segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mais de 4 mil livros de ciência de graça

 

National Academies Press, editora das academias nacionais de ciência dos EUA, publica todo o catálogo em pdf para ser baixado livremente

Agência FAPESP – A National Academies Press (NAP), editora das academias nacionais de ciência dos Estados Unidos, anunciou no dia 2 de junho que passou a oferecer seu catálogo completo para ser baixado e lido de graça pela internet.

São mais de 4 mil títulos, que podem ser baixados inteiros ou por capítulos, em arquivos pdf. A NAP publica mais de 200 livros por ano nas mais diversas áreas do conhecimento, com destaque para publicações importantes em política científica e tecnológica.

Os livros podem ser copiados livremente a partir de qualquer computador conectado na internet e mostram o esforço da NAP em democratizar o acesso ao conteúdo produzido pelas academias norte-americanas. As academias, que atuam há mais de 100 anos, são: National Academy of Sciences, National Academy of Engineering, Institute of Medicine e National Research Council.

Os títulos em capa dura continuarão à venda no site da NAP. A opção de ler de graça parte de livros ou títulos inteiros começou a ser oferecida pelo site em 1994. A oferta de todo o catálogo de graça para ser baixado em pdf foi feita primeiro para os países em desenvolvimento.

Entre os títulos que podem ser baixados estão: On Being a Scientist: A Guide to Responsible Conduct in Research, Guide for the Care and Use of Laboratory Animals e Prudent Practices in the Laboratory: Handling and Management of Chemical Hazards.

Mais informações: www.nap.edu

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sábado, 28 de maio de 2011

Barroco

 

 Arquitetura – obra da época barroca

O Barroco começa a partir do ano de 1600 e todas as manifestações entre essa data e 1700 estão inseridas em um contexto assimétrico e rebuscado das obras barrocas. Segundo alguns autores, a palavra “barroco” deriva da palavra “verruca” do latim, que significa elevação de terreno em superfície lisa. Toda pedra preciosa que não tinha forma arredondada era chamada de barrueca. Logo após, toda e qualquer coisa que possuía forma bizarra, que fugia do normal, era chamada de baroque. O poeta italiano Giosuè Carducci foi quem, em 1860, adjetivou o estilo da época dos Seiscentos, referindo-se às manifestações artísticas ocorridas a partir do ano de 1600, como sendo barroco. Então, apesar de não possuir características unânimes em todas as obras, o barroco passou a ser a denominação dos artistas e escritores da referida época.

O Barroco ou Seiscentismo teve início em Portugal com a unificação da Península Ibérica, fato que acarreta ao período intensa influência espanhola, e também faz surgir outra denominação para o período, Escola Espanhola. No Brasil, o Barroco teve início em 1601, com a publicação do poema épico Prosopopéia, de Bento Teixeira (http://pt.scribd.com/doc/7289654/Bento-Teixeira-Prosopopeia-1601), o qual introduz em definitivo o modelo da poesia camoniana na literatura brasileira. 

Portugal estava em decadência nos últimos vinte e cinco anos do século XVI, o comércio tornava Lisboa a capital da pimenta, no entanto, a agricultura estava abandonada e as colônias portuguesas, inclusive o Brasil, não deram riquezas imediatas. Pouco tempo depois, com o desaparecimento de D. Sebastião, Filipe II da Espanha consolidou a unificação da Península Ibérica, o que possibilitou e favoreceu o avanço da Companhia de Jesus em nome da Contra-Reforma, o que ocasionou a permanência de uma cultura praticamente medieval na península, enquanto o restante da Europa vivia as descobertas científicas de Galileu, Kepler e Newton, por exemplo.

É durante este quadro cultural europeu que o estilo Barroco surgiu, em meio à crise dos valores renascentistas, ocasionada pelas lutas religiosas e dificuldades econômicas. O contexto assimétrico e rebuscado do barroco, citado anteriormente, é reflexo do conflito do homem entre as coisas terrenas e as coisas celestiais, o homem e Deus, antropocentrismo (homem no centro) e o teocentrismo (Deus no centro), pecado e o perdão, enfim, constantes dicotomias.

No Barroco podemos classificar dois estilos literários: O Cultismo e o Conceptismo.

