sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

União totalitária

 

União totalitária

Livro Teatro e censura: Vargas e Salazar revela que ditaduras de Portugal e do Brasil fizeram parceria para fiscalizar e censurar o teatro. Obra de professora da USP é produto de Projeto Temático da FAPESP (Foto: USP)

Agência FAPESP

Por Fábio de Castro

As ditaduras de Getúlio Vargas, no Brasil (1937-1945), e de António de Oliveira Salazar, em Portugal (1932-1968), colaboraram intensamente – e até assinaram acordos bilaterais – para fiscalizar e censurar o teatro nos dois países. O próprio modelo de controle da expressão artística implantado pelo Estado Novo foi “importado” do regime totalitário português.

As revelações históricas aparecem no livro Teatro e censura: Vargas e Salazar, de Maria Cristina Castilho Costa, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).

A obra é produto do Projeto Temático "Comunicação e censura: analise teórica e documental de processos censórios a partir do arquivo Miroel Silveira da biblioteca da ECA/USP", apoiado pela FAPESP. O projeto é coordenado por Maria Cristina, que estuda a produção cultural paulista entre 1930 e 1970 a partir da documentação reunida no Arquivo Miroel Silveira , que reúne mais de 6 mil processos de liberação de peças teatrais pelo Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo.

O livro teve base em informações extraídas do arquivo, que foi resgatado pelo professor de teatro, diretor, produtor e autor Miroel Silveira (1914-1988) e está sob custódia da Biblioteca da ECA e também do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal.

“Trabalhando simultaneamente com os dois arquivos, pudemos analisar como a cumplicidade política dos regimes de Vargas e de Salazar se refletia nos palcos, nos órgãos de censura e nas políticas culturais dos dois países. Constatamos que essa cooperação estendeu a presença do teatro português no Brasil, enquanto o modelo de censura salazarista era importado pelo Estado Novo”, disse Maria Cristina à Agência FAPESP.

O livro teve origem no mais recente pós-doutorado da pesquisadora, realizado em 2007 e 2008 na Universidade de Coimbra (Portugal), com Bolsa da FAPESP. Na época, a equipe do Projeto Temático já estava produzindo uma base de dados a partir dos processos censórios reunidos no Arquivo Miroel Silveira.

“Um dos campos mais importantes dessa base de dados é o nome dos autores das peças encenadas no Brasil. Mas, muitas vezes, os arquivos remetem a autores sobre os quais não existem mais registros. Grande parte desses nomes era de origem portuguesa, mas não sabíamos quando se tratava de autores do Brasil ou de Portugal. Queríamos descobrir uma base de dados portuguesa, a fim de descobrir quais peças encenadas aqui eram de autores que moravam em Portugal ou no Brasil”, explicou.

Maria Cristina foi a Portugal e descobriu que não havia no país uma base de dados semelhante. No entanto, a partir de estudos sobre a censura realizados em Portugal por Graça dos Santos, da Universidade de Paris 10 – Nanterre (França), a pesquisadora brasileira descobriu a existência, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, de um arquivo que reunia processos de censura prévia do teatro português.

“O arquivo tinha mais de 11 mil registros sobre a censura ao teatro, mas estava em uma fase inicial de organização e não possuía uma base de dados. Comecei a explorar esses arquivos e logo percebi que havia uma incrível semelhança com os processos de censura brasileiros”, disse.

A pesquisadora passou a investigar também, na Torre do Tombo, outros arquivos que diziam respeito ao Brasil. A relação íntima entre os governos de Vargas e Salazar começou a ficar cada vez mais evidente. O ditador português implantou diversas iniciativas culturais a fim de manter os imigrantes ligados à pátria.

“Essas iniciativas envolviam o teatro de revista, o balé folclórico e as Casas de Portugal abertas no Brasil. Havia registros de que o governo português patrocinava companhias teatrais que vinham encenar suas peças no Brasil. Nas décadas de 1920 e 1930 houve uma grande onda de imigração de portugueses para o Brasil e a preocupação manifesta de Salazar era manter a coesão cultural desses imigrantes”, contou.

Os arquivos mostraram intercâmbios diretos entre o Secretariado Nacional de Informação (SNI) e o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) – órgãos responsáveis pela censura em Portugal e no Brasil, respectivamente.

“O DIP e o SNI tinham acordos de trocas de informações formalmente estabelecidos. Quando um intelectual brasileiro ia ser recebido em Portugal, por exemplo, o DIP era acionado para informar ao SNI dados sobre o passado e a atividade política do visitante. E vice-versa. Havia uma seção brasileira no SNI e uma seção portuguesa no DIP”, disse.

Os estudos também mostraram que o modelo adotado pelo governo Vargas para a censura prévia, implantado no fim da década de 1930, foi claramente inspirado no modelo salazarista.

“Os modelos tinham trâmites muito semelhantes, com pareceres de três censores, por exemplo. Por outro lado, ambos eram modelos de controle da produção artística voltados para uma visão ufanista da pátria. Os dois procuravam afastar qualquer análise crítica de problemas nacionais, contradições ou conflitos”, disse Maria Cristina.

As anotações dos censores incluíam, por exemplo, indicações relacionadas ao comprimento das roupas no teatro de revista. Em alguns casos, exigiam que cenas que se passavam em um quarto fossem transferidas para uma sala. Havia preocupação com a linguagem, que não devia se aproximar dos termos populares. “Nos dois casos, tratava-se de uma censura estética, moralista e política extremamente conservadora”, disse.

Mesa-redonda

A censura em Portugal, no entanto, era mais rígida do que no Brasil, segundo Maria Cristina. Os censores portugueses eram militares, alguns deles na ativa, outros já aposentados. Os brasileiros eram civis, a maior parte deles “pseudo-intelectuais apadrinhados do governo”.

“Em Portugal, os pareceres, longos e minuciosos, mostravam que os censores eram pessoas que encaravam a censura como uma atividade patriótica. No Brasil, os pareceres eram mais sintéticos e menos rígidos. No entanto, a quantidade de vetos e cortes era mais ou menos a mesma”, disse.

Os estudos constataram também que a proximidade entre as duas ditaduras proporcionou a manutenção da presença do teatro português em território brasileiro em plena década de 1940, quando as tendências modernistas repudiavam a imitação de modelos europeus.

