sexta-feira, 26 de outubro de 2012

100 livros essenciais da literatura brasileira

 

Educar para Crescer

Dom Casmurro, Macunaíma, O Tempo e o Vento e outras obras fantásticas que você deve ler uma vez na vida

Texto Helio Ponciano e Marcelo Pen

Foto: Dreamstime

100livros

Os melhores livros do Brasil

Quais são os 100 livros fundamentais, essenciais, imperdíveis da literatura brasileira?

Que romance, poesia, crônica ou conto você não pode deixar de ler na vida? Dom Casmurro, Brás Cubas, Macunaíma, Sargento de Milícias, Grande Sertão Veredas e outras grandes obras do Brasil. A revista Bravo selecionou os 100 melhores livros dos melhores autores do país. Aqueles clássicos que caem no vestibular com 100% de certeza. Um ranking dos livros mais importantes do Brasil. Veja a lista no final do texto ou siga as dicas de 17 educadoras que selecionaram os livros essenciais para ler dos 2 aos 18 anos e chegar a vida adulta com boas referências, no hotsite Biblioteca Básica.

Escritores costumam ser, até por ofício, bons frasistas. É com essa habilidade em manejar palavras, afinal, que constroem suas obras, e é em parte por causa dela que caem no esquecimento ou passam para a história. Uma dessas frases, famosa, é de um dos autores que figuram nesta edição, Monteiro Lobato: "Um país se faz com homens e livros". Quase um século depois, a sentença é incômoda: o que fazer para fazer deste um Brasil melhor? No que lhe cabe, a literatura ainda não deu totalmente as suas respostas.

Outro grande criador de frases, mais cínico na sua genialidade, é o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, outro autor representado nesta edição. Dizer que "toda unanimidade é burra" é muito mais que um dito espirituoso: significa mesmo uma postura em relação às coisas do mundo e do homem tão crucial quanto aquela do criador do Sítio do Picapau Amarelo.

É evidente que o ranking das 100 obras obrigatórias da literatura brasileira feito nesta edição não encontrará unanimidade entre os leitores. Alguns discordarão da ordem, outros eliminariam títulos ou acrescentariam outros. E é bom que seja assim, é bom que haja o dissenso: ficamos longe da burrice dos cânones dos velhos compêndios e da tradição mumificada.

Embora tenha sua inevitável dose de subjetividade, a seleção feita nesta edição, contudo, está longe de ser arbitrária. Os livros que, em seus gêneros (romance, poesia, crônica, dramaturgia) ajudaram a construir a identidade da literatura nacional não foram desprezados (na relação geral e na ordem). Nem foram deixados de lado aqueles destacados pelas várias correntes da crítica, muito menos os que a própria revista BRAVO!, na sua missão de divulgar o que de melhor tem sido produzido na cultura brasileira, julgou merecer.

O resultado é um guia amplo, ao mesmo tempo informativo e útil. Para o leitor dos livros de ontem e hoje, do consagrado e do que pode apontar para o inovador. Não só para a literatura, mas também, como queria Lobato, para os homens e para o país que ainda temos de construir. A seguir, os 100 livros essenciais da literatura brasileira, listados em ordem alfabética de autor. Leia e divirta-se!

Adélia Prado: Bagagem
Aluísio Azevedo: O Cortiço
Álvares de Azevedo: Lira dos Vinte Anos
Noite na Taverna

Antonio Callado: Quarup
Antônio de Alcântara Machado: Brás, Bexiga e Barra Funda

Ariano Suassuna: Romance d'A Pedra do Reino
Augusto de Campos: Viva Vaia

Augusto dos Anjos: Eu
Autran Dourado: Ópera dos Mortos
Basílio da Gama: O Uraguai
Bernando Élis: O Tronco
Bernando Guimarães: A Escrava Isaura
Caio Fernando Abreu: Morangos Mofados

Carlos Drummond de Andrade: A Rosa do Povo
Claro Enigma
Castro Alves: Os Escravos
Espumas Flutuantes
Cecília Meireles: Romanceiro da Inconfidência
Mar Absoluto
Clarice Lispector: A Paixão Segundo G.H.
Laços de Família
Cruz e Souza: Broquéis
Dalton Trevisan: O Vampiro de Curitiba
Dias Gomes: O Pagador de Promessas

Dyonélio Machado: Os Ratos

Erico Verissimo: O Tempo e o Vento
Euclides da Cunha: Os Sertões

Fernando Gabeira: O que é Isso, Companheiro?
Fernando Sabino: O Encontro Marcado
Ferreira Gullar: Poema Sujo
Gonçalves Dias: I-Juca Pirama

Graça Aranha: Canaã
Graciliano Ramos: Vidas Secas
São Bernardo
Gregório de Matos: Obra Poética
Guimarães Rosa: O Grande Sertão: Veredas
Sagarana
Haroldo de Campos: Galáxias
Hilda Hilst: A Obscena Senhora D
Ignágio de Loyola Brandão: Zero
João Antônio: Malagueta, Perus e Bacanaço
João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina
João do Rio:A Alma Encantadora das Ruas
João Gilberto Noll: Harmada

João Simões Lopes Neto: Contos Gauchescos
João Ubaldo Ribeiro: Viva o Povo Brasileiro
Joaquim Manuel de Macedo: A Moreninha
Jorge Amado: Gabriela, Cravo e Canela
Terras do Sem Fim
Jorge de Lima: Invenção de Orfeu

José Cândido de Carvalho: O Coronel e o Lobisomen
José de Alencar: O Guarani
Lucíola
José J. Veiga: Os Cavalinhos de Platiplanto
José Lins do Rego: Fogo Morto
Lima Barreto: Triste Fim de Policarpo Quaresma
Lúcio Cardoso: Crônica da Casa Assassinada

Luis Fernando Verissimo: O Analista de Bagé
Luiz Vilela: Tremor de Terra
Lygia Fagundes Telles: As Meninas
Seminário dos Ratos
Machado de Assis: Memórias Póstumas de Brás Cubas
Dom Casmurro
Manuel Antônio de Almeida: Memórias de um Sargento de Milícias

Manuel Bandeira: Libertinagem
Estrela da Manhã

Márcio Souza: Galvez, Imperador do Acre

Mário de Andrade: Macunaíma
Paulicéia Desvairada

Mário Faustino: o Homem e Sua Hora
Mário Quintana: Nova Antologia Poética
Marques Rebelo: A Estrela Sobe

Menotti Del Picchia: Juca Mulato
Monteiro Lobato: O Sítio do Pica-pau Amarelo
Murilo Mendes: As Metamorfoses
Murilo Rubião: O Ex-Mágico
Nelson Rodrigues: Vestido de Noiva
A Vida Como Ela É
Olavo Bilac: Poesias

Osman Lins: Avalovara

Oswald de Andrade: Serafim Ponte Grande
Memórias Sentimentais de João Miramar

Otto Lara Resende: O Braço Direito

Padre Antônio Vieira: Sermões

Paulo Leminski: Catatau

Pedro Nava: Baú de Ossos
Plínio Marcos: Navalha de Carne
Rachel de Queiroz: O Quinze
Raduan Nassar: Lavoura Arcaica
Um Copo de Cólera
Raul Pompéia: O Ateneu

Rubem Braga: 200 Crônicas Escolhidas
Rubem Fonseca: A Coleira do Cão
Sérgio Sant'Anna: A Senhorita Simpson

Stanislaw Ponte Preta: Febeapá
Tomás Antônio Gonzaga: Marília de Dirceu
Cartas Chilenas
Vinícius de Moraes: Nova Antologia Poética
Visconde de Taunay: Inocência

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O negro no futebol brasileiro - Mario Filho


Ainda não surgiu na literatura esportiva outra obra que tenha sido tão estudada e pesquisada como “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mario Filho. Sessenta e cinco anos após a sua primeira edição em 1947 (Pongetti Editores) ela já foi tema de centenas de análises acadêmicas feitas por gente do mais alto calibre de diversas áreas e estudos da sociedade e do futebol brasileiro. Teve quatro edições, a segunda em 1964, pela Editora Civilização Brasileira, a terceira em 1994, pela Editora Firmo, e, finalmente, em 2003, pela Mauad Editora.

