quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo - vol. VI

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – O sexto volume da coleção Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo, lançado sexta-feira (13/11), no Instituto de Botânica de São Paulo (IBt), dá continuidade a um mapeamento abrangente das espécies que produzem flores – ou fanerógamas – em território paulista. A edição atual traz a descrição detalhada, com ilustrações, de 398 espécies de 58 gêneros e quatro famílias.
A série nasceu a partir do Projeto Temático FAPESP com o mesmo nome da coleção, iniciado em 1993 e que envolve mais de 200 pesquisadores sob coordenação de Maria das Graças Lapa Wanderley, do IBt, George Shepherd, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Therezinha Melhem (IBt) e Ana Maria Giulietti (Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS). A equipe de coordenação incluiu, no atual volume, a pesquisadora Suzana Martins, do IBt.
De acordo com Maria das Graças, o sexto volume teve a participação de 20 pesquisadores de diversas instituições e apresenta descrições das famílias das melastomatáceas, poligonáceas, sapindáceas e esterculiáceas. Além das quatro famílias do volume atual, foram descritas em toda a série, até o momento, 130 famílias de angiospermas e duas de gimnospermas.
Das 7,5 mil espécies de fanerógamas estimadas para o Estado de São Paulo, já foram descritas 2.767, de 118 gêneros, perfazendo 37% do total. Os números passam por constante atualização conforme os volumes vão sendo publicados, uma vez que é frequente ocorrer sinonímia ou a descoberta de novas espécies.
As informações contidas nos seis volumes servem de base para a identificação de espécies de plantas nativas e subespontâneas – aquelas que não são nativas, mas foram incorporadas à flora local – de São Paulo. Um dos aspectos importantes é que essas informações servem ainda como apoio para a elaboração de outras floras regionais e para a comunidade científica e a sociedade como um todo”, disse Maria das Graças à Agência FAPESP.
Como ocorreu nos demais volumes, a edição atual seguiu o padrão estabelecido pelas normas do projeto Flora Fenerogâmica, criadas por uma comissão de pesquisadores e atualizadas durante o desenvolvimento das monografias. “As monografias contêm descrições da família, gêneros e espécies. Chaves para gêneros e espécies e ilustrações dos táxons também estão incluídas”, disse.
A nova edição inclui um índice de todas as famílias publicadas até o momento, resumindo o estado atual da obra. “A série contém preciosas informações sobre a diversidade vegetal paulista, reunindo informações taxonômicas, distribuição geográfica e comentários ecológicos das espécies ocorrentes no Estado”, afirmou. As ilustrações botânicas, de alta qualidade, foram feitas por 19 artistas.
Segundo Maria das Graças, a descoberta de vários táxons inéditos para a ciência e novos registros de ocorrência para o Estado reforçam a necessidade de prosseguir na linha de pesquisa adotada pelo projeto. “A detecção de áreas geográficas pouco exploradas durante o desenvolvimento do projeto estimula a ampliação de novas coletas botânicas para o melhor conhecimento da biodiversidade paulista”, disse.
Os cálculos feitos indicam que o Estado de São Paulo reúne uma flora equivalente a dois terços da existente em toda a Europa. O projeto deverá abarcar praticamente a totalidade dessa riqueza vegetal. O grupo já dispõe de material para mais dois volumes, que deverão ser lançados nos próximos três anos.
Além desses dois volumes em fase de editoração, planejamos a publicação posterior de quatro volumes dedicados a famílias muito grandes, como a das orquidáceas e a das leguminosas. Nesses casos, cada volume corresponderá a apenas uma família”, disse. O projeto prevê ainda a atualização dos volumes anteriores a partir da publicação de artigos complementares, incluindo versões on-line.
Maria das Graças conta que o Programa Biota-FAPESP tem uma proposta de produzir, a partir de 2010, uma lista das espécies da flora paulista. “Vamos somar esforços. A partir daí, planejamos a publicação de um checklist completo das espécies de fanerógamas do Estado de São Paulo. Essa lista não apresentará a descrição, mas indicará a distribuição geográfica por família, gênero e espécie e incluirá pelo menos um voucher, isto é, um registro de material de herbário. A lista completa dará grande visibilidade à flora paulista.”
A pesquisadora lembra que nenhum projeto de flora no Brasil foi concluído até hoje. “O Flora Fanerogâmica é o único projeto de inventário da flora no Brasil que tem preocupação de publicação contínua. Já temos um volume muito satisfatório de monografias, com qualidade reconhecida”, afirmou.
A família das melastomatáceas (Melastomataceae) é a mais numerosa do sexto volume, apresentando 248 espécies, 30 gêneros e 248 espécies. Dez autores participaram do inventário dessa família, sob coordenação de Angela Borges Martins, da Unicamp. “Essa família apresenta grande importância para a flora do Estado, com grande representação de plantas ornamentais, especialmente na Mata Atlântica”, disse Maria das Graças.
Segundo ela, com um número tão elevado de espécies, é difícil exemplificar e destacar alguma planta em especial. “A família das melastomatáceas tem muita importância pela diversidade de espécies e ocorre em todas as regiões e em praticamente todos os ecossistemas do Estado de São Paulo, tanto em áreas muito preservadas como em áreas no início da sucessão ecológica.”
O sexto volume é dedicado à artista inglesa Margaret Mee (1909-1988), no centenário de seu nascimento, pelo seu grande entusiasmo e amor pela natureza. “Suas obras são conhecidas no mundo inteiro, refletindo muito da diversidade vegetal brasileira”, destacou Maria das Graças.