Cultismo – caracterizado pela linguagem culta, rebuscada, ligado à forma, jogo de palavras, com influência do poeta espanhol Luís de Gôngora, e por isso, chamado também de Gongorismo.
Conceptismo – caracterizado pelo jogo de idéias, ligado ao conteúdo, raciocínio lógico, com influência do espanhol Quevedo, e por isso, chamado também de Quevedismo.

No Barroco brasileiro destacam-se os autores: Padre Antônio Vieira com suas obras de profecias, cartas e sermões e Gregório de Matos Guerra, essencialmente poético.

Por Sabrina Vilarinho
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

Barroco - Brasil Escola

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Fragmentos gregos

 

Fragmentos gregos

Pesquisadora da USP faz estudo filológico sobre fragmentos do primeiro poeta lírico da Grécia antiga

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Os animais tinham uma presença marcante na obra de Arquíloco, um dos mais importantes poetas da Grécia antiga, nascido na ilha de Paros na primeira metade do século 7 a.C. Os fragmentos de seus escritos que contêm fábulas e imagens de animais foram o mote para um estudo realizado pela professora Paula da Cunha Corrêa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

O resultado foi o livro Um bestiário arcaico – Fábulas e imagens de animais na poesia de Arquíloco, lançado com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicação. A obra desvenda a conotação do caráter dos animais – bastante diferentes para os gregos antigos – nos fragmentos de Arquíloco, comentando não apenas os poemas, mas também as fontes e os processos de transmissão dos textos ao longo dos séculos.

Corrêa já havia lançado, em 2009, o livro Armas e Varões – A Guerra na Poesia de Arquíloco, que se dedicava ao comentário da obra de Arquíloco sob o ponto de vista da guerra – outra temática recorrente em seus poemas. A autora dedica suas pesquisas ao poeta de Paros desde o doutorado, concluído em 1995 na USP. Em 2001, fez também pós-doutorado sobre o tema na Universidade de Oxford (Inglaterra), com Bolsa da FAPESP.

Embora seja um poeta fundamental da literatura grega, não há um comentário exaustivo de seus poemas. Por isso, resolvi comentá-los a partir de enfoques temáticos. Vários de seus poemas narram fábulas e há um grande grupo deles em que aparecem imagens ou metáforas de animais, geralmente utilizados em poemas eróticos”, disse à Agência FAPESP.

Segundo ela, depois de Homero e Hesíodo – que viveram no século 8 a.C –, Arquíloco é o primeiro poeta grego. “Ele é o primeiro autor da chamada lírica grega, considerando-se a classificação moderna que divide a literatura entre teatro, poesia épica e poesia lírica. Apesar disso, seus gêneros característicos eram o jambo e a elegia”, afirmou.

Os antigos colocavam Arquíloco no mesmo patamar de Homero, mas hoje o poeta de Paros é bem menos conhecido do que o autor de Ilíada e Odisseia.

“Sobrou muito pouco da obra de Arquíloco, cerca de 300 fragmentos. Provavelmente isso ocorreu porque os versos em jambos, além da conotação erótica, têm uma moralidade que mais tarde poderia ser chocante para os cristãos”, indicou.

Além da possível rejeição da Igreja, segundo Corrêa, na própria antiguidade os poemas de Arquíloco podem ter sido mal interpretados, já que o jambo é um gênero que tem afinidade com a comédia, em sua forma de zombar da sociedade e abordar temas como sexo.

“O ‘eu lírico’ presente em um poema em primeira pessoa é um personagem criado pelo autor. Mas, eventualmente, poderia ser lido como se fosse um dado autobiográfico. Então, muitos podiam pensar que o próprio poeta fazia as coisas descritas, que podiam ser consideradas indignas”, disse.

Segundo Corrêa, a obra se divide em duas partes. Na primeira, dedicada às fábulas, a autora fez uma análise de cada um dos poemas, a partir de um ponto de vista filológico. A segunda parte consiste em um levantamento do caráter dos animais desde a Antiguidade.

“São fragmentos que nos chegaram, em alguns casos, por transmissão direta – por meio de papiros do segundo século a.C. – ou, nos casos mais frequentes, por transmissão indireta, por meio de comentários e outras obras que nos chegaram pela tradução manuscrita ao longo da Idade Média”, explicou.