O Negro no Futebol Brasileiro é considerado o maior clássico da literatura esportiva brasileira, mas nem por isso deixou de ser questionada por vários estudiosos. Para muitos, Mario Filho, a semelhança de seu irmão Nelson Rodrigues, teria inventado muitas das histórias narradas no livro. A resposta do próprio autor a esses críticos pode ser encontrada no texto de apresentação que Mario Filho faz em sua primeira edição e que o Literatura na Arquibancada resgata na íntegra pouco mais abaixo: “Não, eu não usei a imaginação. Nenhum historiador teria tido mais cuidado do que eu em selecionar os dados, em comprovar-lhe a veracidade por averiguações exaustivas. Às vezes uma simples dúvida me fazia inutilizar um capítulo, obrigando-me a novos trabalhos e pesquisas”.
Em outro livro, A Invenção do País do Futebol – Mídia, Raça e Idolatria, os autores Ronaldo Helal, Antonio Jorge Soares e Hugo Lovisolo entendem que “o livro pioneiro de Mário se equivoca justamente no enfoque sociológico, ao afirmar que o negro teria sido o criador da ginga, do drible, do estilo brasileiro de se jogar futebol”. No texto de apresentação da mais recente edição de O Negro no Futebol Brasileiro (Mauad), os autores vão mais longe: “Para eles, a utilização de O Negro no Futebol Brasileiro por sociólogos criou uma espécie de interpretação única, com os ideais da construção de uma nação brasileira com menos antagonismos entre as raças. De acordo com os pesquisadores, o equívoco não seria de Mário, mas da forma com que especialistas acabaram franqueando a tese do autor, como a construção do ídolo negro — que seria mais uma criação romântica que deu certo. Para os autores, o racismo preexistiu, mas o nosso futebol se fez mais pela pressão do profissionalismo, pela criação das ligas, do que propriamente por racismo. Jorge salienta que Mário Filho buscou constituir uma identidade nacional, cujo enfoque tem influência do meio em que viveu”.
Tantas análises sociológicas foram feitas sobre a obra de Mario Filho porque quem assinou o prefácio do livro foi nada menos do que Gilberto Freyre, considerado um dos maiores sociólogos do país, e que você poderá ler na íntegra logo abaixo e tirar suas conclusões sobre a importância de “O Negro no Futebol Brasileiro” na literatura brasileira.
O certo é que a obra-prima de Mario Filho, considerado “o pai da crônica esportiva brasileira” permanece atual e com sugestões que nos fazem refletir. Segundo Mario Filho, o futebol brasileiro sempre revela próximo do ciclo de 20 anos um novo “rei” do futebol. Foi assim com Friedenreich e Leônidas da Silva, entre o Diamante Negro (1938) e Pelé e Garrincha (1958), entre Pelé (1970) e Romário (1994). Ou seja, em 2014, ano da Copa no Brasil, seria Neymar, o mulato que encanta o mundo com sua genialidade a suceder o baixinho Romário?

Prefácio Gilberto Freyre
Recife, 1947

Gilberto Freyre
Aqui está um capítulo da história do futebol no Brasil, que é também uma contribuição valiosa para a história da sociedade e da cultura brasileira na sua transição da fase predominantemente urbana. Além disso, as páginas mais sugestivas de Mario Filho nos põem diante do conflito entre estas duas forças imensas – a racionalidade e a irracionalidade – no comportamento ou na vida dos homens. No caso, homens do Brasil. Homens de uma sociedade híbrida, mestiça, cheia de raízes ameríndias e africanas e não apenas europeias.
Creio não dizer novidade nenhuma repetindo que por trás da instituição considerável que o futebol tornou-se em nosso país se condensam e se acumulam, há anos, velhas energias psíquicas e impulsos irracionais do homem brasileiro, em busca da sublimação. Essa sublimação estava outrora apenas na oportunidade para feitos heroicos ou ações admiráveis que o Exército, a Marinha e as Revoluções mais ou menos patrióticas abriam aos brasileiros brancos e, principalmente, mestiços ou de cor, mais transbordantes de energias animais ou de impulsos irracionais.
Dessas energias e desses impulsos, alguns eram de sentido sadista, outros masoquista. Uns exibicionistas, outros narcisistas. O que, honestamente reconhecido – pois tais elementos se encontram à raiz de algumas das mais belas expressões de bravura, de heroísmo e de valor até hoje praticadas pelos homens de qualquer cor, condição ou cultura – não importa em desconhecer-se a grandeza ou a beleza desses feitos sob a forma das sublimações que atingiram.
Isto quando essas energias ou esses impulsos, em vez de assim se sublimarem ou de se satisfazerem com os esportes ou os quase-esportes rurais dos dias de festa, ou dos dias comuns, dominantes no Brasil patriarcal – as cavalhadas, as corridas atrás de bois, as caçadas, as pessoas, as noites inteiras de samba ou de dança extenuante, as largas caminhadas pelos sertões, a caça aos índios ou aos negros fugidos, a fuga dos negros aos feitores ou à melancolia da rotina agradaria dos engenhos e fazendas – não se degradaram moral ou socialmente em proezas como as do cangaço ou nos rabos-de-arraia da capoeiragem, célebres na história da sociedade brasileira. Espécies de esportes inteiramente irracionais.

O futebol teria numa sociedade como a brasileira, em grande parte formada de elementos primitivos em sua cultura, uma importância toda especial que só agora vai sendo estudada sob critério sociológico ou para-sociológico. E era natural que tomasse aqui o caráter particularmente brasileiro que tomou. Pois tornou-se o meio de expressão, moral e socialmente aprovado pela nossa gente – pelo Governo, pela Igreja, pela Opinião Pública, pelo Belo Sexo, pela Imprensa – de energias psíquicas e de impulsos irracionais que sem o desenvolvimento do futebol – ou de algum equivalente de futebol – na verdadeira instituição nacional que é hoje, entre nós, teriam provavelmente assumido formas de expressão violentamente contrárias à moralidade dominante em nosso meio.

O cangaceirismo teria provavelmente evoluído para um como gangsterismo urbano, com São Paulo degradada numa sub-Chicago de Al Capones ítalo-brasileiros. A capoeiragem, livre de Sampaio Ferraz, teria provavelmente voltado a enfrentar a polícia das cidades sob a forma de conflitos mais sérios que os antigos entre valentes dos morros e guardas-civis das avenidas, agora asfaltadas. O samba teria se conservado tão particularmente primitivo, africano, irracional que suas modernas estilizações seriam desconhecidas, com prejuízo para a nossa cultura e para o seu vigor híbrido. A malandragem também teria se conservado inteiramente um mal ou uma inconveniência.
O desenvolvimento do futebol, não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e de cultura. A capoeiragem e o samba, por exemplo, estão presentes de tal forma no estilo brasileiro de jogar futebol que de um jogador um tanto álgido como Domingos, admirável em seu modo de jogar mas quase sem floreios – os floreios barrocos tão do gosto brasileiro – um crítico da argúcia de Mario Filho pode dizer que ele está para o nosso futebol como Machado de Assis para a nossa literatura, isto é, na situação de uma espécie de inglês desgarrado entre tropicais.

