científica, Gremillion afirma que a dieta de alimentos crus não tem.

Esta dieta enfatiza a obtenção de calorias de alimentos não cozidos e não transformados.

"Não há realmente nada a se ganhar por comer apenas alimentos crus. Cozinhamos os alimentos há centenas de milhares de anos," disse ela.

O cozinhar remove alguns nutrientes dos alimentos, assim como também divide os compostos nos alimentos para tornar alguns nutrientes mais fáceis para serem assimilados por nossos corpos.

Além disso, é muito mais fácil para nossos dentes e mandíbulas comer alimentos cozidos do que rasgar e triturar alimentos duros e fibrosos.

"Cozinhar pegou por um bom motivo, e não há nenhuma razão real para descartá-lo," defende.

Retorno à natureza

A preocupação com o retorno a um estado mais natural muitas vezes envolve não apenas o que comemos, mas como e onde podemos cultivar alimentos e domesticar animais.

Grande parte da própria pesquisa de Gremillion envolve as origens da agricultura e como os povos primitivos interagiam com o meio ambiente.

"Tem havido uma tendência na cultura americana de pensar que a selva virgem é algo totalmente separado das pessoas. Mas é um equívoco pensar que as paisagens que queremos trazer de volta não foram tocados por pessoas," disse ela.

Estudando os nativos da América do Norte, ela afirma que os seres humanos têm interagido com o meio ambiente desde o momento que pisaram no continente.

Uma das primeiras formas que os nativos interagiram com o ambiente foi através do uso do fogo para limpar áreas para a sua utilização. Mais tarde, eles também adotaram a agricultura em pequena escala.

"Mas não era apenas uma ligação espiritual com a natureza. Foi uma maneira prática de viver da terra", disse ela.

Hábitos culturais

Gremillion afirma que, em tudo o que se relaciona à alimentação - os alimentos que comemos, a forma como os cultivamos e como os preparamos - não há uma maneira natural de fazer as coisas.

"Os seres humanos são flexíveis. Isso é o que fazemos melhor do que qualquer outro animal, e isso significa que podemos nos adaptar às condições," disse ela.

"Não há uma maneira natural de comer para a qual precisamos retornar. A cultura influencia tudo o que fazemos," conclui ela.

Dieta totalmente natural? Isso não existe, diz cientista

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ícone moderno

 

Revista de História

Livro 'O risco - Lucio Costa e a utopia moderna' traça o percurso de vida e as obras do arquiteto que chamava Brasília de 'a cidade que inventei'

Luiz Cruz

Fachada norte do edifício Gustavo Capanema, no Centro do Rio

Fachada norte do edifício Gustavo Capanema, no Centro do Rio

Iluminado. Assim vamos encontrar Lucio Costa no livro “O risco - Lucio Costa e a utopia moderna”, editado por Sesc/RJ e CEF. Geralmente um livro pode virar filme. Este é o contrário, foi o filme de Geraldo Motta Filho que virou livro. Um belo livro, todo em páginas pretas, num bonito projeto gráfico para mostrar a grande figura da arquitetura moderna brasileira. “O risco” traz uma série de depoimentos de pessoas da família, amigos, companheiros de trabalho e admiradores. É obra que contribui muito para entendermos a trajetória do arquiteto.

Lucio Marçal Ferreira Ribeiro Lima Costa nasceu em Toulon, França, em 27 de fevereiro de 1902 e faleceu no Rio de Janeiro, no dia13 de junho de 1998. Ele foi “um pensador, muito mais do que mero arquiteto ou urbanista”, segundo depoimento do arquiteto Lauro Cavalcanti. Iniciou sua formação na França, depois na Suíça e, posteriormente, na Inglaterra. Retornou ao Brasil para cursar a Escola Nacional de Belas Artes. Logo que se formou, em 1924, instalou seu escritório de arquitetura em parceria com Gregory Warchavchik – russo, com formação na Itália, que se mudou para o Brasil em 1923 e foi o precursor da arquitetura moderna em São Paulo. O escritório da dupla se tornaria num reduto de puristas (em oposição ao neocolonial, cheio de detalhes), procurado por jovens arquitetos. Em 1930, foi convidado a dirigir a Escola de Belas Artes e conseguiu inovar todo o sistema de ensino. Uma das consequências foi o Salão Nacional de Arte, de 1931, que tornou-se uma referência das artes plásticas.