“Na década de 1940 já estávamos em plena época da cultura modernista, que tinha tendência antilusitana. Por isso era intrigante ver, no Arquivo Miroel Silveira, uma imensa quantidade de peças e autores portugueses sobre os quais não havia qualquer referência. Isso fica explicado com a existência de uma parceria internacional envolvendo um modelo de Estado nazifascista que se apoiava nos meios de comunicação, na arte e nos espetáculos para angariar poder”, explicou.

O lançamento oficial do livro será realizado em março no Centro Universitário Maria Antonia, da USP, com uma mesa-redonda. “Vamos trazer professores portugueses e brasileiros que irão debater a questão da censura e as políticas de Salazar em relação ao Brasil e aos imigrantes”, disse Maria Cristina.

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Ilustre desconhecido

 

Agência FAPESP 

Por Alex Sander Alcântara

Ilustre desconhecido

Livro mostra atuação do príncipe Luís de Orléans e Bragança na tentativa de restaurar monarquia nas primeiras décadas da República (divulgação)

Após a Proclamação da República e queda da monarquia, grandes transformações atingiram a família imperial brasileira, que perdeu o poder político e foi obrigada por decreto a sair do país, passando a residir na França.

Mas pouco se soube da vida e da atuação política da família imperial fora do Brasil. Muito menos se conhece a atuação de seus membros na tentativa de restaurar o período monárquico no país, que marcaria as primeiras décadas da República.

Nesse aspecto, Dom Luís de Orléans e Bragança (1878-1920), segundo filho da Princesa Isabel e de Gastão d’Orléans (conde d’Eu), ocupa um lugar de destaque. Em decorrência da renúncia de seu irmão mais velho, D. Pedro de Alcântara, Dom Luís assumiu a posição de príncipe imperial e se manifestou publicamente no Brasil, ao longo de vários anos, em favor da restauração do trono.

A vida e a atuação política desse personagem – que viveu no Brasil até os 11 anos de idade – ocupam o cenário narrativo do livro Dom Luís de Orléans e Bragança: peregrino de impérios, de Teresa Malatian.

De acordo com a autora, o foco do estudo no biografado se consolidou a partir de suas pesquisas paralelas, sobretudo porque o príncipe teve participação política significativa no decorrer da Primeira República.

“Sua participação não se limitou apenas a confrontar o banimento da família imperial, mas também porque tinha uma proposta política de crítica à Republica, que não era uma mera reprodução do império do seu avô, D. Pedro II”, disse Teresa, professora da Universidade Estadual Paulista, campus de Franca, à Agência FAPESP .

O livro recebeu apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações e é resultado da pesquisa “D. Luís de Orléans e Bragança (1878-1920)", concluída em 2009 e que recebeu apoio da Fundação na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular.

Segundo a historiadora, o príncipe avança em suas propostas ao fazer uma defesa da Federação com abertura para se perceber o movimento operário no Brasil. “Ele abre um pensamento para atualidade brasileira mais voltada para o processo de industrialização, enquanto outros movimentos estavam mais preocupados ainda com a abolição”, destacou.

A crítica à República está contida em dois manifestos, publicados em 1909 e 1913, nos quais D. Luís aborda tanto as excelências como a representação e forma de governo no Império. O manifesto de 1913 é a última participação política de peso do príncipe, quando conseguiu arrebanhar diversos seguidores.

De acordo com Teresa, o príncipe não defendia o poder moderador, mas acreditava que os poderes Legislativo e Judiciário funcionavam melhor no Império do que na República, porque neste regime o controle ficava nas mãos dos representantes das oligarquias.

“Essa crítica encontra ressonância na que era feita à República Velha pelos próprios republicanos. Quando propôs a restauração, D. Luís reconheceu que o imperador havia sido excessivamente ‘liberal’ ao permitir, por exemplo, o crescimento do Partido Republicano. Por outro lado, defendeu que os militares deveriam ter um papel muito mais importante quando comparado à atuação de D. Pedro II”, disse.

Peregrino de impérios

O livro é divido em 12 capítulos, acompanhado de um caderno de imagens, e narra a formação educacional e militar, casamento e trajetória do príncipe como viajante de quatro continentes. “O subtítulo ‘Peregrino de impérios’ se refere tanto aos lugares por onde passou como ao desejo de retornar ao Brasil, tentativa frustrada em 1907”, explicou.

Apesar de não ser um pensador no sentido restrito, D. Luís teve uma trajetória intelectual relevante não somente como ativista político. Publicou livros de viagens, foi repórter de guerra na África e fotógrafo. Seu livro mais importante é Sobre o Cruzeiro do Sul.

“Nesse livro, que foi publicado originalmente em francês, ele explicou sua plataforma política. Suas atividades intelectuais o levaram a ser aceito no Instituto Geográfico do Brasil e a pertencer à Sociedade de Geografia de Paris. Mas não conseguiu entrar para a Academia Brasileira de Letras devido ao antagonismo político com Ruy Barbosa, então presidente da academia”, disse.

De acordo com a docente da Unesp, D. Luís tinha uma preocupação muito comum naquele época, que era a de mostrar na literatura de viagem as ‘terras exóticas’ da África aos europeus.

O príncipe morreu aos 42 anos, antes da Primeira Guerra Mundial. “Depois disso, apesar de persistir mais no plano teórico, o movimento monarquista ficou órfão porque seus filhos ainda eram menores de idade. O objetivo do livro é mostrar que ele não foi um personagem secundário nesse processo”, disse Teresa. 

  • Título: Dom Luís de Orléans e Bragança: peregrino de impérios
    Autora: Teresa Malatian
    Páginas: 270
    Preço: R$ 55
    Mais informações: www.alamedaeditorial.com.br

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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Os dinos do Brasil

 

Livro conta a história de 21 espécies encontradas no território nacional

Marcos Pivetta

© ilustração Felipe alves elias

Antarctosaurus brasiliensis (à esq.) e espécie sem nome de maniraptor: dois dinossauros do período Cretáceo

Recém-lançado, o livro O guia completo dos dinossauros do Brasil (Editora Peirópolis, 222 páginas, R$ 62,00) apresenta ao leitor, de forma didática e por meio de fartas e belas ilustrações, 21 espécies de dinossauros cujos restos foram localizados em território nacional. A obra foi escrita pelo paleontólogo Luiz Eduardo Anelli, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP). As prováveis formas dos dinossauros brasileiros foram reconstituídas a partir da análise de seus registros fósseis, num trabalho unindo ciência e arte feito por Felipe Alves Elias, também paleontólogo.