Domingos da Guia
Em moderna linguagem sociológica, na situação de um apolíneo entre dionisíacos. O que não quer dizer que deixe de haver alguma coisa de concentradamente brasileiro no jogo de Domingos como existe alguma coisa de concentradamente brasileiro na literatura de Machado. Apenas há num e noutro um domínio sobre si mesmos que só os clássicos – que são, por definição, apolíneos – possuem de modo absoluto ou quase absoluto, em contraste com os românticos mais livremente criadores.
Mas vá alguém estudar o fundo de Domingos ou a literatura de Machado que encontrará decerto nas raízes de cada um, dando-lhes autenticidade brasileira, um pouco de samba, um pouco de molecagem baiana e até um pouco de capoeiragem pernambucana ou malandragem carioca. Com esses resíduos é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é. A dança dançada baianamente por um Leônidas; e por um Domingos, com uma impassibilidade que talvez acuse sugestões ou influências ameríndias sobre sua personalidade ou sua formação. Mas, de qualquer forma, dança.
Sublimando tanto do que é mais primitivo, mais jovem, mais elementar, em nossa cultura, era natural que o futebol, no Brasil, ao engrandecer-se em instituição nacional, engrandecesse também o negro, o descendente de negro, o mulato, o cafuso, o mestiço. E entre os meios mais recentes – isto é, dos últimos vinte ou trinta anos – de ascensão social do negro ou do mulato ou do cafuso no Brasil, nenhum excede, em importância, ao futebol.

Mario Filho
Este aspecto do desenvolvimento do futebol no Brasil, fixa-o Mário Filho com uma penetração, com uma objetividade, uma segurança, uma minúcia, um luxo de pormenores significativos, que tornam seu ensaio obra de importância para o estudo sociológico e psicológico da ascensão do negro e do mulato na sociedade brasileira. O cronista esportivo, já tão admirado pelo poder de evocação com que tem revivido não só jogos dramáticos – o dos brasileiros com os uruguaios, por exemplo – como o começo dos esportes no Rio de Janeiro, apresenta-se, neste seu novo trabalho, mais próximo do que nunca daquela sociologia dos esportes para a qual sou dos que desejariam ver Mario Filho se encaminhar cada vez mais, através de estudos mais demorados e mais profundos do assunto.
Escritor ágil e plástico, Mario Filho é também pesquisador inteligente e pachorrento para quem a história do futebol em nosso país parece já não ter mistério nenhum. Nem a história nem a atualidade. Daí, o interesse das páginas em que reuniu suas observações e seus estudos sobre o negro no futebol.
É este livro de Mario Filho um dos mais originais e mais sugestivos escritos ultimamente por brasileiros.
Ultimamente ou, talvez, em qualquer época.
Eu que já quase não me espanto com o vigor e a originalidade de talento de qualquer dos dois Rodrigues, filhos do velho Mario e irmãos de Roberto – o pintor admirável que um tiro de mulher matou tão jovem – li as páginas a que junto agora este prefácio inútil, com verdadeiro encanto, tantas foram as sugestões fortes e novas com que me surpreenderam.



Texto de apresentação de Mario Filho (1ª edição, 1947)

O Negro no Futebol Brasileiro não me custou, evidentemente, apenas os cinco meses que levei para escrevê-lo. Desde 42, quando iniciei em O Globo uma coluna diária, a que dei o nome Da Primeira Fila, eu me preparava, sem o saber, é claro, para o trabalho que aqui está pronto, em volume. Foi o que me permitiu realizá-lo. Pude estudar, separadamente, várias épocas do futebol brasileiro, ou, melhor, do futebol carioca, cuja história não há de diferir, em essência, de nenhuma outra dos grandes centros esportivos do Brasil. Eis o que me valeu o conhecimento de fontes que, de outra forma, permaneceriam ignoradas. Cada Primeira Fila, revivendo um passado quase morto mesmo na memória dos que o viveram, me colocava diante de personagens de uma história que precisava ser escrita antes de perder-se, irremediavelmente.
O futebol, hoje, enche páginas da imprensa mais austera, menos esportiva. Nem sempre, porém, foi assim. Basta percorrer as coleções dos jornais e das revistas de trinta, de quarenta anos atrás. O futebol só interessou às folhas depois de se tornar uma paixão do povo. Enquanto não encheu os campos, não dividiu a cidade em grupos, em verdadeiros clans, o futebol quase não existia para os jornais. Por isso a consulta de jornais até 10 pode servir, quando muito, para estatísticas de resultados de jogos. Somente depois de 10 é que o futebol, transformado em assunto jornalístico, permitiu que apaixonados do chamado esporte bretão cada um com o seu clube, escrevessem crônicas, às vezes assinadas com iniciais.
Marcos de Mendonça
Marcos de Mendonça teve a gentileza de emprestar-me o seu álbum, o mais completo repositório dos acontecimentos do futebol de 10 a 19. Com fotografias preciosas, com recortes de jornais, às vezes dez recortes de jornais diferentes sobre um mesmo jogo, o álbum de Marcos de Mendonça me serviu de muito, principalmente para acompanhar o que eu chamaria a história da importância do futebol. Importância que se sentia crescer com os recortes, com as fotografias. A estreia de Marcos de Mendonça, em 10, num jogo Hadock Lobo e Fluminense, um quarto de coluna. Em menos de três anos os jornais já davam uma página para um simples jogo. E, depois, o álbum me fornecia nomes, me apresentava a uma porção de gente que eu podia consultar.
Essas conversas com os próprios personagens da história do futebol brasileiro é que iam enriquecer o meu ensaio. Personagens que viviam, que deviam se lembrar do que tinha acontecido naqueles tempos. Procurei-os, um por um, nenhum deles se negou a me prestar informações, pelo contrário, todos se prontificaram a colaborar comigo.
Guilherme Pastor, que preparava um histórico do Bangu que viu nascer; Flávio Ramos, fundador do Botafogo; Emmanuel Sodré, também fundador do Botafogo, que acompanhou de perto a vida do Carioca, o clube dos garotos do Largo dos Leões, os mesmos garotos que se tornaram os campeões de 10; Norman Hime, dos primeiros dias do Botafogo; Afonso de Castro, o arquivo do Fluminense; Alfredo Koeller, fundador do América; Luqs de Mendonça, fundador do Catete, do Hadock Lobo, companheiro de Belfort Duarte, um dos que mais trabalharam para a fusão do América e Hadock Lobo, que deu, ao América, o seu campo; Gastão Cruls, que pegou o tempo em que o futebol era o recreio obrigatório no Colégio São Vicente de Paulo. Gabriel de Carvalho, que levou um bofetão de Abelardo Delamare, bofetão que cindiu a Liga Metropolitana; Marcos de Mendonça, símbolo de uma época do futebol carioca;
Alberto Borghert, do Rio, do Fluminense, líder do movimento que trouxe o Flamengo para o futebol; Joaquim Guimarães, torcedor de fitinha no chapéu do Fluminense, do Flamengo, que namorava numa varandinha de Voluntários da Pátria e enquanto namorava via o Botafogo treinar todas as tardes; Diocesano Ferreira Gomes, o Dãodo Correio da Manhã, “mosca”, como se dizia, da garage do Flamengo; Mário Polo, do Fluminense, de ontem e de hoje, um dos primeiros cronistas a receber ordenado de um jornal para escrever sobre futebol; Harry Welfare, o “Yankee na Corte do Rei Arthur”, verdadeira missão de futebol inglês no Brasil; Pedro da Cunha, torcedor desde aquele tempo, que não perdia um jogo; Hugo Fracarolli, da Associação Atlética das Palmeiras de 15, clube que fazia questão de ser, em São Paulo, o que o Fluminense era no Rio: branco e fino; Paulo Canongia, o representante do Carioca que atrapalhava os jogadores dos outros clubes pequenos, os brancos pobres, os mulatos e os pretos, na hora de assinar a súmula; Orlando Bandeira Vilela, que ajudou a carregar areia para o aterro do campo do Andaraí, que viveu a vida da Praça Sete e que conheceu Monteiro de perto; José da Silva Filho, o Laúsa, cria do Andaraí; José Trocoli, cria do Bangu; Luís de Meneses, o enfant-gaté do Botafogo;
Arnaldo Guinle
Arnaldo Guinle, o patrono do Fluminense, uma espécie de Príncipe de Gales do esporte brasileiro; Max Gomes de Paiva, que ficou com o arquivo de Belfort Duarte; Agostinho Fortes Filho, o “Dadá” do Fluminense, jogador granfino que vivia fazendo molecagem em campo; Mário Reis, que se lembra de tudo que aconteceu no futebol carioca de 16 para cá, que é capaz de dar a escalação dos times, o juiz, o escore de cada jogo, sem consultar um jornal, só puxando pela memória; Paulo e João Coelho Neto, garotos quando, aos domingos, os jogadores do Fluminense se reuniam na casa de Coelho Neto; Ana Amélia, torcedora que repetia, até o dia da derrota, um vestido de uma vitória do América, primeiro, do Fluminense, depois;
Vasco da Gama de 1923, presidido por Antonio Campos.
João Santos, o presidente do América que botou Manteiga em Campos Sales, Egas de Mendonça, casado com uma Borges, as Borges exigindo que os seus namorados, noivos e maridos, saíssem de um América com um Manteiga no time; Jaime Barcelos, que dirigiu o time do América em 22, em 28; Osvaldo Melo, o “Príncipe dos Passes”, que não se envergonhou de jogar ao lado de Manteiga; Ademar Martins, o Japonês do Flamengo, campeão de 20 e 21; Jaime Guedes, dos primeiros dias do Vasco em futebol; Álvaro Nascimento, cronista vascaíno; Antônio Campos, o presidente do Vasco que quase foi a falência por causa do Vasco; Claudionor Corrêa, o Balão, campeão de 23; Pascoal, campeão de 23 e 29; Horácio Werner, que levou Pascoal para o Rio de Janeiro, mudando-lhe o nome de Pascoal Cinelle para Pascoal Silva; Vicente Caruso, que foi para o Fluminense com Nilo Murtinho Braga e pode conhecer, de perto, a vida de Álvaro Chaves em 24, ano do nascimento da AMEA, da Renascença do futebol branco;
Reis Carneiro, um dos mais ativos membros da Comissão de Sindicância da AMEA; Oscar da Costa, o presidente da Confederação Brasileira de Desportos que fez questão de mandar para Buenos Aires um escrete de smocking; Luís Vinhais, que conduziu o time do São Cristóvão à conquista do campeonato de 26; Castelo Branco, toda a vida diretor da Confederação; Antônio Avelar, tantas vezes presidente do América; Fábio Horta, que recebia bilhetes de Floriano, o Marechal da Vitória, escritos nas costas de uma imagem, pedindo de dinheiro; José Pereira Peixoto, jogador do Vasco, que livrou Welfare de uma punhalada de Jaguaré; Togo Renan Soares, que foi o treinador do Bangu no tempo do Coronel Pedroso, quando Domingos começava a chamar a atenção;