Um pouco antes disso, foi criado o Sphan – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (hoje Iphan), ligado à trajetória do arquiteto. Ele integrou a equipe técnica do instituto a partir de 1937 e lá ficou até se aposentar, em 1972. O Sphan nasceu como resultado das propostas dos modernistas brasileiros. Em 1924, foi realizada a conhecida expedição a Minas, que tinha como objetivo uma “redescoberta” do se havia produzido de arte no Brasil. Dela faziam parte: Mario de Andrade, Oswald de Andrade e seu filho Nonê, Tarsila do Amaral, Olívia Guedes Penteado, René Thiollier, Gofredo da Silva Telles e o poeta franco-suíço Blaise Cendrars. Encontraram tesouros, além de sítios correndo grave risco de se perderem devido ao total abandono. Foi a partir dessa expedição que se iniciou a preocupação para a preservação patrimônio cultural. O texto do Decreto-Lei Nº 25, de 30 de novembro de 1937, teve redação de Mario de Andrade, com orientação jurídica de Rodrigo Mello Franco de Andrade, que era advogado e foi o primeiro diretor do órgão, dirigindo-o por 30 anos. Rodrigo conseguiu formar um grupo de apoio expressivo, envolvendo várias figuras como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mario de Andrade e outros.

Em 1935, por meio de edital publicado em 23 de abril, foi realizado um concurso para a escolha do projeto arquitetônico para a nova sede do Ministério da Educação, Cultura e Saúde. A proposta vencedora foi de Archimedes Memória, de inspiração “marajoara”. O vencedor recebeu o prêmio, mas o projeto não foi executado. Como naquele momento predominava a influência “modernista”, em circunstância deliberada por Drummond, o ministro Gustavo Capanema, convidou Lucio Costa para criar o projeto para a sede do ministério.

Lucio monta, então, uma equipe para desenvolver a proposta, fazendo parte dela Carlos Leão, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos, Affonso Eduardo Reidy. Oscar Niemeyer trabalhava juntamente com Lucio, em seu escritório, mas não se sentia parte da equipe – estava aprendendo. Porém, deu contribuições expressivas para a elaboração do projeto.

Foi o Lucio Costa quem sugeriu que se convidasse o arquiteto Charles Edouard Janneret, mais conhecido por Le Corbusier, para prestar uma consultoria durante a elaboração do projeto para a sede do Ministério da Educação, Cultura e Saúde, depois Palácio da Cultura e atualmente Palácio Gustavo Capanema. O arquiteto passou seis semanas no Brasil e fez muitas sugestões, mas predominou a inspiração dos arquitetos brasileiros e o prédio ficou com as características leves e sobre pilotis elegantes. Enquanto a obra deste arquiteto é pesada, extremamente arrojada. O oposto desenvolvido pela arquitetura moderna brasileira, que foi reconhecida internacionalmente pela ousadia e inovação.

O edifício é considerado um marco no estabelecimento da arquitetura moderna brasileira, tendo-se tornado referência internacional. Foi a grande atração da mostra “Brasil Builds”, realizada no Museum of Modern Art of New York, de 1943, e referência na revista francesa “Architecture D’Aujourd’hui”, de 1947.

 

Lucio Costa foi um homem do patrimônio. Ele dizia que só é possível revolucionar o futuro se você conhecer bem o passado. E como arquiteto e urbanista, ele mergulhou profundamente no passado. Sua viagem a Diamantina, em 1924, marcou para sempre sua vida profissional. Ele se encantou pela cidade, organizada e instalada num lugar isolado, onde a pedra predominava. Depois, a convite de Rodrigo Melo Franco de Andrade, pelo Iphan, realizou duas longas viagens por Portugal coletando informações para redigir um trabalho mais amplo sobre a origem de nossa arquitetura. Como Lucio Costa foi postergando a redação do trabalho e Rodrigo tinha pressa em ver resultados, decidiu, então, convidar Germain Bazin, do Museu do Louvre, que prontamente aceitou o convite e redigiu “L’architecture religieuse baroque au Brésil”, Paris, Plon, 1956. Lúcio ficou inconformado, achou que tinha sido traído por Rodrigo, mas suas viagens a Portugal resultaram em cadernos com muitos desenhos e informações. Se Lucio não redigiu o trabalho, as viagens muito contribuíram para o entendimento da formação das antigas vilas portuguesas e nossas cidades.