A ideia de escrever o guia surgiu depois de Anelli ter sido curador da mostra Dinos na Oca, que atraiu um público de 550 mil pessoas ao Parque do Ibirapuera, na cidade de São Paulo, entre dezembro de 2005 e fevereiro de 2006. “As pessoas me fizeram muitas perguntas sobre os dinossauros do Brasil”, diz o paleontólogo. Como cientista, Anelli estuda moluscos e conchas das eras Paleo­zoica e Cenozoica do Brasil e da Antártica, que já estavam na Terra muito antes de aparecerem os primeiros dinossauros. Como divulgador da ciência, é um especialista nesses míticos répteis que surgiram aproximadamente 230 milhões de anos atrás e desapareceram misteriosamente há 65 milhões de anos.

Alguns dos mais antigos fósseis de dinossauros foram encontrados no Brasil, como o Staurikosausus pricei, um veloz bípede carnívoro que atingia dois metros de comprimento, ou o Saturnalia tupiniquim, um quadrúpede pescoçudo de tamanho similar que comia plantas e pequenos animais. Ambos viveram há aproximadamente 225 milhões de anos, no período Triássico, e seus vestígios foram resgatados no município gaúcho de Santa Maria. Aqui também havia animais enormes. Esse era o caso do titanossauro Antarctosaurus brasiliensis, um quadrúpede herbívoro que atingia até 40 metros de comprimento e viveu na região paulista de São José do Rio Preto cerca de 80 milhões de anos atrás. Estudiosos de todas as latitudes admiram os resquícios desses bichos do passado descobertos em terras tropicais, mas poucos brasileiros conhecem sua existência. O livro pretende preencher essa lacuna. “Tento dar sempre os contextos temporal, geológico e biológico em que cada espécie foi encontrada no Brasil’, afirma Anelli. Na obra, o paleon­tólogo dá pinceladas sobre a origem da vida na Terra e a gênese, a evolução e o desaparecimento dos dinossauros. O autor ainda ajuda o leitor a compreender por que as aves são os únicos descendentes dos dinossauros.

© Divulgação

O guia completo dos dinossauros do Brasil

Capa de O guia completo dos dinossauros do Brasil

Comparações com a forte paleon­tologia argentina, que já descobriu mais de 110 espécies de dinossauros, são também uma constante no guia. Segundo Anelli, estes são alguns dos motivos que explicam a menor ocorrência de dinossauros em terras nacionais em relação ao vizinho do sul: o estudo desses bichos começou quase 80 anos antes na Argentina do que no Brasil; durante o período Cretáceo, em que foi encontrada a maior parte das espécies de dinossauros conhecidos dos dois países, o clima na Argentina era mais úmido e propício à diversidade de vegetação e de animais e, por fim, as condições climáticas e geólogicas atuais na nação platina são melhores para a preservação de fósseis nas rochas. “A grande diferença se deveu mesmo às condições naturais do nosso Cretáceo, que tinha um clima semiárido com pouca diversidade de animais terrestres se comparada à existente na Argentina no mesmo período”, diz Anelli.

O livro terá de ser atualizado periodicamente, pois a paleontologia nacional não para de produzir novos achados. No mês passado, uma equipe do Museu de Zoologia da USP apresentou uma nova espécie de titanossauro, um herbívoro de 13 metros de comprimento que viveu há cerca de 120 milhões de anos em Minas Gerais. Por ora, seu apelido é Tapuiassauro, um nome brasileiríssimo.

http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=4255&bd=1&pg=1&lg=

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Retratos da esquerda

 

Agência FAPESP

Retratos da esquerda

Livros analisam o movimento esquerdista brasileiro ao longo do século 20 (rep.UH/Arq.Estado)

Por Fabio Reynol

A trajetória do movimento esquerdista brasileiro no século 20 é o tema de dois livros do sociólogo Marcelo Ridenti, professor titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp), lançados pela Editora da Unesp.

Brasilidade revolucionária foi em boa parte composto a partir de pesquisas feitas no âmbito do Projeto Temático FAPESP “Formação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil contemporâneo”, coordenado pelo professor Sérgio Miceli, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), e do qual Ridenti é um dos pesquisadores principais.

Já O fantasma da revolução brasileira é uma reedição ampliada do livro lançado em 1993 a partir da pesquisa de doutorado de Ridenti, realizada na USP e que contou com apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

“O foco no movimento esquerdista nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil foi ampliado em Brasilidade revolucionária, no qual procuro analisar esse tema em outros momentos do século 20”, disse o autor à Agência FAPESP.

No novo livro, o autor conta como se iniciou a formação, durante a República Velha, de setores rebeldes dentro da intelectualidade brasileira, que deram origem aos movimentos de esquerda. Esses grupos se inspiravam em diversas correntes gerando ideias de cunho positivista, anarquista, tenentista e comunista, muitas das quais se misturaram no início do século 20.

“Mostro isso ao analisar a trajetória do intelectual Everardo Dias durante a República Velha. Dentre os frutos dessa mistura de correntes de pensamento está a criação do Partido Comunista”, disse Ridenti.

O segundo capítulo é dedicado ao Partido Comunista e à relação entre artistas e comunistas no período que se seguiu da Segunda Guerra Mundial até o fim dos anos 1950, marcado pelo comunismo stalinista.

De acordo com Ridenti, apesar do autoritarismo stalinista, a atuação do partido auxiliou na organização da classe artística brasileira no fim da primeira metade do século 20 e apresentou uma atuação cultural marcante no cinema, no teatro, na literatura, na imprensa, na arquitetura e nas artes plásticas.

O Partido Comunista também se revelou, de acordo com a pesquisa, um meio para intelectuais e artistas conquistarem projeção internacional. “Viagens para conhecer intelectuais e ter um trabalho publicado no exterior eram raras na época, mas facilitadas para quem fazia parte da rede do partido”, disse.