Leônidas da Silva, o Diamante Negro.
Sílvio Pacheco, que deu um soco em Leônidas em 32 e se recusou a jogar com Leônidas num escrete; Oscarino, o “Pai de Santo” da “Copa Rio Branco” de 32; Ivan Mariz, o único dos amadores do Fluminense que não hesitou em assinar seu contrato de jogador profissional de futebol; Bastos Padilha, o presidente do Flamengo que levou os maiores pretos do futebol brasileiro para a Gávea; Rivadávia Correa Meyer, antigo jogador do Botafogo, presidente da AMEA no ano da cisão, hoje presidente da Confederação Brasileira de Desportos; Gustavo de Carvalho, o presidente do Flamengo que brigou com Leônidas; João Lira Filho, presidente do Conselho Nacional de Desportos, que quis fazer as pazes entre Gustavo de Carvalho e Leônidas; Roberto Pedrosa, que veio buscar Leônidas para o São Paulo; Domingos, Leônidas Valdemar, que me contaram a sua vida; José Scassa, jornalista que foi, logo depois do Campeonato do Mundo, secretário de Leônidas;
Leite de Castro, chefe do Departamento de Assistência Social da Federação Metropolitana; José de Almeida, chefe do Departamento Técnico do Fluminense, que me fez partilhar das riquezas do maior arquivo do esporte brasileiro; e não sei quantos mais dirigentes, jogadores, torcedores. Cada um deles me ajudando um pouco, mais do que os jornais, do que os livros de atas das entidades, de correspondência dos clubes, de súmulas dos jogos, de registro dos jogadores. Os documentos oficiais me mostraram que a história verdadeira se escreve de outro jeito. Quem manuseasse, como duas vezes, de 6 a 23, os livros da AMEA de 24 a 32, colocada à minha disposição pelo presidente da Confederação Brasileira de Desportos, Rivadávia Correa Meyer, além dos relatórios da própria Confederação, não descobriria, em parte alguma, nada da luta do negro, se não entrasse na intimidade dos fatos. As atas, a correspondência dos clubes, não faltam dos negros. As leis das entidades não tocam, nem de leve, em questões de raça. Limitando-se a levantar barreiras sociais, proibindo que trabalhadores braçais, empregados subalternos, contínuos, garçons, barbeiros, praças de pré e por aí afora, jogassem futebol em clubes filiados.
Eu fui, aos poucos, levantando o véu, ouvindo daqui, dali, reconstituindo a tradição oral, muito mais rica, muito mais viva do que a escrita dos documentos oficiais, graves circunspectos, dos jornais que não dizem tudo. Hoje já dizem muita coisa, mas não diziam quase nada. A imprensa mais mexeriqueira, querendo entrar na vida do jogador para satisfazer a curiosidade do público cada vez maior do futebol é coisa de menos de vinte anos. E essa imprensa eu tinha à mão. A coleção completa daVida Esportiva, uma revista que nasceu em 16 e morreu em 20; a da Crítica, de 28 a 30; a do O Globo; a do Jornal dos Sports, a do Globo Esportivo. Eu preferia, porém, ouvir dirigentes, jogadores e torcedores. Ouvi centenas deles, de todas as épocas do futebol brasileiro. Quando podia ouvir do próprio não procurava outro.
Reuni, assim, um material de tal ordem que surpreendeu alguém cuja opinião prezo muito. O material era tanto, e com tamanho requinte de detalhe, que ficava a dúvida. A dúvida de como eu conseguiria reuni-lo, catalogá-lo, usá-lo, numa narrativa corrente, sem um claro, uma interrupção. Eu não me teria valido da imaginação de romancista que ainda não publicou um romance? Não, eu não usei a imaginação. Nenhum historiador teria tido mais cuidado do que eu em selecionar os dados, em comprovar-lhe a veracidade por averiguações exaustivas. Às vezes uma simples dúvida me fazia inutilizar um capítulo, obrigando-me a novos trabalhos e pesquisas.
Uma vaidade eu tenho: a de apresentar uma obra que desafia contestação. Se eu tivesse exagerado, para não dizer deturpado os fatos, não faltariam desmentidos. Antes de sair em livro, O Negro no Futebol Brasileiro teve a mais ampla divulgação jornalística que se poderia desejar, pois foi publicado diariamente, durante cinco meses, no O Globo, o jornal de maior circulação da imprensa brasileira. E não apareceu uma refutação de quem quer que fosse, embora quase todos os personagens da história do futebol brasileiro estejam vivos, tenham lido as páginas reunidas neste volume. O que prova que o que está aqui é a verdade pura e simples.