Novas espécies

A presença das melastomatáceas e sua importância nos diversos ecossistemas paulistas são marcantes. “Principalmente na floresta ombrófila densa, onde, nos estágios iniciais, torna-se abundante o manacá (Tibouchina) e o jacatirão (Miconia). Há outras em florestas mais preservadas, geralmente ocupando o sub-bosque, representada por plantas herbáceas, como a Salpinga e a Bertolonia – algumas delas muito raras e ameaçadas de extinção –, e arbustivas, como a Leandra e a Miconia, além de algumas epífitas como a Pleiochiton”, explicou Maria das Graças.
Nas fisionomias campestres, como campos rupestres, campos de altitude e campos de Cerrado, a família das melastomatáceas se torna ainda mais especial, tanto pela riqueza em espécies como pela abundância de indivíduos.
Infelizmente, pela ocupação e degradação desses ambientes, muitas espécies naturais dessas formações estão representadas na flora de São Paulo por exemplares coletados há mais de 50 anos, podendo ser consideradas presumivelmente extintas no Estado. Um exemplo é o gênero Microlicia: das nove espécies citadas para o Estado, três não foram mais encontradas”, disse.
Há ainda muitas espécies que podem ser consideradas raras, ocorrentes nos campos e cerrados, com poucas coletas ou com distribuição restrita a apenas poucas localidades, como, por exemplo, algumas espécies de Leandra, Rhynchanthera, Siphanthera e Tibouchina.
Além disso, a família conta com espécies ornamentais, algumas já utilizadas na arborização urbana – como as quaresmeiras e o manacá (Tibouchina spp.) – e na ornamentação de jardins e praças. Entretanto, há muitas outras espécies com grande potencial ornamental ainda pouco explorado”, explicou a pesquisadora.
As poligonáceas (Polygonaceae) tiveram registros de 34 espécies e seis gêneros, cujas monografias foram produzidas por Efigênia de Melo e Washington Marcondes-Ferreira.
Apesar de as espécies desta família não apresentarem flores vistosas, elas são muito utilizadas na arborização urbana. É o caso do pau-de-novato (Triplaris americana), que se torna ornamental pelos seus frutos alados róseos ou vináceos”, disse Maria das Graças.
O gênero Polygonum é considerado cosmopolita, sendo representado em São Paulo por 14 espécies, geralmente conhecidas como erva-de-bicho, que ocorrem em ambientes alagáveis ou ruderais.
Genise Vieira Sommer, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), coordenou outras três pesquisadoras no levantamento sobre a família das sapindáceas (Sapindaceae), descrevendo 88 espécies de 15 gêneros.
Das 88 espécies referidas para São Paulo, 60 são trepadeiras, geralmente muito comuns nas bordas de florestas. Algumas são consideradas invasoras. Muitas dessas trepadeiras têm o nome popular de cipó-timbó e eram utilizadas para a pesca”, disse Maria das Graças.
Entre as plantas arbóreas dessa família, segundo ela, destacam-se as dos gêneros Cupania e Matayba, frequentes nas florestas paulistas. “O sabão-de-soldado (Sapindus saponaria) é bastante utilizado na arborização urbana e a pitomba (Talisia esculenta) é muito cultivada e consumida pelos seus frutos adocicados”, disse.
A família das esterculiáceas (Sterculiaceae), que completa o sexto volume da coleção com 28 espécies de sete gêneros, foi inventariada sob a coordenação de Flávia Ribeiro Cruz e Gerleni Lopes Esteves, do IBt.
As espécies mais conhecidas dessa família são o mutambo (Guazuma ulmifolia), amplamente distribuída na floresta estacional semidecidual e no Cerrado paulista, e o chichá (Sterculia curiosa), sendo que sua última coleta em hábitat natural data de 1885 e atualmente é apenas encontrada cultivada como ornamental”, disse Maria das Graças.
O gênero Ayenia, natural dos Cerrados, apresenta três espécies no Estado de São Paulo. “Uma delas pode ser considerada presumivelmente extinta, pela ausência de novos registros há mais de 70 anos, e as outras duas espécies são muito raras, com um ou dois materiais depositados nos herbários”, contou.
O sexto volume da coleção apresenta três novas espécies descritas recentemente, uma em 2005 e duas em 2007, e que foram denominadas a partir dos nomes de coordenadores do Flora Fanerogâmica. A Leandra hermogenesii homenageia o professor Hermógenes de Freitas Leitão Filho, mentor do projeto, falecido em 1996. “É uma espécie restrita ao município de Cunha, no interior paulista, em formação de floresta ombrófila densa”, explicou Suzana Martins, do IBt.
A Leandra lapae, que homenageia Maria das Graças Lapa Wanderley, é uma nova espécie coletada somente no município de São Paulo, na região de Parelheiros. George Shepherd foi homenageado com a Miconia shepherdii. “Essa espécie ocorre em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, em formações florestais sobre as serras da Bocaina e Mantiqueira”, disse Suzana.
Participaram do sexto volume do Flora Fanerogâmica pesquisadores do IBt, da Unicamp, da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, da UFRRJ, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, da UEFS, das universidades federais Fluminense, do Rio de Janeiro, do Paraná, de Santa Catarina e de Uberlândia e do Instituto de Botánica del Nordeste, da Argentina.