Paralelos entre manifestações artísticas e o pensamento de esquerda também são retratados no livro. A questão da terra no cinema e na canção é o tema de um capítulo no qual o autor analisa filmes e produções musicais de cunho esquerdista.

Revolução frustrada

Na reedição da obra O fantasma da revolução brasileira, Ridenti aproveitou para ampliar e atualizar a bibliografia com produções desde 1993. Essa atualização se transformou no posfácio da obra, a qual analisa as raízes sociais dos grupos armados de esquerda entre os anos de 1964 e 1974.

Para produzir a tese de doutorado que originou o livro, Ridenti se baseou em 35 entrevistas com ex-militantes e em estatísticas levantadas pelo projeto “Brasil: Nunca Mais”. Para o autor, o fantasma de uma revolução derrotada repercutiu na sociedade da época e ainda mantém resquícios na matriz cultural contemporânea do Brasil, destacadamente na música, teatro, cinema e literatura.

O livro retrata a influência da intelectualidade nos movimentos estudantil, feminino, operário, camponês e militar e também discorre sobre como a ditadura militar interferiu no desenvolvimento cultural e político do país.

Ridenti defende a ideia de que os grupos armados de esquerda foram perdendo seu enraizamento social tanto pela ação repressiva da ditadura como por suas próprias ações.

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sábado, 6 de novembro de 2010

Cuidado: ler é um perigo

 

Os censores portugueses do século XVIII afirmavam que os romances eram um “veneno” que podia corromper a alma e o coração dos leitores

Márcia Abreu

Quando o português José Anastácio da Cunha foi preso, em 1° de julho de 1778, deve ter se perguntado qual de seus desvios de conduta o tinha levado àquela triste situação. Doze testemunhas o haviam denunciado às autoridades como “libertino”, pois lia livros proibidos, convivia com hereges protestantes, discutia pontos de religião e vivia com uma amante. Os mais minuciosos lembraram-se de que ele comia carne em dias proibidos e pão com manteiga em dias de jejum. Outros garantiram que José Anastácio mostrava pouca reverência quando estava dentro de igrejas ou assistindo à missa, e que dizia serem dispensáveis os preceitos da religião.

Os inquisidores que o interrogavam não tiveram dúvidas: era realmente um libertino. Sua libertinagem envolvia a tolerância religiosa, a reflexão política, o pensamento científico, o questionamento dos dogmas da Igreja, a leitura de livros proibidos, a composição de versos eróticos, uma sexualidade ativa, e alguma galhofa – como tomar uns pileques e celebrar as exéquias de um cão. Do ponto de vista das autoridades, com esse comportamento ele arriscava não só sua própria alma, mas punha em perigo a sociedade à sua volta. Seu condenável “exemplo” poderia estimular outras pessoas a seguir o mesmo caminho.

Em seus depoimentos, confirmou ter lido e discutido sobre religião com seus companheiros, com os quais conversava também sobre “matérias amorosas” que liam em passagens de “Voltaire, e mais em Horácio, Ovídio, e Pope”, e que traduziam para se “entreterem, e divertirem”. Ler, como José Anastácio pôde sentir na carne, era muito perigoso. Praticamente desde o início da imprensa, as autoridades lusitanas se preocuparam em controlar estritamente o que se imprimia em Portugal, estabelecendo um sistema de censura prévia que exigia a obtenção de três licenças – dos juízes eclesiásticos ligados às dioceses, do Tribunal do Santo Ofício e do Desembargo do Paço – para que se publicasse qualquer livro ou papel. Esse sistema tríplice esteve em vigor até 1768, quando se unificou a atividade censória em uma única instituição (denominada, de 1768 a 1787, Real Mesa Censória, e entre 1787 e 1794, Real Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura dos Livros). Depois de uma experiência de mais de vinte anos de censura a cargo de uma única instituição, o poder real decidiu voltar ao sistema tríplice, fazendo com que passasse a ser novamente necessário conseguir três autorizações para imprimir qualquer texto escrito.

Controlar a impressão de obras não parecia suficiente para evitar agitações políticas e religiosas. Por isso, a censura fiscalizava também a circulação de livros já impressos, especialmente os vindos do exterior. Para viajar de Lisboa a Coimbra, por exemplo, com um livro na mala, era preciso obter a aprovação dos organismos de censura. Maior controle ainda era mantido no envio de livros de Portugal para suas colônias, especialmente o Brasil.

Entre os livros mais perseguidos estavam os romances licenciosos ou libertinos. Assim como na vida libertina de José Anastácio da Cunha, essas obras misturavam religião, política e sexo. Nelas cabiam desde histórias em que se acumulavam relações e parceiros sexuais até enredos em que se punham em cena estratégias para a obtenção de favores amorosos, superando obstáculos de natureza moral, religiosa ou social. Juntavam-se a essas manobras discussões e narrativas sobre a atuação dos nobres e dos políticos, bem como debates sobre o papel da religião e do instinto, da força da natureza e a da cultura. Por isso, essas narrativas pareciam muito desaconselháveis, levando os organismos de censura a fazer todos os esforços para proibir a circulação e a leitura desses livros.

Em 1768, o censor Antônio Pereira de Figueiredo teve de se pronunciar sobre a possibilidade de autorizar a circulação de um desses livros: Les amours de Tibulle. (“Os amores de Tíbulo”). Após lê-lo, afirmou que escritos desse tipo “mais podem servir de ruína que de instrução para os leitores”. O autor da obra, M. de la Chapelle, consciente do mau juízo que os letrados faziam sobre os romances, tentara defender ao menos o seu, dizendo, no prefácio, que sua obra se deve “reputar uma espécie de caridade para com aquelas Pessoas que, não podendo passar sem algum prazer ou divertimento, e não estando dispostas nem acostumadas a buscá-los no exercício das virtudes e conselhos evangélicos, gostam de se entreter com a lição de semelhantes Novelas”. Buscando ser convincente, La Chapelle arriscava uma comparação: “É o mesmo que costumam praticar os médicos com aqueles enfermos a quem a febre tem tirado o gosto dos bons manjares, porque a estes lhes costumam permitir e ainda aconselhar os comeres menos nocivos para desta sorte os retraírem dos mais prejudiciais”.