Para cada um dos poemas, a autora fez um levantamento das edições de origem e apresenta comentários. Nem todos os versos estão completos. “Ao estudar os poemas, percebi que a conotação ética – o ethos, ou seja, o caráter – dos animais era em alguns casos fundamental para a compreensão do próprio poema. A raposa, por exemplo, aparecia com uma conotação muito diferente da nossa, que remete a uma esperteza maldosa, pejorativa”, disse.

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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Quem diabos é o diabo?

 

Satanás já fez a figura de um promotor público

celeste e de um orgulhoso Anjo Caído. Mas ele

também tem seu lado ridículo


Jerônimo Teixeira

  Exclusivo on-line
Trechos dos livros
Satã - Uma Biografia
Anjos Caídos

Satanás pelo jeito faz o maior sucesso nos cursos de letras. Acabam de chegar às livrarias brasileiras duas obras de professores de literatura americanos que tentam, cada um a seu modo, limpar a péssima reputação do demônio. Satã – Uma Biografia (tradução de Renato Rezende; Globo; 388 páginas; 40 reais), de Henry Ansgar Kelly, da Universidade da Califórnia, procede a um exame minucioso da Bíblia para demonstrar que o livro sagrado não dá apoio à imagem tradicional que se faz do Diabo. Em Anjos Caídos (tradução de Antonio Nogueira Machado; Objetiva; 88 páginas; 29,90 reais), Harold Bloom, famoso crítico de Yale, chama a humanidade a se solidarizar com o velho Satã: criaturas mortais e imperfeitas, seríamos todos – inclusive você, leitor – Anjos Caídos. Satã, no entanto, sai um tanto diminuído da leitura dessas obras. O fascínio e o pavor que ele inspira resistem mal a tentativas de humanização.

A análise do texto bíblico realizada por Kelly às vezes se perde em filigranas gramaticais, o que torna a leitura um tanto árdua (a tradução inepta também atrapalha: chega ao ponto de confundir o Eclesiástico com o Eclesiastes, dois livros diferentes do Antigo Testamento). No cômputo final, Satanás é quase como um figurante na Bíblia. Sua aparição mais marcante no Antigo Testamento se dá no Livro de Jó, quando ele instiga Deus a testar a devoção de Jó infligindo toda sorte de castigo ao pobre. No Novo Testamento, mais vitaminado do que o barnabé jurídico que aparece em Jó, Satanás parece ter o mundo terrestre sob seu comando – mas tal poder, Kelly argumenta, é em última instância delegado por Deus.

A narrativa cristã da perdição e da redenção do homem quase poderia prescindir do Coisa-Ruim. A Igreja, porém, logo sentiria necessidade de um opositor supremo, uma figura na qual concentrar todo o terror do pecado. Aos poucos, foram atribuídas a Satã qualidades que não lhe pertenciam (seus chifres de bode, por exemplo, não aparecem na Bíblia e são uma provável herança pagã dos faunos, criaturas luxuriosas). Kelly atribui a Orígenes de Alexandria, teólogo do século III, o lance criativo de transformar Satanás em um anjo das hostes divinas que, por orgulho, tenta sobrepujar Deus – e acaba caindo do céu. O Anjo Caído, que prefere sofrer no inferno a servir no céu, ganhará uma dignidade diabólica no Paraíso Perdido, poema do inglês John Milton, do século XVII. É nessa figura que se centra Anjos Caídos, ensaio ligeiro de Bloom, admirador ardoroso de Milton. Derivação menor de Presságios do Milênio, a mais complexa (e esquisita) digressão teológica de Bloom, Anjos Caídos repisa os temas tradicionais do autor: Bloom reclama da decadência da leitura na cultura audiovisual contemporânea e reitera que Shakespeare (que não falava muito de anjos, caídos ou não) é muito, muito importante.