Título: Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo - Volume 6
Preço: R$ 100
Editora: Instituto de Botânica Vendas: http://www.ibot.sp.gov.br/ ou (11) 5073-6300 – ramal 313.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Natureza e Cultura no Brasil (1870-1922) - Livro

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – “Civilizar” o país e inseri-lo em um projeto de modernidade significava, em grande parte, abandonar a ideia do ambiente rural, da natureza selvagem e dos territórios inóspitos e atrasados. Paraíso terrestre, guerra contra a natureza, sentimento de nostalgia, ideia de progresso e transformação da natureza são alguns dos aspectos analisados no livro Natureza e Cultura no Brasil (1870-1922), que acaba de ser lançado.

A obra investiga como grande parte da intelectualidade brasileira – do fim do século 19 até a Semana de Arte Moderna, em 1922 – percebia e concebia as múltiplas relações entre natureza e sociedade, aliado a um projeto de modernidade nacional.

O livro analisa um conjunto de escritos desse período tanto na ficção como em textos não literários (ensaios, relatos de viagem e memórias) de autores consagrados, como Euclides da Cunha, Graça Aranha e Visconde de Taunay, e outros menos conhecidos, como Alberto Rangel, Hugo de Carvalho Ramos e Domicílio da Gama.

De acordo com a autora Luciana Murari, o conjunto de textos é multifacetado, com muitas contradições, dividido de um lado pela tentativa de “racionalizar tudo”, de encaixar a realidade em modelos cognitivos que a explicassem e que possibilitassem que o homem adquirisse controle sobre a natureza e, de outro, pela percepção da natureza como um espaço sagrado e inatingível.
“Essas duas inclinações não se mostravam mutuamente excludentes no contexto das obras, nem mesmo no conjunto da obra de um mesmo autor. Na melhor das hipóteses, em momentos otimistas, grande parte dos intelectuais brasileiros acreditava que o progresso resolveria tudo, anularia as diferenças e criaria a própria nacionalidade”, disse Luciana, professora do Centro de Ciências Humanas e do Programa de Pós-graduação em Letras, Cultura e Regionalidade da Universidade de Caxias do Sul, à Agência FAPESP.