Essa envergonhada defesa do gênero mantinha a carga pejorativa que pesava sobre os romances em geral, e sobre os libertinos em particular, elegendo as pessoas intelectualmente fracas – tão fracas que poderiam ser comparadas aos doentes – como destinatários principais desses textos. O censor não se convenceu: “Acaso poderá negar que nenhuma coisa estraga mais a inocência e a pureza dos costumes que a lição de amores furtivos e de intrigas amorosas; principalmente quando as que as exercitam são sujeitas de um caráter lascivo e desenvolto, quais são pela maior parte os que nesta Novela fazem as principais figuras?”

Todo o problema estava na matéria tratada na narrativa, que tinha por objeto a história dos amores de um poeta, vítima das intrigas de diversos rivais, e de “desenvoltas” damas, que viviam na “devassidão de uma Corte corrupta e gentílica”. O contato com amores extraconjugais praticados pelas altas esferas da sociedade, onde grassava a falta de religião, “não pode produzir outros efeitos”, segundo o censor, que não o de “incitar os Leitores a praticarem ou ao menos apetecerem o mesmo que tem sido praticado e apetecido pelos outros”, levando ao “perigo de perdermos a inocência”. Ou seja, não havia como ler e não conceber o propósito de imitar os personagens – na prática ou na fantasia.

A forma romanesca parecia especialmente apta a desempenhar esse papel, pois se acreditava que a observação de exemplos de conduta teria o poder de alterar convicções e comportamentos.  O filósofo francês Denis Diderot foi um dos letrados que defenderam essa idéia. No elogio fúnebre que dedicou ao romancista inglês Samuel Richardson em 1761, afirmou que a eficácia dos romances advinha do fato de eles apresentarem uma “moral em ação”, isto é, de criarem uma situação concreta em que aplicar uma idéia moral e de exporem os resultados desta aplicação. Por isso, os romances seriam infinitamente superiores aos livros de máximas, que pretendiam moralizar apenas por meio da reflexão.

Os censores, em geral, compartilhavam as convicções de Diderot, o qual acreditava que, ao ler um romance, o leitor “vê” as atitudes dos personagens, “coloca-se no lugar deles” ou “ao seu lado”, fazendo com que as “imagens” apresentadas sejam “fixadas” em sua “mente”. Entretanto, enquanto Diderot confiava no discernimento de seus contemporâneos, acreditando que seu interesse se voltaria para os personagens virtuosos, os censores pensavam que a lascívia e as cenas impudicas poderiam ser mais atraentes, sobretudo quando ao enredo “amatório” se associava um estilo eloqüente.

Em 1783, ao examinar o livro Les Égarements de l’Amour, ou Lettres de Fanoelli et de Milfort (“Os desvarios de amor, ou cartas de Fanoelli e de Milfort”), o censor Fr. Luís de Santa Clara Póvoa preocupou-se não só com “os erros e extravagâncias do amor profano” ali apresentados, mas principalmente com seu estilo, acreditando que havia no livro “rara eloqüência” e “persuasão admirável”. Santa Clara Póvoa se preocupava com o que se poderia aprender lendo essa narrativa: “neste Livro podem encontrar os Libertinos bastantes Lições para aumentarem a Sua corrupção”, dizia. Ele acreditava estar diante de um texto persuasivo, capaz de conduzir os leitores à superação de eventuais resistências à prática do amor carnal: “se eles encontrarem nos exercícios do amor profano resistências, repugnâncias, dificuldades, não têm mais que instruírem-se bem na Leitura deste Romance e chegarão talvez sem dúvida ao depravado fim das suas perversas intenções.”

Algumas vezes, a “lição” ministrada pelos romances podia ser bastante prática. O censor José Mayne, ao examinar, em 1788, o livro Escolha das melhores novelas e contos morais, de Arnaud e Marmontel, assustou-se com o grau de explicitação da matéria, observando a maneira como ali se descreviam as “loucuras dos namorados”. Ele espantou-se ao ver como os autores davam “cores tão vivas aos gestos encantadores, às frases maviosas, à muda eloqüência dos olhos, e a outros desvarios dos Amantes, que lembram o último ponto, em que termina a paixão, ou a desonestidade Sensual”. Em seu parecer, o rigoroso censor chegou a copiar trechos do livro que lhe pareciam excessivamente instrutivos sobre as práticas amorosas. Na narrativa intitulada “O escrupuloso, ou amor descontente de si mesmo”, admirou-se com a desenvoltura da personagem Beliza, que dizia a seu parceiro Lindoro: “Cala-te, tolinho, faze o que deves como namorado (...) Dá-me um abraço”. Não menos admirado ficou com a descrição feita pelo narrador dos efeitos das liberdades tomadas pelos jovens: “Vários acentos não articulados supriam as palavras, e dobravam a energia deles certo gesto veemente com certa ação impetuosa. Esta patética eloqüência pôs a Silana fora de Si etc etc.”

Nem é preciso dizer que o censor concluiu pelo perigo de se facultar a leitura de uma obra que “pode resultar mais em ruína do que aproveitamento moral aos leitores”, ruína da qual não escapariam nem os já experientes nas práticas do amor nem os ainda inexpertos.

As situações e as idéias contidas nos romances eram compreendidas pelos censores como argumentos de persuasão, agindo como “lições”, às quais se acrescia o estilo, a “rara eloqüência” com que os textos eram escritos, formando um conjunto que, seguramente, contribuiria para modificar o comportamento dos leitores, ou para reafirmá-lo, caso já tivessem adotado o estilo de vida ali representado. Os romances licenciosos agenciariam, portanto, os três modos de persuasão previstos pela retórica clássica: a persuasão lógica, que conduz ao convencimento; a persuasão afetiva, que leva à comoção; e a persuasão estética, que propicia o deleite.

Essa “lição” parecia totalmente inapropriada, pois idéias desse tipo poderiam “ser origem de conseqüências espantosas à Sociedade civil, e à verdade, e Santa doutrina”, como escreveu Fr. José Mayne, em parecer preparado em 1787, a propósito do livro Cartas de uma filha a seu pai. Deixando correr livremente obras desse tipo, seria impossível “atalhar o progresso do Contágio, principalmente nos sujeitos inexpertos, fracos, amantes da novidade, e onde o fogo da imaginação se une ao calor das paixões sensitivas”.