Texto apresentação de Mario Filho (2ª edição, publicada 17 anos depois, em 1964)
Mario Filho



Gol do Uruguai, na Copa de 1950.
O Negro no Futebol Brasileiro, cuja primeira edição estava esgotada há anos, era um ensaio que, embora insinuasse mais do que concluísse e procurasse, sobretudo, fixar o processo, de uma certa forma penoso e longo, da democratização do futebol brasileiro, enfrentava uma prova a que poucos livros se submetem em vida. Basta lembrar que a derrota do Brasil em 50, no campeonato mundial de futebol, provocou um recrudescimento do racismo. Culpou-se o preto pelo desastre de 16 de julho. Assim, aparentemente, O Negro no Futebol Brasileiro, por uma análise superficial, teria aceito uma visão otimista a respeito de uma integração racial que não se realizara ainda no futebol, sem dúvida o campo mais vasto que se abrira para a ascensão social do preto.
A prova estaria naqueles bodes expiatórios, escolhidos a dedo, e por coincidência todos pretos: Barbosa, Juvenal e Bigode. Os brancos do escrete brasileiro não foram acusados de nada. É verdade que o brasileiro se chamou, macerando-se naquele momento, de sub-raça. Éramos uma raça de mestiços, uma sub-raça incapaz de aguentar o rojão. Mas o brasileiro, inconscientemente, idealizou um ídolo à imagem e semelhança de Obdúlio Varela, El Gran Capitan, por sinal um mulato uruguaio. Se o Brasil se tornasse campeão do mundo, como todos esperávamos em 50, o ídolo nacional seria, naturalmente como sempre fora, um mulato ou um preto.
O primeiro se chamara Artur Friedenreich, filho de pai alemão e mãe preta. Um mulato de olhos verdes. O segundo, Leônidas da Silva, filho de pai português e mãe preta. Um mulato mais para preto, de nariz arrebitado.
Quando o Brasil levantou o campeonato mundial da Suécia, em 58, o brasileiro elegeu dois ídolos: o preto Pelé e o mulato Garrincha. O Negro no Futebol Brasileiro suportara a prova sem ter de mudar uma linha. O curioso é que quase o mesmo espaço de tempo separara a escolha de um ídolo nacional do futebol brasileiro: dezenove anos entre Friedenreich e Leônidas e vinte entre Leônidas e Pelé e Garrincha.
Há de parecer estranho que sem ter de modificar nada que escrevi, conservando intactas as quatro partes da primeira edição do O Negro no Futebol Brasileiro, a segunda edição surja aumentada e tenha a pretensão de definitiva. Pouca gente se dá conta do que se exige de um jogador de futebol. Ele tem de representar um clube, uma cidade, um Estado, a Pátria. O que se espera dele é que encarne as melhores virtudes do homem, no caso do brasileiro, as melhores virtudes do homem brasileiro.
Quando o brasileiro acusou Barbosa, Juvenal e Bigode, acusou-se a si mesmo. O futebol não seria paixão do povo se o povo não se identificasse com um time, o seu time, com uma bandeira e uma camisa. Quem torce em futebol está ligado, irremediavelmente, ao seu time, para o bem ou para o mal, para a felicidade ou para a desgraça.
No fundo o torcedor quer que o jogador seja melhor do que ele. O jogador representa-o, representa o seu clube, a sua cidade, o seu Estado, a sua Pátria. A derrota do jogador é a derrota do torcedor. Quem perdeu em 50 foi o brasileiro. Mais o brasileiro que não jogou do que o que jogou.
É fácil imaginar a pressão exercida sobre o jogador, branco, mulato ou preto. Mais sobre o mulato e o preto que envolvem a mistura racial em que se caldeia o brasileiro. O futebol desencadeia uma luta entre clubes, que é o seu cotidiano. A tal ponto que se chamou a essa luta de guerra. O jogador era o soldado, a carne do canhão, embora alguns fossem generais, deuses das batalhas. Muito jogador não resistiu a essa tensão permanente, verdadeiro stress.
É um capítulo acrescentado a O Negro no Futebol Brasileiro que lhe dá nova dimensão. O outro diz respeito ao embranquecimento do preto nos clubes que defendem. Um preto do Fluminense não é preto para o Fluminense. É tratado como branco. Pode esquecer-se da cor e dizer como Robson:
– Eu já fui preto e sei o que é isso.
Realmente os pretos do futebol procuraram, à medida que ascendiam, ser menos pretos. Esquecendo-se de não se lembrar mesmo em alguns casos, que eram pretos. Mandando esticar os cabelos, fazendo operações plásticas, fugindo da cor.
Daí a importância de Pelé, o Rei do Futebol, que faz questão de ser preto. Não para afrontar ninguém, para exaltar a mãe, o pai, a avó, o tio, a família pobre de pretos que o preparou para a glória. Nenhum preto, no mundo, tem contribuído mais para varrer barreiras raciais do que Pelé. Tornou-se o maior ídolo do esporte mais popular da Terra. Quem bate palmas para ele bate palmas para um preto. Por isso Pelé não mandou esticar os cabelos: é preto como o pai, como a mãe, como a avó, como o tio, como os irmãos. Para exaltá-los, exalta o preto.
Por isso é mais do que um preto: é o Preto. Os outros pretos do futebol brasileiro reconhecem-no: para eles Pelé é o Crioulo.
Estou certo de que O Negro no Futebol Brasileiro se enriqueceu com o que agora lhe foi acrescentado e que, por pertencer-lhe de direito, completa-o, dando-lhe forma definitiva.

Sobre Mario Filho (texto de Mário Neto, extraído do livro O negro no futebol brasileiro, Ed. Mauad, 2003):

Nasceu no dia 3 de junho de 1908 em Recife, Pernambuco. Terceiro dos catorze filhos (Milton, Roberto, Mario, Stella, Nelson, Jofre, Maria Clara, Augusto, Irene, Paulo, Helena, Dora, Elza e Dulce) de Mario Rodrigues e Maria Esther, chegou no Rio de Janeiro em 1916. Começou a trabalhar aos 17 anos (casou-se aos 18 com Célia) no jornal A Manhã e depois, de 1928 a 1930, em A Crítica, ambos de seu pai, e em 1931, a convite de Roberto Marinho, foi chefiar a parte de esportes do jornal O Globo. Foi o primeiro jornalista a dar destaque, ainda na Crítica, à parte humana do futebol, além de grandes espaços até então jamais pensados pelos donos de jornais. Sua matéria sobre a volta do goleiro Marco de Mendonça foi um marco no esporte. A partir daí as notícias sobre futebol começaram a proliferar-se e os jogadores passaram a ser olhados de outra maneira. Em 1931 fundou o primeiro jornal inteiramente esportivo no Rio de Janeiro, O Mundo Esportivo.
Curiosamente, foi nesse jornal que Mario Filho idealizou e realizou o primeiro desfile das escolas de samba, na praça Onze. Em 1936, comprou o Jornal dos Sports, onde não deixou de ir um dia que seja, até sua morte, no dia 17 de setembro de 1966. No Jornal dos Sports criou os Jogos da Primavera em 1947, os Jogos Infantis em 1951, o Torneio de Pelada no Aterro do Flamengo e o Torneio Rio-São Paulo, que se juntaram às suas outras criações, como à mística do nome FlaxFlu e também a Manchete Esportiva.
Liderou, com crônicas diárias, a campanha para que o Maracanã, que hoje tem o seu nome, fosse construído no lugar atual para a Copa do Mundo de 1950. O então vereador Carlos Lacerda defendia a tese de que o estádio fosse construído em Jacarepaguá e no máximo para 60 mil espectadores e não como queria Mario, para mais de 150 mil torcedores. Mario Filho deixou várias obras literárias: Bonecas (1927), Copa Rio Branco (1932), Histórias do Flamengo (1934), O Negro no Futebol Brasileiro (1947), Romance do Football (1949), Senhorita (1950), Copa do Mundo de 62 (1962), Viagem em torno de Pelé (1964), O Rosto (1965) e Infância de Portinari (1966). Como disse seu irmão Nelson Rodrigues, Mario foi tão grande que deveria ter sido enterrado no Maracanã.