O livro é resultado de sua tese de doutorado, defendida na Universidade de São Paulo (USP) sob a orientação de Elias Thomé Saliba, professor titular em Teoria da História da USP, e recebeu apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

O livro mostra que essa geração de pensadores e ensaístas, mais do que presa às explicações deterministas, biológicas e racistas, viveu uma consciência dividida, característica da cultura do fim de século”, disse Saliba.

A obra revela ainda como esses pensadores, cada um a sua maneira, denunciam a modernidade postiça, construída a partir da devastação brutal da natureza e da destruição dos laços que mantinham a coesão da sociedade tradicional. Alguns de seus argumentos e descrições, com difusa e surpreendente consciência ecológica, mostram-se ainda estranhamente atuais”, disse.

De acordo com Luciana, em relação ao recorte histórico pouco convencional, a ideia foi investigar o período anterior à Semana de Arte Moderna, “porque esse período precisa ser revisto como um todo e não apenas nos momentos que pareceriam, na melhor das hipóteses, antecipar a chamada revolução modernista”.

A delimitação é uma referência para se pensar o início do processo de modernização produtiva no Brasil, que também viveu uma espécie de modernização intelectual nesse período, dedicado a transformar os padrões cognitivos em vigor no debate sobre a nacionalidade e a construir uma nova imagem e uma nova postura frente ao país, baseada na ciência”, disse.

Embora não analise os textos dos chamados modernistas de 1922, a pesquisadora conta ter percebido que não houve uma ruptura radical em relação ao debate modernista e algumas questões que circulavam há tempos entre os intelectuais brasileiros do período anterior.

Os modernistas transformaram muitas coisas e estabeleceram novos padrões estéticos, mas talvez essa noção de ruptura associada ao movimento reproduza o próprio discurso deles, ou de alguns deles, e nos impeça de ver continuidades importantes”, disse.

Ao elencar os escritores interessados na questão da natureza brasileira, Luciana destaca três nomes: o cearense Rodolfo Teófilo, Alberto Rangel, um seguidor de Euclides da Cunha cuja linha ficcional apresenta características de não ficcionais, e Coelho Neto, um dos intelectuais mais prestigiados do seu tempo, mas muito pouco estudado.

Coelho Neto era uma referência para seus contemporâneos, sempre chamado para palpitar nos assuntos mais importantes da vida nacional. Mas acabou, segundo a pesquisadora, ganhando fama de intelectual alienado da realidade nacional.

Essa acusação, a meu ver, não tem fundamento, mesmo porque ele foi uma referência para o nativismo de sua época, como pioneiro da literatura regionalista. A visão de Coelho Neto sobre a natureza resume muito do que seus contemporâneos discutiam, mas ao mesmo tempo é bastante original porque tem um aspecto místico muito forte e uma emotividade arrebatadora”, disse Luciana.

Sonho da modernidade

Natureza e Cultura no Brasil (1870-1922) está dividido em quatro capítulos, mais um pós-escrito. Um paraíso terrestre mostra as concepções teóricas sobre a relação entre homem e natureza no país e como a relação da sociedade brasileira com sua base natural adquiriu um sentido negativo, “exprimindo um conflito inexorável entre os empreendimentos humanos e as condições do meio natural”.

Guerra contra a natureza, segundo capítulo, aprofunda o diagnóstico “negativo” de uma relação baseada na violência recíproca: tanto a ação destrutiva da natureza em relação aos desígnios humanos como a ação destruídora do homem em relação a ela.

Nos dois últimos capítulos, a autora aborda, respectivamente, o Sentimento do sertão na alma brasileira e o Progresso e transformação da natureza.

Nesse quarto capítulo, discuto a modernidade propriamente dita, compreendida como uma relação de domínio do homem sobre a natureza. Os autores tentavam demonstrar a viabilidade de uma sociedade moderna no ambiente brasileiro, pacificando a luta do homem contra a natureza e superando a melancolia por meio da ação. É um capítulo sobre as utopias da modernidade brasileira”, explicou.