A associação entre a leitura de romances e as doenças, capazes de “contagiar”, era uma idéia comum. Os mais complacentes, como o já mencionado M. de la Chapelle, comparavam os romances a um remédio oferecido aos estômagos fracos. Os menos condescendentes com o gênero, como os censores portugueses, associavam-no a um “veneno” cuja “peçonha” seria capaz de “corromper” o “coração” e a “alma” dos leitores.

A preocupação com o efeito nocivo da imaginação e das paixões sobre a saúde dos leitores não era exclusiva dos censores. A medicina do século XVIII postulava que os processos mentais tinham necessariamente contrapartidas físicas, idéia extraordinariamente difundida a partir da publicação, em 1766, do livro De la santé des gens de lettres (“Da saúde dos homens de letras”), do médico suíço Samuel-Auguste Tissot. Ele explicava o processo dizendo que “a união do espírito e do corpo é, com efeito, tão forte que é difícil conceber a ação de um deles sem que o outro se ressinta mais ou menos dessa ação.” Acreditava-se na força de “simpatia”, ou seja, na existência de uma estreita interligação entre as partes do corpo, mesmo entre aquelas cujas funções pareceriam bastante distintas. Os nervos seriam os instrumentos principais dessa articulação, pois por seu intermédio se produziriam não apenas as sensações e os movimentos, mas também, pela simpatia, a interligação de todo o sistema. Por isso a leitura e a meditação, operando sobre o cérebro e sobre os nervos, teriam conexões em diferentes partes do corpo. Segundo Tissot, a leitura “usa o espírito e esgota o corpo”, sobrecarregando especialmente o cérebro, os nervos e o estômago.

Os riscos a que se submetia todo aquele que fizesse um esforço intelectual valiam a pena quando o produto dessa atividade era útil para a sociedade ou para as letras. O mesmo não se podia dizer quando o cérebro e o corpo eram postos a trabalhar em função da leitura de um romance licencioso. Eles eram especialmente perigosos, pois estimulavam uma “simpatia” muito peculiar: aquela que se observava entre o cérebro, os testículos e os olhos. Em outra de suas obras muito populares, L’Onanisme, publicada em 1760, o médico suíço narrava casos como o de um homem cujo cérebro secou, “de uma maneira tão prodigiosa que era possível ouvi-lo balançar dentro do crânio”, devido aos “excessos” nas práticas masturbatórias. Uma vida sexual intensa também poderia ser muito perigosa. Tissot garantia ter visto “um homem de 59 anos que, três semanas após ter se casado com uma jovem moça, foi tomado de uma cegueira e morreu no fim de quatro meses.”

Se a medicina da época temia que a leitura e a meditação intensas esgotassem o corpo, causando, sobretudo, distúrbios nervosos e digestivos, maior ainda era sua preocupação diante da leitura de romances licenciosos que, como dizia Rousseau, tinham de ser lidos “com uma só mão”. Os efeitos da leitura desses livros poderiam levar ao esgotamento do líquido seminal, o que trazia, necessariamente, diversos e importantes prejuízos para a saúde. Sequer era necessário chegar à prática, pois, segundo Tissot, um excesso de pensamentos lascivos bastava para produzir doenças graves, como a varicocele e a hidrocele. A imaginação era uma faculdade a ser temida, pois desempenhava um papel particularmente relevante na conexão entre corpo e espírito – ou alma.

Tais idéias não eram estranhas aos letrados portugueses que compartilhavam as preocupações de Tissot e desejavam controlar a difusão de pensamentos e práticas lascivos, pois eles poderiam levar à disseminação de idéias perigosas como as que se difundiram em Valença do Minho e levaram José Anastácio da Cunha a defender o Tolerantismo, acreditando que cada um poderia pensar livremente sobre temas de religião “e que era impiedade e tirania obrigar os homens a cativar os seus entendimentos e discursos a algumas regras, Leis, e preceitos”.

A leitura de livros licenciosos poderia alterar não apenas a maneira de pensar, mas o modo de agir, como também mostrou o caso de José Anastácio, que acreditava não haver pecado em “gozar com a mais plena liberdade, sem os encargos do Matrimônio, dos prazeres sensuais, não os tendo por ilícitos, nem pecaminosos”.

Mais grave ainda, a lascívia poderia causar sérios danos à saúde daqueles que lessem em demasia e principalmente daqueles que se exercitassem muito nas práticas “amatórias” – solitariamente ou bem acompanhados.

Assim, as narrativas licenciosas faziam pensar sobre religião e poder. Faziam também sentir e desejar. Podiam até mesmo trazer conseqüências físicas para os corpos dos leitores. Nada poderia parecer mais perigoso – ou fascinante.

Márcia Abreu é professora de Literatura do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e autora do livro Os caminhos dos livros. Campinas: Mercado de Letras, ALB; São Paulo: Fapesp, 2003.

 

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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Mario Vargas Llosa ganha Nobel de Literatura

 

Agência FAPESP

Mario Vargas Llosa ganha Nobel de Literatura

Escritor peruano, autor de obras como Tia Júlia e o Escrivinhador e A Guerra do Fim do Mundo, sobre Canudos, é o quarto sul-americano a receber o prêmio (Un.Princeton)

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, 74 anos, é o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2010. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (7/10) pela Svenska Akademien, em Estocolmo.

Segundo a academia sueca, a distinção ao escritor se deve por “sua cartografia das estruturas de poder e por suas imagens agudas sobre a resistência, a revolta e a derrota individual”. O último escritor latino-americano a ganhar o Nobel foi o colombiano Gabriel García Márquez, em 1982.

Llosa recebeu a notícia do Nobel nos Estados Unidos, onde este semestre está como professor visitante no Programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade Princeton. Segundo o presidente do júri do Nobel de Literatura, Peter Englund, Llosa disse estar “muito comovido e entusiasmado” pela premiação.

O escritor receberá o prêmio de 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 2,5 milhões), em cerimônia em Estocolmo no dia 10 de dezembro, aniversário da morte de Alfred Bernhard Nobel (1833-1896), o inventor da dinamite. Em 1994, o escritor recebeu o Prêmio Cervantes, maior distinção literária em língua espanhola.