Álbum/AKG/Latinstock

CHIFRES PAGÃOS
O diabo no centro de um sabá de feiticeiras, em quadro do espanhol Goya: figura inspirada nos luxuriosos faunos

A dignidade do Anjo Caído de Milton é uma exceção. Ao caracterizar o Satã de Jó, Bloom diz que ele age como "o diretor da CIA de Deus". No mesmo tom, Kelly diz que o Satã do Novo Testamento não é mais diabólico do que um diretor do FBI. Na Legenda Áurea, coleção de histórias de santos do século XIII, um demônio faz um papelão ao tentar (sem sucesso) fazer com que Santa Justina ceda às investidas sexuais de um sedutor atrapalhado. No Fausto de Goethe, o demônio Mefistófeles se distrai espiando as nádegas dos anjos – e perde a alma de Fausto, carregada para os céus. O poeta francês Charles Baudelaire observou que o maior truque do diabo é nos convencer de que ele não existe. Faz sentido: é só dar-lhe um pouco de atenção, para o diabo se tornar uma figurinha ridícula.

http://veja.abril.com.br/170908/p_140.shtml

sábado, 9 de abril de 2011

Brasilianas na internet

 

A formação de bibliotecas digitais, com acervos a respeito do Brasil, representa um importante passo na democratização da cultura.

Renato Venâncio

 

O conceito de biblioteca brasiliana remete a instituições especializadas em acervos bibliográficos nacionais. Nos últimos anos surgiram importantes brasilianas on line. Esse desenvolvimento preencheu uma importante lacuna. Há uma década, quem quisesse consultar bibliotecas com significativos acervos especializados em história e cultura nacional tinha poucas opções institucionais, quase sempre restritas às cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Os sites que vamos apresentar ainda estão em processo de incorporação de acervos. A utilização integrada deles gera bons resultados. Nesse sentido, primeiramente cabe destacar a “Brasiliana do Itaú Cultural”. Esse portal é, na realidade, uma enciclopédia da literatura brasileira. Os verbetes abarcam os cinco séculos de nossa história cultural, de José de Anchieta a Caio Fernando Abreu. Também são disponibilizados vídeos com entrevistas e apresentações de escritores contemporâneos.

Justamente por ter um caráter enciclopédico, este site serve de porta de entrada a outro, mantido pela Universidade de São Paulo-USP. Esse último está progressivamente acolhendo o magnífico acervo do bibliófilo José Mindlin, recentemente falecido (foto acima).

No portal da “Brasiliana do Itaú Cultural” podemos contextualizar a produção literária dos autores brasileiros. Em seguida, caso a obra seja de domínio público, podemos recuperá-la através da “Brasiliana da USP”. Um exemplo: no primeiro site lemos um resumo da trajetória intelectual de  Casimiro de Abreu; no segundo, recuperamos as primeiras edições de cinco livros desse autor.

A terceira brasiliana a ser destacada é a da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. No site que abriga o projeto, podemos ler e fazer pesquisas em mais de cem livros publicados pela Companhia Editora Nacional. São livros publicados a partir da década de 1930, há muito esgotados, mas fundamentais para a compreensão da história do Brasil.

Revista de História da Biblioteca Nacional

terça-feira, 22 de março de 2011

Preciosidade paleográfica

 

Preciosidade paleográfica

Publicação de A Estatística da Imperial Província de São Paulo, documento de 1827 da Biblioteca Mindlin, descreve o patrimônio paulista natural e humano no século 19

Por Mônica Pileggi

Agência FAPESP – Quando o príncipe dom Pedro de Alcântara proclamou a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, o que atualmente se conhece por estados eram províncias do novo Império.

Criado o estado independente chamado Império do Brasil, era necessário fazer um balanço – do território e do patrimônio natural e humano – para saber o que havia restado da colonização e seguir adiante com a construção de um país.

A Estatística da Imperial Província de São Paulo é resultado desse levantamento, preparado em 1827 a pedido da Assembleia Geral. Na época, a província de São Paulo incluía o que é hoje o Estado do Paraná.

A Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) reuniu em uma única publicação a versão fac-similar do manuscrito, assim como sua transcrição paleográfica – forma antiga de escrita – e a transcrição moderna.

De acordo com Plínio Martins Filho, diretor-presidente da Edusp, a ideia do projeto, que teve apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações, surgiu há cerca de seis anos com o bibliófilo e empresário José Mindlin (1914-2010).