“A cidade inventada”. Assim, o arquiteto e urbanista se referia à Brasília, cidade que ele criou. Isto surgiu em decorrência a uma série de críticas que fizeram sobre a nova capital brasileira. Uma capital instalada no nada, sem referência, sem memória, apenas implantada no centro do País, no cerrado. Onde predominavam árvores retorcidas e terra vermelha (um lugar totalmente desconhecido no aspecto ambiental). Lucio não compareceu à inauguração de Brasília. Só a visitou depois de muitos anos, acompanhado de sua filha, Maria Elisa Costa, também arquiteta, e ficou encantado com sua criação, ao constatar que lá já havia uma geração de pessoas nascidas na cidade, havia vida própria. E era uma cidade com alma. “A cidade que inventei”. Esta passa a ser a referência que Lucio Costa utilizava após sua visita.

Essa “invenção” aconteceu após o retorno de uma de suas muitas viagens. Após desembarcar, pôs-se a trabalhar. Havia se inscrito no concurso para a criação do Plano Urbanístico de Brasília. Trabalhou silenciosamente durante dois meses em casa e em seu escritório. Apenas sua filha sabia o que se passava em sua cabeça. No dia 10 de março de 57, poucos minutos antes de encerrar o prazo de inscrições, Maria Elisa Costa entrega o projeto criado seguindo os preceitos da Carta de Atenas, documento elaborado em 1933, pelo Congresso Internacional de Arquitetura Moderna. Era uma proposta diferente, um projeto literário e muitos desenhos feitos a lápis de cor.

A comissão julgadora era composta pelo sir William Holford, urbanista inglês, André Sive, Stamos Papadaki, Oscar Niemeyer, Luiz Hildebrando Horta Barbosa e Paulo Antunes Ribeiro. À primeira vista, tudo parecia confuso, mas após a terceira leitura, sir Holford entendeu e clamou que estava diante da maior contribuição urbanística do século XX. O projeto de Lucio Costa foi o vencedor e Oscar Niemeyer foi o arquiteto escolhido para criar as edificações. Assim, Brasília saiu do papel e se tornou realidade.

Em 1962, Darcy Ribeiro era o ministro da Educação e Cultura, no Governo de João Goulart, e trouxe novamente ao Brasil Le Corbusier. Um dos pontos visitados por ele foi o Parque Guinle, projetado por Lucio Costa, com amplo uso de treliças e bastante inspirado na arquitetura colonial mineira. Ítalo Campofiorito foi o escolhido para acompanhar o arquiteto, inclusive a visita à Brasília. Ítalo registrou as impressões do famoso urbanista franco-suíço em “O risco”, que disse: “eles conseguiram uma coisa que nunca consegui. Mas contavam com uma coisa que eu nunca tive ao meu lado: a autoridade”. E continuou: “Essa cidade foi pensada par un type”. Mais adiante: “O que é bom nessa cidade é que ela tem uma alma”. A visita dele e os registros de suas impressões são um presente à capital brasileira, uma cidade símbolo do modernismo, da ousadia do brasileiro.

No mesmo livro “O risco - Lucio Costa e a utopia moderna”, vamos encontrar depoimentos impressionantes, especialmente o de Sergio Ferro que apresenta um enorme contraste sobre o clima de sonho e prosperidade que tomou conta dos anos em que se construía Brasília e a triste realidade do dia a dia da construção, das péssimas condições oferecidas aos operários, uma mão-de-obra sem qualificação alguma. Milhares de homens que enfrentavam jornadas enormes de trabalho, com alimentação precária. Cercados e ameaçados. Segundo Sergio Ferro, o sofrimento era tanto que muitos operários se suicidaram. Jogaram-se embaixo de caminhões, desesperados, com fome, diarreia e impossibilitados de sair de lá. Um contraste entre a proposta de Lucio Costa e Niemeyer e, principalmente, o discurso oficial de Juscelino Kubitscheck e a realidade.