Llosa é autor de dezenas de romances, ensaios e peças. Entre seus livros mais conhecidos estão Pantaleão e as Visitadoras (1973), Tia Júlia e o Escrevinhador (1977), Conversa na catedral (1969), O falador (1987) e Lituma nos Andes (1993).

“A premiação de Vargas Llosa é uma grande felicidade para a literatura latino-americana. Ele é responsável pelo grande boom narrativo dos anos 1960, com destaque para Batismo de Fogo (1962), considerado seu romance de estreia, e Casa Verde (1966). Depois disso, provou ter um grande fôlego literário”, disse Jorge Schwartz, professor de Literatura Hispano-Americana do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, à Agência FAPESP.

“É uma honraria muito merecida. Durante muitos anos esperamos que ele ganhasse o Nobel, por ser um dos maiores e mais respeitados romancistas na América Latina”, disse Rubén Gallo, diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos em Princeton.

Em A Guerra do Fim do Mundo (1981), o escritor peruano narrou a Guerra de Canudos (1896-1897), mesclando personagens reais e fictícios. Antônio Conselheiro, líder do levante, é descrito com base em elementos retirados de Os Sertões, de Euclides da Cunha.

“A Guerra do Fim do Mundo é uma obra que dialoga com Os Sertões”, disse Schwartz. Llosa passou vários meses no sertão de Canudos, onde escreveu os primeiros rascunhos do romance.

Além de Llosa e Márquez, outros dois sul-americanos ganharam o Nobel de Literatura: os poetas chilenos Gabriela Mistral (1889-1957), em 1945, e Pablo Neruda (1904-1973), em 1971.

“Boa literatura não é apenas entretenimento – é um entretenimento fantástico –, mas é também algo que lhe dá uma melhor compreensão do mundo em que você vive”, disse Llosa.

Peixe na água

Jorge Mario Pedro Vargas Llosa nasceu em 28 de março de 1936 em Arequipa, em uma família de classe média. Seus pais se separaram cinco meses após o casamento e o futuro escritor passou parte da infância na Bolívia, com os avós.

Em 1946, de volta ao Peru, conheceu o pai. Aos 14 anos, ingressou no Colégio Militar Leôncio Prado, onde permaneceu por dois anos, experiência que foi o tema do seu primeiro livro, Batismo de Fogo – que no Brasil seria publicado também como A cidade e os cachorros.

Em 1963, ingressou na tradicional Universidad Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, onde estudou Letras e Direito. Aos 19 anos, casou-se com Julia Urquidi, cunhada de sua mãe. Na época, teve vários empregos, de redator a revisor de nomes em túmulos de cemitérios.

Em 1959, recebeu uma bolsa de estudos e foi para a Espanha, onde obteve o doutorado em Filosofia e Letras, na Universidade Complutense de Madri. Em seguida, mudou-se para a França, onde viveu por alguns anos. Em 1964, de volta ao Peru, divorciou-se e, no ano seguinte, casou com a prima Patrícia Llosa, com quem tem três filhos.

Em 1967, trabalhou como tradutor para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na Grécia, junto com o escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984). Nos anos seguintes morou com a família em Paris, Londres e Barcelona.

Em 1983, a pedido do então presidente peruano Fernando Belaúnde Terry, presidiu a comissão que investigou a morte de oito jornalistas. Em 1990, concorreu à presidência do Peru com a Frente Democrata, partido de centro-direita, mas perdeu a eleição para Alberto Fujimori.

Suas experiências como escritor e político estão expostas na autobiografia Peixe na Água (1991).

Llosa é membro da Academia Peruana de Línguas desde 1977 e da Real Academia Española desde 1994. Tem vários doutorados honoris causa por universidades como Yale (1994), Universidade de Israel (1998), Harvard (1999), Universidade de Lima (2001), Oxford (2003), Universidade Europeia de Madrid (2005) e Sorbonne (2005). Foi condecorado pelo governo francês com a Medalha de Honra en 1985.

Foi professor visitante ou escritor residente no Queen Mary College, no King’s College e nas Universidade de Londres, Cambridge e Oxford, no Reino Unido, na Universidade de Colúmbia, no Centro Woodrow Wilson e nas universidades Harvard, de Georgetown e da Flórida, nos Estados Unidos, entre outras instituições de ensino superior.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Canções das ruas

 Agência FAPESP

Canções das ruas

Livro discute como a canção, como forma de expressão artística, pode contribuir para a cultura educacional (foto: tomze.com.br)

Por Fábio de Castro

A canção ocupa um lugar social e histórico ímpar na cultura brasileira. Discutir como essa forma tão especial de expressão artística pode contribuir para repensar o conceito de cultura da educação é o objetivo do livro Cidade Cantada – Educação e experiência estética, de Julia Pinheiro Andrade.

Para abordar o sentido formativo que a experiência estética pode assumir no campo da educação, a autora discute a forma da canção brasileira a partir de dois exemplos distintos e radicais: o tropicalismo do compositor Tom Zé e o rap do grupo Racionais MC’s.

A obra, lançada em agosto, tem base na dissertação de mestrado de Julia, defendida em 2007 na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), com Bolsa da FAPESP.

Graduada em Geografia na USP, em 2001, a autora atuou em pesquisas em geografia urbana na cidade de São Paulo. Atualmente, é coordenadora pedagógica do Programa Mapa de Educação e Meio Ambiente e assessora da Escola Castanheiras.

Como educadora no ensino fundamental, percebeu que os alunos tinham dificuldades para se identificar e compreender conceitos e processos que explicam a lógica das transformações do espaço urbano, pois mobilizam representações abstratas da cidade.

“Utilizando a música em sala de aula, observei que a abordagem estética fornecia um excelente acesso para diversos temas, pois a canção mobiliza o corpo, as emoções e cognição a um só tempo. Quando a escutamos enquanto forma narrativa, podemos elaborar toda uma experiência sobre a relação entre os sujeitos (o cantor e o ouvinte) e as cidades (a cantada e a vivida). Quando passei a trabalhar com a formação de professores, essa possibilidade ficou ainda mais clara”, disse à Agência FAPESP.

Julia passou então a considerar a possibilidade de abordar a correspondência entre a canção como forma estética, a experiência urbana e as transformações do espaço da cidade.