Fonte: http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/05/o-negro-no-futebol-brasileiro.html

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Envio de japoneses para o Brasil fez parte de política expansionista pacífica

Avaliação é do historiador Shozo Motoyama, da USP, em livro sobre a primeira fase da imigração japonesa no Brasil em que aborda o processo de integração cultural (imigracaojaponesa.com.br)

 

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – A imigração de japoneses para o Brasil a partir de 1908 representou uma saída pacífica para o Japão continuar a se desenvolver por outra via que não a militarista, pela qual se tornou na época uma potência mundial.

Por outro lado, a vinda dos japoneses para o Brasil sob os auspícios dos barões do café, para trabalhar em cafezais durante a República Velha (1889-1930), dividiu opiniões e despertou um intenso debate entre grupos favoráveis e outros contrários a essa imigração na sociedade brasileira.

A integração não tão cordial entre as duas culturas, por meio da imigração, é contada no livro Sob o signo do sol levante: Uma história da imigração japonesa no Brasil – volume I (1908-1941), de autoria do historiador Shozo Motoyama, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e presidente do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros.

Lançado no final de abril, o livro descreve como a primeira fase da imigração para o Brasil – iniciada em 1908 e encerrada em 1941, quando o Japão ingressa na 2ª Guerra Mundial – fez parte de uma política expansionista pacifista orquestrada pelo governo japonês.

Uma das maiores potências mundiais na época – com grandes conglomerados empresariais como Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo –, o Japão vivia ao mesmo tempo graves problemas econômicos, com desemprego elevado e condições de pobreza no campo.

Em função disso, o país enfrentava críticas de segmentos da sociedade que não concordavam com a forma com que vinha se desenvolvendo, conquistando países à força, como fez no período conhecido como imperialista, em que invadiu a Coreia, a Manchúria e parte da China.

Uma das alternativas identificadas para continuar a crescer pacificamente era por meio da imigração, vista como uma forma em que ambos os lados ganhavam – tanto o país que enviava como o que recebia os imigrantes – e diferente da conquista militar, em que só o país invasor se beneficia.

Por essas e outras razões, o governo japonês decidiu encampar políticas de imigração de seus cidadãos para países como o Brasil – que precisava de mão de obra para as lavouras de café em São Paulo –, dando o apoio necessário para que se estabelecessem no exterior.

Houve no Japão uma política bastante coerente e de consenso de dar guarida para os imigrantes que vinham para o Brasil. E, em grande parte, o sucesso dos imigrantes japoneses no Brasil dependeu da ajuda dada pelo governo japonês por meio de consulados e de outras representações políticas e diplomáticas no país”, disse Motoyama à Agência FAPESP.

De acordo com o pesquisador, se por um lado a ida de imigrantes atendia aos interesses do governo japonês e dos barões do café do Brasil, por outro lado o processo de integração dos japoneses na sociedade brasileira não foi tão natural como tende a fazer crer a historiografia escrita e publicada sobre o tema.

Os documentos a que Motoyama teve acesso do Congresso Nacional referentes a 1934, por exemplo, quando estava sendo elaborada a terceira Constituição Brasileira, revelam que houve um intenso debate entre um bloco de congressistas favoráveis e outros contrários à imigração japonesa, em função da ascensão social que os japoneses estavam obtendo no país.

Até o fim da década de 1920, o grupo mais favorável aos imigrantes japoneses era maioria no Brasil. Mas na década seguinte isso mudou, principalmente devido à Constituição de 1934, que colocou uma série de leis restritivas em relação à vinda de imigrantes japoneses”, disse Motoyama.

Já durante o Estado Novo (1937-1945), Getúlio Vargas (1882-1954) agiu de maneira dúbia: de um lado estimulou as restrições à imigração japonesa e, de outro, tomou medidas para trazer os japoneses para o Brasil”, disse.

Para defender suas posições, os grupos contrários à imigração japonesa se apoiavam em teorias raciais vigentes na época, como a do “darwinismo social”.

Compactuada por alguns representantes da elite brasileira na época, a teoria, que ficou conhecida como a do “branqueamento”, preceituava que o subdesenvolvimento do Brasil se devia ao fato de o país ter sido povoado por "raças inferiores" (negros e índios), e que o país só iria se desenvolver à medida que sua população se tornasse "mais branca".

Como o ciclo de imigração dos negros para o Brasil já havia se encerrado, o alvo passou a ser os amarelos, representados agora pelos japoneses, que começavam a chegar ao país.

Em defesa dos japoneses, os fazendeiros paulistas aceitam uma tese absurda alardeada por um fazendeiro congressista brasileiro, de que eles eram mais brancos, por exemplo, do que os portugueses, que já haviam passado por um intenso processo de miscigenação no país.

Os fazendeiros paulistas eram bastante pragmáticos. Como precisavam de trabalhadores, eles não queriam saber de que raça eram, contanto que fossem bons trabalhadores”, disse Motoyama.

Segunda fase da imigração

Motoyama planeja publicar no início de 2013 um novo volume do livro, que abordará a segunda fase da imigração japonesa no Brasil, de 1941 a 2008.

Diferentemente da primeira fase da imigração, de 1908 a 1941, em que os japoneses puderam contar com ajuda do próprio governo para se estabelecer no Brasil, na nova etapa eles não puderam recorrer aos seus compatriotas devido ao país asiático ter sido arrasado pela Segunda Guerra Mundial.

Além disso, se antes os japoneses e os imigrantes em geral desfrutavam da boa acolhida e de uma certa simpatia na sociedade brasileira, com o início da guerra eles passam a ser vistos como inimigos.

A guerra aflorou uma série de questões, não só de preconceito, e os japoneses passaram a ser tratados como inimigo, o que, de certa forma, é natural. Nos Estados Unidos, o preconceito contra os japoneses na época foi muito pior”, disse Motoyama.

Segundo o pesquisador, a elaboração do livro sobre esta segunda fase da imigração japonesa deverá ser muito mais complexa. Isso porque há uma série de registros sistematizados sobre a primeira fase da imigração japonesa.

Já na segunda fase, como os imigrantes foram perdendo proeminência, começam a surgir mais estudos sobre seus descendentes – mais propriamente sobre os nisseis (a primeira geração de filhos de japoneses nascida em outro país) – e a historiografia do período tem muitas lacunas.

Na segunda fase da imigração japonesa para o Brasil, pós Segunda Guerra, chegam cerca de 50 mil pessoas, com cultura completamente diferente da que havia no país oriental antes da Guerra. Em função disso, há um choque cultural entre os velhos imigrantes com os recém-chegados e com os nisseis.

Esses acontecimentos não estão bem retratados e acho que nem estão escritos direito. Teremos que entrevistar pessoas e procurar esclarecer uma série de fenômenos que só ocorreram nesta segunda fase da imigração”, disse Motoyama.