“Essa foi uma das últimas sugestões de Mindlin, junto com as edições da Bibliographia Brasiliana e de Ciência, História e Arte: Obras Raras e Especiais do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, que também foram publicadas pela Edusp”, disse à Agência FAPESP. Essas outras obras também tiveram apoio FAPESP para publicação.

Martins Filho explica que o motivo de produzir uma edição fac-similar vai além de sua importância histórica. “Na questão estética, a obra revela a caligrafia cursiva, que é muito bonita. Além disso, a cópia do documento original permite ao pesquisador conferir a transcrição paleográfica direto na fonte, sem a necessidade de ir à biblioteca”, explicou.

Já os não estudiosos da paleografia, mas interessados nos dados geográficos, históricos, políticos e econômicos, entre outros aspectos levantados pelos autores, podem contar com a transcrição moderna, uma espécie de tradução do português do século 19 para a linguagem atual.

Membros da estatística

Embora o manuscrito tenha sido originalmente produzido por sete pessoas, apenas uma delas teve seu nome destacado na página de rosto, o tenente-coronel José Antônio Teixeira Cabral.

Cartógrafo e engenheiro, sua participação no documento não foi a mais significativa, segundo Martins Filho. Assim como Cabral, o padre-mestre Francisco de Paula e Oliveira também teve colaboração tímida, porém importante, descrevendo o contexto histórico.

Os demais membros responsáveis pelo original da obra são o tenente-general José Arouche de Toledo Rendon, morto sete anos após a produção do relatório, que fez o levantamento territorial de São Paulo. Por ser advogado, descreveu as normas de distribuição das terras, conhecidas como sesmarias.

Os recursos minerais da região, entre outros aspectos do país, foram explorados pelo padre-mestre Manoel Joaquim do Amaral Gurgel. Outro sacerdote a contribuir com o documento foi José Antônio dos Reis ao coletar os dados do setor agropecuário.

Parte dos recursos hídricos e dos recursos naturais foi levantado por Candido Gonçalves Gomide. Um dado curioso descrito no documento é sobre o rio Tietê: “As margens do Tietê abundam de soberbo arvoredo e de muitas e ótimas frutas silvestres. Cria copiosíssimo e delicioso peixe e, entre outras espécies, há: dourados, saupés, pacus, piracanjubas, surubins, piracambucus, jaús e piraquaxiaras, algumas de duas arrobas”. Cenário inimaginável para os atuais habitantes da capital paulista com o poluído rio que corta a metrópole.

Joaquim Floriano de Toledo foi um dos que mais atuaram no manuscrito ao abordar a região costeira da província paulista. Toledo faz também um relato da organização política, assim como a relação entre a igreja e o Estado de uma das mais importantes províncias do Brasil Império.

  • A Estatística da Imperial Província de São Paulo
    Autor: José Antônio de Teixeira Cabral
    Lançamento: 2010
    Preço: R$ 120
    Páginas: 440
    Mais informações: www.edusp.com.br

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sábado, 12 de março de 2011

Movimento da senzala

 

Movimento da senzala

Referência na historiografia brasileira, livro O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da Abolição, ganha edição revista (Imagem: J.B. Debret)

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Com base na historiografia tradicional, o abolicionismo e o fim da escravidão no Brasil foram interpretados por muito tempo como processos elitistas, nos quais o escravo aparecia como um personagem passivo. O livro O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da Abolição, que acaba de ganhar sua segunda edição, revista, vem contribuindo desde 1994 para mudar essa visão.

O fim da escravidão foi resultado de uma cultura política gestada no cotidiano do trabalho nas senzalas, de acordo com a obra, fundamentada em pesquisa realizada a partir de múltiplas fontes por Maria Helena Toledo de Machado, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com Maria Helena, a tese central do livro – que teve origem em sua pesquisa de doutorado, concluída na USP em 1991 – é que os escravos não tiveram um papel passivo no processo que culminou com o fim da escravidão, que não teve nada de elitista, ao contrário do que deixava transparecer a historiografia abolicionista.

Os escravos tiveram ampla participação no processo, em um movimento que também envolveu trabalhadores livres pobres e imigrantes. A atuação dos líderes abolicionistas só é compreensível como parte de um contexto de uma cultura política que teve origem nas senzalas, com a tensão social causada por sucessivas fugas em massa ao longo da década de 1880”, disse à Agência FAPESP.