Inicialmente, seu projeto de mestrado partiria da década de 1950, com o samba do compositor paulista Adoniran Barbosa. “Passaria então pelas ‘descanções’ de Tom Zé – um tropicalismo diferente, que viu as metamorfoses da cidade nas décadas de 1960 e 1970 –, chegando finalmente à música dos Racionais MC’s, que cantaram a cidade implodida por um violento crescimento periférico”, disse.

O estudo acabou se concentrando em Tom Zé e Racionais MC’s, dois momentos contrastantes da cidade e da forma da canção. “Adoniran Barbosa permaneceu como contraponto iluminador, aparecendo como o fio da meada da geografia e da história da canção em São Paulo”, explicou.

No primeiro capítulo, A cidade cantada, a autora apresenta a importância da canção no Brasil. “A canção ocupa na nossa sociedade um lugar social e histórico ímpar, mais presente do que a cultura letrada”, disse.

Para situar o “objeto não identificado da canção popular”, Julia se baseou em autores como José Miguel Wisnik, Luís Tatit, Marcos Napolitano e Celso Favaretto – esse último professor no Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação da USP e orientador do estudo.

Delineada a força da canção, a autora define então a importância da cidade cantada. “Uma forma estética capaz de decantar e comunicar a experiência complexa e ambivalente do mundo urbano de hoje. Penso essa possibilidade em São Paulo, cidade ícone do desenvolvimento e da crise nacional”, disse.

O segundo capítulo é um ensaio teórico sobre a importância de trabalhar as diferentes linguagens da cultura em educação. “Procurei refletir sobre como podemos pensar em um projeto de formação cultural a partir de nosso espaço mais cotidiano, a cidade, e, nesse contexto, qual o papel que um trabalho sistemático de escuta de canção pode desempenhar na educação”, explicou.

Dentro desse conceito, Julia discute o valor de trabalhar a arte no contexto escolar, considerando-a uma experiência ampla que engloba simultaneamente sentimentos, razão, emoções e sentidos. A autora procura distinguir o que é a experiência estética e crítica.

“A partir da obra do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), Julia estuda a cultura e a educação dentro de uma modernidade muito crítica, que é a do nosso tempo, entre o moderno e contemporâneo”, disse Favaretto.

O terceiro capítulo discute como fazer o trabalho com a canção. Para isso, é preciso definir o que é a forma canção, como ela se estrutura, como é lida e escutada. “Trata-se de uma forma híbrida entre literatura e música. Procuro trabalhá-la em suas duas dimensões e, a fim de explicitá-las, analiso diversas canções”, afirmou.

Pensadores como Theodor Adorno (1903-1969) e Jean Baudrillard dão o fundamento para a discussão sobre as possibilidades de se pensar a canção como experiência estética, sendo que ela é, ao mesmo tempo, arte e mercadoria, isto é, necessariamente voltada para um determinado consumo.

“Sustento que, no Brasil, a canção é um objeto cultural muito forte pelo fato de unir a experiência cotidiana com uma cultura enciclopédica e, ao mesmo tempo, circular entre as várias classes sociais, fazendo uma ponte entre cultura letrada e cultura oral. Destaco a dialética entre a forma mercadoria e a forma narrativa, que é uma forma estética capaz de compartilhar e decantar experiências”, disse.

Conversações diversas

No quarto capítulo, Julia discute como a canção se manifesta na obra de Tom Zé. Contextualiza sua formação, diferencial em relação ao projeto tropicalista e apresenta a cidade cantada por ele – ou sua “descanção”, como o próprio autor define.

“Analiso como se desdobrou o seu projeto estético ao longo do tempo e como a imagem da cidade volta em suas diversas fases, avaliando as mudanças de instrumentação, estilo, ritmo, letras e maneira de cantar ao longo do tempo, evidenciando as transformações e os processos da cidade”, disse.

“Como trabalha desconstruindo a canção, Tom Zé é especialmente feliz na decantação das metamorfoses da cidade em metrópole, pois incorpora à melodia ruídos, dissonâncias, levadas harmônicas e rítmicas estranhas, como os ostinatos. Sua canção decanta as ambivalências da crise urbana contemporânea.”

Julia analisa depois as mudanças das manifestações musicais brasileiras em direção ao gênero eletrônico, até chegar ao rap ("ritmo e poesia", na sigla em inglês) que, segundo ela, é uma “forma diminuída, mínima, da canção”.

“O rap é coerente com uma experiência da mudança radical da cidade a partir da década de 1990. Faço uma gênese desse gênero nos Estados Unidos e no Brasil e destaco a relação entre os dois países para explicitar o que é o rap e por que podemos considerá-la como uma forma de canção – quando a melodia se reduz à entoação da fala e o ritmo e discurso emergem em primeiro plano”, afirmou.

“Com uma ‘dicção de navalha’ cantada e decantada por um narrador em primeira pessoa, o Racionais MC's conseguiu narrar muito bem a experiência urbana das periferias. O grupo destaca até mesmo a experiência da morte, colocando-a para falar por meio de discurso de bandido baleado, da encenação de tiroteio, do pensamento em flashback e do som ritmado de um eletrocardiograma. Mais do que a descrição factual da periferia, conseguiram narrar experiências fortes e trazer essa parte antes silenciada da cidade para dentro da música”, disse.

A autora utiliza a teoria do filósofo húngaro Georg Lukács (1885-1971) de forma narrativa para discutir como ela é capaz de narrar ou descrever uma experiência. “Faço essa discussão para ver como um grupo de rap consegue criar uma narrativa”, contou.

O último capítulo do livro é, segundo Julia, uma síntese sobre a experiência estética e sua possibilidade de uso com formação de um sujeito – exatamente porque põe em correspondência um sujeito que narra e um outro que ouve, possibilitando que se saia da simples situação de vivências individuais.

“A cultura do nosso tempo é diluída, fragmentada, mas múltipla: a canção pode trazer para a sala de aula diferentes escutas e conversações. Por menos que um professor goste de rap, se ele se propuser a escutar de forma crítica, contextualizando estética e historicamente a canção, poderá chegar a compartilhar experiências com seus alunos”, apontou.

“O livro não propõe estratégias diretas de aplicação da canção em sala de aula, mas dá indicações de como perceber, como criar uma escuta profunda da canção para compreender a experiência do tempo e do espaço contemporâneos”, disse.

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