No segundo volume do livro, o pesquisador também pretende abordar a contribuição dos imigrantes japoneses, principalmente os de seus descendentes, os nikkeis, na ciência, tecnologia e educação brasileiras.

  • Sob o signo do sol levante: Uma história da imigração japonesa no Brasil – Volume I (1098-1941)
    Autor: Shozo Motoyama
    Páginas: 390
    Lançamento: 2012
    Mais informações: secretaria@institutobrasiljapao.org.br ou (11) 3209-3875.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Para entender Drummond

 

Para compreender a obra de Carlos Drummond de Andrade, conversamos com Marcos Siscar, poeta e professor de teoria literária, que ajuda a encontrar os caminhos na obra do mineiro

Texto Bruno Teixeira

Educar

Foto: Amiucci Galo

 drummond

"Sua obra estava envolvida nas discussões mais polêmicas da vida literária", afirma o professor e poeta Marcos Siscar

 

Em 1924, o mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) reuniu alguns poemas e organizou o 25 Poemas da Triste Alegria, seu primeiro livro, feito por ele mesmo artesanalmente. "Ah, que os tapetes não guardem/ a sombra inútil dos meus passos.../ Eu quero ser, apenas, um homem que sorriu e que passou, erguendo a sua taça, com desdém", escreveu o poeta em A sombra do homem que sorriu. Se o poeta queria que sua sombra não fosse guardada por nós, felizmente não foi o que aconteceu. Drummond saiu de Itabira, em Minas Gerais, para conquistar os brasileiros e ser eterno. "Vai, Carlos! ser gauche na vida", diz o poeta no Poema de sete faces, do livro Alguma Poesia (1930), o primeiro publicado pelo poeta.
Durante seus 84 anos de vida, Drummond passou por duas ditaduras - a de Getúlio Vargas (1937-1945) e dos Militares (1964-1985) -, foi funcionário público por 35 anos, teve ligações com ideais comunistas e um profundo contato com jornais, como redator e cronista. A vida do poeta deixou marcas em sua obra. "O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente", diz ele no poema Mãos Dadas, do livro Sentimento do Mundo (1940). Era um inconformado com os problemas sociais, não entendia as guerras, estranhava, mas se confortava, com a solidão. Drummond, que publicou mais de 50 livros, entre poemas, crônicas e contos, escreveu sobre o amor, a morte, o cotidiano, a infância, a família, a vida. Enfim, Drummond merece ser lido por trazer alma às palavras.
Conversamos com o poeta Marcos Siscar, um dos grandes nomes da poesia contemporânea brasileira, para entender mais sobre a aura da poesia de Drummond. Siscar, que tem sete livros publicados, também é professor de Teoria Literária na Unicamp. "O que gosto em Drummond é a capacidade que ele tem de ir a fundo em cada coisa miúda, radicalizando as consequências dos pequenos gestos", diz. Leia a seguir, a entrevista.

1. Drummond é o poeta brasileiro mais importante?

Não gosto muito de pensar as coisas em termos de competição: o maior poeta, o poeta menor. Mas é interessante lembrar que, há algumas décadas, Drummond era tido apenas como um dos grandes nomes da poesia brasileira, um entre outros. Sua obra estava envolvida nas discussões mais polêmicas da vida literária. Não havia unanimidade em torno do assunto. Hoje, por diversas razões - que têm mais a ver com a nossa época do que com Drummond - percebe-se uma tendência a transformá-lo em referência central da poesia brasileira do século XX, assim como se faz com Pessoa, em Portugal. Por um lado, é natural que artistas do passado passem a representar os nossos sonhos e passem a ser referências exemplares do que entendemos como poesia (isso também tem acontecido com João Cabral de Melo Neto, com Manuel Bandeira, com Murilo Mendes) - não é algo que valha a pena simplesmente demolir, em nome do espírito crítico. Por outro lado, nenhum reconhecimento público (nenhuma "canonização", como se diz na crítica literária) deveria basear-se na anulação das contradições do artista, em sua santificação, por assim dizer. Ao contrário, são justamente essas contradições que nos dão a medida de nossas próprias dificuldades com o tempo presente e que fazem com que a poesia seja uma experiência estimulante e conflituosa.

 
2. Pode-se dizer que a poesia de Drummond é universal?
 
Se universal quer dizer que ela pode ser lida fora do Brasil, certamente a poesia de Drummond é universal, embora carregue um forte sotaque brasileiro (assim como, digamos, Valéry tem sotaque francês; e o americano T. S. Eliot, sotaque inglês). Agora, se entender universal como uma forma de dizer as coisas que nos coloca na proximidade com aquilo que acreditamos que somos e desarticula, ao mesmo tempo, esse espaço de identidade, então, a questão mais imediata, a meu ver, seria esta: por que acreditamos que essa obra nos representa, e de que maneira ela nos coloca em relação com outros povos e culturas? O que mais me interessa nem é tanto a universalidade de uma obra, mas a disposição que ela manifesta de fazer a "experiência do estrangeiro", segundo uma expressão do poeta alemão Hölderlin. Seria estimulante reler Drummond, repensando a situação por este prisma.
 
3. O que representa o poema No Meio do Caminho?
 
Tradicionalmente, o poema (publicado inicialmente em 1928, na revista Antropofagia) é visto como uma provocação dirigida às concepções mais tradicionais da linguagem e da poesia. Até por isso, tornou-se um ícone da demolição vanguardista. Quando li o poema pela primeira vez, no ensino médio, no início dos anos 80, o modernismo já havia se tornado a narrativa recorrente da história literária no Brasil. "No meio do caminho" já não era uma afronta à convenção poética, mas o registro uma espécie de heroísmo inaugural, definitivamente incorporado à nossa maneira de ver a poesia do século XX. A repetição [No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra], ligada inicialmente a um efeito de destruição, não deixou de transformar em monumento poético. Por isso, ao se tornar parte das coisas supostamente superadas, esse lado iconoclasta do poema poderia acabar soando ingênuo aos nossos ouvidos, não fosse o que continua havendo nele de inquietante, como a experiência do cansaço e da memória. Em termos mais gerais, é possível dizer que o poema tornou-se uma espécie de relíquia para a poesia brasileira, com todo o aparato religioso daquilo que nos "religa" a nós mesmos, isto é, à nossa ideia de tradição poética. Penso que nossa relação com poemas desse tipo não deve ser nem alérgica nem devota. Seria mais relevante nos perguntarmos por que razão um poema do bloqueio se transforma, de uma geração a outra, em uma espécie de bloqueio para nossa experiência poética do contemporâneo.
 
4. Drummond se recusou a entrar na Academia Brasileira de Letras e a receber prêmios. E foi funcionário público por quase toda a vida. Como isso aparece em sua obra?
 
Aceitar um prêmio e ser funcionário público não são coisas da mesma ordem. Ser funcionário público não é um prêmio, salvo em circunstâncias específicas; pode ser uma conquista, eventualmente; mas, em qualquer caso, continua sendo um trabalho. O modo como Drummond chegou ao serviço público e a maneira pela qual o exerceu é outra história, claro, e mereceria atenção. Há contradições fortes aí. Mas isso também está ligado à esfera mais ampla da trajetória e da experiência de Drummond, que teve que carregar a contradição de ser filho de fazendeiro e comunista: sofreu com essa contradição, mas aceitou as vantagens dela, igualmente. A obra de Drummond é farta em consequências. Basta ler os Boitempo [nome que Drummond deu a três livros], que são livros memorialísticos para se ter uma noção do que isso representa para o poeta.
 