Segundo a historiadora, o objetivo do livro era analisar a atuação dos escravos no processo de abolição, no período entre 1880 e 1888, no contexto paulista. Para isso, além de consultar uma bibliografia internacional, ela realizou uma pesquisa inédita considerando acervos judiciários e a documentação da polícia em cidades paulistas.

Tratava-se de uma documentação massiva, com milhares de documentos que mapeei para selecionar apenas o que se referia aos escravos. A partir dessa seleção, valorizei os casos que relatavam revoltas, fugas em massa, homicídios, invasões de cidades e outros movimentos de maior impacto”, afirmou.

A pesquisadora, então, visitou diversas cidades paulistas, consultou cartórios locais e levantou processos criminais relacionados aos eventos que estavam listados na documentação oficial da polícia.

Além disso, encontrei no Arquivo do Estado, pela primeira vez, o livro de reservados da polícia – onde eram registrados os fatos que não podiam ser divulgados para o público. Colhi os relatórios mais gerais dos chefes da polícia, dos presidentes das províncias e dos jornais da época”, disse Maria Helena.

No ano de 1885, por exemplo, os relatórios do chefe de polícia de Campinas relatavam que havia sido um ano tranquilo, sem maiores problemas a não ser pequenas ocorrências pontuais com escravos. Enquanto isso, o livro de reservados registrava um cenário certamente mais próximo da realidade: a cidade estava em perigo iminente com as fugas em massa de escravos.

Percebi que os jornais eram censurados e retratavam uma versão rósea da realidade que a polícia de fato estava enfrentando. Acompanhei diversos estágios da produção dos eventos. Desde os primeiros telegramas, nos quais os fazendeiros pediam socorro ao subdelegado depois da invasão da sede de uma fazenda por escravos armados, passando pela notificação de cada autoridade, até chegar ao desenrolar do conflito e à divulgação nos jornais”, disse.

Onda de pânico

A historiadora descobriu revoltas de escravos que não haviam sido documentadas anteriormente. Uma delas, abortada, estava planejada para ser realizada em Resende (RJ), em 1881. Os registros diziam que um homem branco conhecido como Mesquita tinha chegado dos Estados Unidos e estava organizando uma revolta de escravos sem precedentes.

Ele orientava os escravos a roubar armas dos senhores, a cortar os fios dos telégrafos e a roubar cavalos. Planejava articular uma ação orquestrada e formar uma excursão para a corte, no Rio de Janeiro, a fim de exigir a abolição da escravidão. Vários episódios mostravam grande movimentação social naquela década – entre São Paulo e Rio de Janeiro – com participação ativa dos escravos”, disse Maria Helena.

Outra revolta estudada foi organizada em 1882, em Campinas (SP), e chegou a ser realizada, embora em dimensão menor que a planejada. Liderada por um escravo liberto chamado Felipe Santiago, essa revolta foi associada à organização de uma seita religiosa denominada Arásia.

Os adeptos tinham iniciações, recebiam novos nomes e eram marcados no corpo em ritos iniciáticos. Esses escravos haviam comprado armas e invadiram a cidade de Campinas em uma ação muito violenta. Esse tipo de episódio dissipa a ideia de que a abolição foi uma libertação passiva, ou um protesto irracional e apolítico dos escravos”, contou.

O título do livro – O Plano e o pânico –, segundo Maria Helena, remete à organização deliberada das revoltas arquitetadas por escravos e à onda de pânico por elas espalhada entre os escravistas.

Depois da revolta de Resende em 1881, houve vários outros episódios e o pânico se espalhou pelo território paulista. O medo era tamanho que, em Bananal, por exemplo, as pessoas chegaram a abandonar as fazendas e fugir para a cidade. As polícias paulista e fluminense, despreparadas, sem armamentos, sem treinamento, viram-se sob o risco palpável de eventos violentos durante toda a década”, disse Maria Helena.

  • O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da Abolição
    Autor: Maria Helena Toledo de Machado
    Lançamento: 2011
    Preço: R$ 37
    Páginas: 248
    Mais informações: www.edusp.com.br

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