Segundo Luciana, a construção da natureza no imaginário nacional permite observar o dilema brasileiro a partir da perspectiva de homens conscientes e temerosos do peso da formação colonial e escravocrata do Brasil.

Trata-se de um fardo que concorria com seus projetos de alinhamento à modernidade e que perturbava a formação de um sentimento coletivo em um país em que as divisões sociais eram muito profundas e irredutíveis”, apontou.

A modernidade era um sonho que parecia fadado a nunca se realizar, porque aquele peso sempre se fazia sentir e se expressava de forma muito intensa na relação do país com seu meio físico”, disse a autora.

Título: Natureza e Cultura no Brasil (1870-1922)
Autora: Luciana Murari
Ano: 2009 Páginas: 474
Preço: R$ 50
Mais informações: http://www.alamedaeditorial.com.br/

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A Criação - Gore Vidal


Ciro Espítama, neto de Zoroastro, aos setenta e cinco anos de idade, já cego, ouve a conferência de Heródoto de Halicarnasso , o Pai da História, no Odeon em Atenas sobre as guerras gregas; revoltado e totalmente contrário à narração feita por Heródoto é incentivado por seu sobrinho Demócrito, então com dezoito anos, a escrever a sua versão da história das Guerras Gregas. Ciro, personagem principal, narra sua trajetória desde a infância vivida na corte de Dario, Rei da Pérsia, onde foi educado ao lado de Xerxes, sucessor de Dário, de acordo com a disciplina militar da corte persa. Lá vê e vive toda a artimanha do poder, as conspirações, os bastidores da corte, as jogadas políticas, a falsidade dos relacionamentos, as alianças, etc., o dia-a-dia de um corte onde cada um joga a seu próprio favor. Como neto de Zoroastro sua sina natural seria o sacerdócio, mas ele queria ser guerreiro; pouco antes da sua consagração, conhecendo suas aspirações, Dario nomeia-o embaixador do Grande Rei para explorar e conhecer a Índia. Liderando uma caravana e com uma carta do Rei da Pérsia outorgando-lhe poder para advogar em nome do soberano, segue para explorar o desconhecido para a época. Em sua estadia na Índia, entre todas as realizações, Ciro se casa, tem duas filhas e conhece Buda. Em seus diálogos conhece os princípios do budismo e compara com o Zoroastrismo; conta intimidades sobre Buda, construindo um panorama perfeito para que o leitor possa reconstruir mentalmente a época e imaginar o cotidiano das pessoas que viveram no século V antes da era cristã. Retorna com o desejo de incentivar o Grande Rei a ?sonhar com vacas?, ou seja, a querer expandir seu reino além do Mediterrâneo, mas os olhos e o coração do rei estavam voltados para outra direção. Apesar de tudo Ciro retorna à corte que já o havia dado como morto e é nomeado Amigo do Rei, cargo que dá enorme prestigio e o faz conhecido por todo o reino. Quando Xerxes sucedeu Dario e tornou-se o rei da Pérsia, mandou Ciro novamente em missão persa, só que agora para Catai região ocidental do império, onde hoje conhecemos como China. Mais uma vez lá vai o homem que nasceu para ser sacerdote que queria ser guerreiro, mas tornou-se embaixador dos reis Dario e Xerxes. Em Catai conhece Confúcio e toda a doutrina da religião chinesa. Este fato auxilia o leitor a fazer comparações entre os princípios de cada uma das correntes religiosas, a visão de cada uma delas sobre de onde viemos e para onde vamos; chegando a citar a afirmação de Pitágoras que se dizia reencarnação de um deus. Nesta trajetória histórica, Gore Vidal nos coloca frente a frente com as contradições entre a justiça e a liberdade, suas faces em cada país, em cada cidade, em cada comunidade. A reconstrução histórica pormenorizada nos leva a refletir sobre a eterna busca do homem de uma explicação para a sua existência, o começo dessa longa estrada chamada vida até o além de seu final. Mantendo viva a pergunta com tantas propostas, mas sem uma única resposta que satisfaça, a não ser a dúvida que persiste: o que há depois da vida? Deus, big bang, o acaso, a mutação, a metamorfose, de onde viemos e para onde vamos? Isso fica a cargo do leitor.