A memória de Lucio Costa é preservada através da ONG Casa Lucio Costa, criada no Rio de Janeiro, para reunir sua vasta coleção de documentos, desenhos e projetos. Mais informações podem ser obtidas através do site: www.casadeluciocosta.org/

Luiz Cruz é professor de Línguas e Educação Patrimonial, vive em Tiradentes/MG

Referência Bibliográfica:

AMARAL, Aracy A. Blaise “Cendras no Brasil e os modernistas”. São Paulo: Ed.34/FAPESP, 1997.

CAVALCANTI, Lauro Pereira. “Moderno e brasileiro: a história de uma nova linguagem na arquitetura”. Rio de Janeiro: Jorge Zahah Ed., 2006.

WISNIK, Guilherme –Organização. “O risco - Lucio Costa e a utopia moderna”. Coordenação de projeto: Juliana Simões de Carvalho e Geraldo Motta Filho. Apoio Cultural SESC/RJ e outros

Ícone moderno - Revista de História

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

John Milton

 

John Milton, filho do banqueiro John Milton Senior e Sara Jeffrey, nasceu em 9 de dezembro de 1608 em Londres, Inglaterra. Recebeu sua educação formal na mesma cidade, no St Paul's School. Posteriormente, em 1625, matriculou-se no Christ's College, em Cambridge, ali permanecendo por sete anos até concluir os estudos e formar-se em Artes, no ano de 1632. Assim, contrariando o desejo paterno de que Milton seguisse a vida religiosa.

Milton, neste momento, com apenas 25 anos, já se revelava um homem de mente e espírito privilegiados, tendo se graduado com expressão em disciplinas como filosofia, teologia, história, política, ciências e literatura. Também já era um ávido escritor de poemas e sonetos em latim, italiano e, obviamente, inglês. Nesta época ele compõe a obra L'Allegro, uma ode à vida e hábitos no campo, e Il Penseroso, como um complemento do primeiro, sendo um louvor à contemplação e ao recolhimento. Ainda, dedica-se à redação da peça teatral intitulada Comus – Um disfarce, uma fábula mitológica na qual aborda o conflito entre o bem e o mal.

Passa alguns anos de sua juventude morando com seu pai em Buckinghamshire. Neste período, teve a oportunidade de dedicar-se intensamente aos estudos de matemática e de clássicos como Dante, Tasso e Petrarca.

No ano de 1638, após o falecimento da mãe, Milton viaja para a França, Suíça e Itália, tendo conhecido pessoalmente o físico e pensador italiano Galileu Galilei e se aproximado do movimento renascentista. No mesmo ano compõe a elegia Lycidas. A partir de 1641 tem início sua fase mais criativa e produtiva. Milton elabora, além de poemas, sonetos e peças teatrais, ensaios sobre política e religião.

Em junho de 1642, já atuando profissionalmente na área de ensino, casa-se com Mary Powell de apenas dezesseis anos de idade. Porém, cerca de um mês após o matrimônio, Mary parte em visita aos pais e não retorna. Fato que certamente influiu na produção literária de Milton nos anos seguintes, publicando ensaios nos quais defende com veemência a legalidade e os aspectos morais do divórcio.

Em 1641, afrontou a doutrina eclesiástica publicando Of Reformation Touching Church Discipline in England (Sobre a reforma da disciplina eclesiástica na Inglaterra). O contato com o professor tcheco Comenius e com o educador inglês Samuel Hartlib inspirou Milton a elaborar um tratado sobre educação em 1644. No mesmo ano, publicou Areopagitica, um discurso que defende a liberdade da imprensa e até hoje é considerado uma das obras mais bem construídas sobre o tema. Neste período, também participa ativamente da política inglesa e ocupa cargos elevados durante o período republicano.

Em 1645, Mary regressa e Milton aceita seu retorno. O casal teria quatro filhos: Anne, Mary, John e Deborah. No ano seguinte, Milton em boas condições econômicas abandona o ensino. Paralelamente, sofre com a perda de seu pai.

No ano de 1649 o poeta já apresenta sinais da perda gradativa da visão. Foi diretor do jornal Mercurius Politicus em 1651 e abertamente defendeu a revolução em detrimento da monarquia. Manifestou-se também em relação à matança de protestantes na Itália no episódio do Piemonte, através do soneto On the Late Massacre in Piedmont (Sobre o recente massacre em Piemonte).

Mary Powell falece em maio de 1652 devido à complicações no parto de Deborah. No mês seguinte, John de apenas 15 meses, também falece. Estas perdas abalaram sensivelmente Milton. Porém, neste momento, devido à saúde debilitada, não chegou a ser detido após a restauração da monarquia.

Em 1656 Milton casa-se com Katherine Woodcock. No final do ano seguinte, Katherine dá à luz a menina também de nome Katherine. Porém, em fevereiro a esposa Katherine falece. No mês seguinte, a filha Katherine também morre. Em 1658 dá início à produção literária de uma de suas obras mais relevantes: Paradise Lost (Paraíso Perdido). Em 1660, empobrecido, enfermo e contrário às condições políticas da Inglaterra, recolhe-se e dedica o tempo a compilar as próprias obras.

Em fevereiro de 1663, Milton casa-se novamente. Elizabeth Minshull, de apenas 25 anos, é sua terceira esposa. A esta altura, já completamente cego e passando por sérias dificuldades financeiras, dita o poema Paradise Lost que foi redigido em versos não rimados e aborda sob uma perspectiva cristã, a criação de Adão e Eva, o pecado original e a queda de Lúcifer.

Milton, vivendo imerso na pobreza, vende os direitos de publicação de Paradise Lost em 1667, sendo publicada no mesmo ano. Em 1671 publica a continuidade de Paradise Lost, a obra Paradise Regained (Paraíso Recuperado), que teria sido inspirada no Evangelho de Lucas e aborda o retorno de Cristo à Terra para resgatar o que Adão havia perdido. No mesmo ano é publicado Samson Agonistes. Em 1674, Paradise Lost é reorganizado em doze partes pelos editores e é publicado novamente.

Em 8 de novembro de 1674, pouco antes de completar 66 anos e ainda vivendo na companhia de Elizabeth Minshull, John Milton falece devido à diversas enfermidades.

Ao lado de Shakespeare, John Milton é uma das mais célebres e significativas personalidades da literatura inglesa. Sem dúvida, sua obra mais relevante é Paradise Lost que coloca Satã como personagem central e seria fonte de inspiração para os românticos que viriam. Mais do que a figura de autor classicista, um Milton pensador e contestador, politizado e corajoso ajudam a compor sua admirável biografia.

Por Spectrum

John Milton

sábado, 23 de julho de 2011

Livro histórico de Vital Brazil é relançado

 

Obra comemorativa do Instituto Butantan traz fac-símile da original “A Defesa Contra o Ophidismo”, do cientista Vital Brazil, analisada por 12 pesquisadores

 

Agência FAPESP – O Instituto Butantan lançou no dia 4 de julho a edição comemorativa do livro A Defesa Contra o Ophidismo – 100 Anos Depois.

A obra traz um fac-símile da original A Defesa Contra o Ophidismo, do cientista Vital Brazil Mineiro da Campanha (1865-1950), com análises de 12 pesquisadores que abordam desde aspectos históricos dos acidentes e tratamentos envolvendo animais peçonhentos, quanto cenários envolvendo as atuais tecnologias para a produção de soros hiperimunes.

Eentre os autores das análises estão pesquisadores dos Institutos Butantan, de Infectologia Emílio Ribas, Adolpho Lutz, da Fundação Oswaldo Cruz e da Sociedade Brasileira de Toxinologia.

A publicação da obra original completou 100 anos em abril e se tornou um marco na história da produção científica brasileira. Ela é responsável por estabelecer parâmetros para a identificação e tratamento de acidentes com animais peçonhentos por meio de soros.

O ofidismo era um dos maiores desafios da saúde pública no início do século 20 e as descobertas de Vital Brazil, detalhadas no livro, ainda ajudam a salvar vidas. O cientista produziu no Butantan soros específicos para os venenos das serpentes brasileiras.

Mais informações: www.butantan.gov.br

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