5. Quais são as características mais influentes da obra drummondiana?
 
O que gosto em Drummond é a capacidade que ele tem de ir a fundo em cada coisa miúda, radicalizando as consequências dos pequenos gestos. Além disso, tenho muita simpatia pela "irritação" com que vai, paralelamente, colocando em xeque tudo aquilo que assume ares de porto seguro da boa consciência poética e política. Até por isso, o livro Claro Enigma (1951) continua a me mobilizar especialmente, tanto pelos textos densos e desiguais como pelo incômodo que causou na recepção crítica da obra do poeta.

 

Para (re)lembrar aqui vai meu preferido (hos):

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.

José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Projeto incentiva leitura com distribuição de livros grátis

Contos paulistanos, de Alcântara Machado, e A nova Califórnia e outros contos, de Lima Barreto, são distribuídos à população em quiosques na capital paulista

Agência FAPESP – O projeto “De mão em mão”, parceria entre a Editora Unesp, a Prefeitura de São Paulo e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, entrou no dia 28 em sua segunda etapa com a distribuição gratuita de dois títulos: Contos paulistanos, de Antônio de Alcântara Machado, e A nova Califórnia e outros contos, de Lima Barreto.

O projeto foi lançado em dezembro de 2011 e já distribuiu à população paulistana cerca de 11 mil exemplares de Missa do Galo, de Machado de Assis.

Contos paulistanos reúne, em 149 páginas, textos das obras Brás, Bexiga e Barra Funda e Laranja da China, além de quatro contos avulsos de Machado (1901-1935), que foi chamado por Mário de Andrade de “o mais universal dos paulistanos”.

A nova Califórnia e outros contos tem 14 textos que espelham a obra de Lima Barreto (1881-1922), um dos críticos mais severos da República Velha (1889-1930).

Dono de um texto coloquial e despojado com características realistas e naturalistas que recria tradições cômicas, carnavalescas e picarescas da cultura popular, Lima Barreto influenciou os escritores da Semana de Arte Moderna de 1922.

De acordo com os organizadores, o projeto “De mão em mão” tem como objetivo incentivar o gosto pela leitura por meio da disponibilização de livros em locais com ampla circulação de pessoas. Esses pontos de distribuição são quiosques montados nos terminais de ônibus Mercado (integrado ao terminal Parque D. Pedro II, no Centro), Santo Amaro, Pirituba e A. E. Carvalho, em Itaquera, em São Paulo. A entrega dos exemplares tem o apoio da SPTrans.

O leitor poderá levar uma publicação, sem necessidade de cadastro ou registro de retirada, com o compromisso de passá-la de mão em mão. Após a leitura, as obras podem também ser entregues nas bancas, a qualquer tempo, possibilitando o compartilhamento com outros leitores. Cada pessoa pode retirar um único exemplar.

Serão distribuídos 40 mil livros, 20 mil de cada um dos novos títulos, além dos 9 mil exemplares restantes do primeiro livro da coleção. Os quiosques ficarão abertos de segunda a sexta-feira, das 10h às 20h, e aos sábados das 10 às 18h.

O “De mão em mão” foi inspirado na iniciativa colombiana “Libro al viento”. A ideia é que as obras sejam lidas e passadas adiante, “de mão em mão”, ou devolvidas nos mesmos postos onde foram retiradas, para que possam chegar a outras mãos. O projeto colombiano recebeu o aval da Unesco e contribuiu para que Bogotá fosse declarada a Capital Mundial do Livro em 2007.

No “De mão em mão”, as obras foram selecionadas por um conselho editorial composto por José de Souza Martins (sociólogo e conselheiro da FAPESP), Luciana Veit (editora), Sérgio Vaz (poeta e fundador do Sarau da Cooperifa), Heloísa Jahn (editora e tradutora), Jézio Hernani Bomfim Gutierre (editor executivo na Editora Unesp), Samuel Titan Jr. (professor de teoria literária na USP) e Carlos Augusto Calil (secretário municipal de Cultura).

As obras também estão disponíveis em versão digital e podem ser baixadas gratuitamente pela internet em: www.projetodemaoemmao.com.br.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Unesp lança 44 novos livros digitais para download gratuito



Obras que serão lançadas no dia 9 abrangem diversas áreas e integram projeto, iniciado em 2010, que tem a meta de publicar mil títulos até 2020

Agência FAPESP – A Pró-Reitoria de Pós-Graduação (Propg) e a Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) lançarão, no dia 9 de maio, 44 novos livros virtuais gratuitos integrantes do selo Cultura Acadêmica e da Coleção Propg Digital, que oferece obras inéditas para download.

A coleção teve sua primeira fase em 2010, quando foram lançadas 44 obras. Em 2011, foram publicados mais 50 novos títulos. A meta do projeto é publicar mil títulos até 2020.
De acordo com a Unesp, de fevereiro de 2011 a fevereiro de 2012 foram contabilizados 84 mildownloads das obras, dos quais a maior parte foi feita por leitores com formação universitária, sendo 30% com mestrado ou doutorado.

Os 44 novos livros e parte dos 94 que já integravam a coleção também podem ser adquiridos por impressão, sob demanda.

Escritos por docentes, mestres e doutores ligados à Unesp, os livros são resultados de pesquisas sobre diversos temas. No conjunto das 44 novas obras há títulos de áreas como sociologia, política, comunicação, psicologia, geografia e literatura.

O lançamento dos 44 novos títulos será realizado a partir das 9h na sede da Unesp, em São Paulo, após a realização de uma mesa de abertura, que contará com a participação de representantes da Unesp e da editora da universidade paulista.

Após o evento, o público terá acesso aos livros por meio de e-books, contendo a versão integral das obras lançadas, que estarão à disposição dos participantes.

Ao longo do dia 9 de maio, os autores concederão entrevistas individuais transmitidas ao vivo na internet, no endereço www.unesp.br/tv. As entrevistas terão duração de 15 minutos cada e serão divididas em dois blocos: o primeiro será realizado das 11h30 às 12h30 e o segundo, das 14h às 17h.

A Editora Unesp está localizada na Praça da Sé, nº 108, no Centro de São Paulo. O evento de lançamento da Coleção Propg Digital será realizado no 7º andar. Não é necessário se inscrever para participar.
Os livros da Coleção Propg Digital podem ser acessados em www.culturaacademica.com.br.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Livro descreve fauna e flora em área prioritária para conservação



Resultado de projeto do BIOTA-FAPESP, Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes da região noroeste do Estado de São Paulo preenche lacuna no conhecimento sobre biodiversidade paulista (BIOTA-FAPESP)
Por Fábio de Castro


Agência FAPESP – Envolvendo mais de uma centena de pesquisadores, um Projeto Temático realizado no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP produziu, ao longo de cinco anos, um inventário das espécies da fauna e da flora em fragmentos de florestas do noroeste do Estado de São Paulo.
O estudo, que preencheu uma das principais lacunas no conhecimento sobre a biodiversidade no Estado de São Paulo, teve seus resultados sintetizados no livro Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes da região noroeste do Estado de São Paulo.

O livro, que teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio a Publicações, será lançado nesta terça-feira (06/03) durante oBIOTA-BIOEN-Climate Change Joint Workshop: Science and Policy for a Greener Economy in the Context of RIO+20, na sede da FAPESP, em São Paulo.

A organização do livro e a coordenação do Temático “Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes no noroeste paulista: base para estudos de conservação da biodiversidade” foram feitas pelo professor Orlando Necchi, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas de São José do Rio Preto, da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

De acordo com Necchi, a região do noroeste paulista havia sido identificada, em estudos anteriores do BIOTA-FAPESP, como uma das áreas prioritárias para conservação da biodiversidade.
“A região foi diagnosticada pelo BIOTA-FAPESP como uma das mais carentes de estudos no território paulista e, ao mesmo tempo, como uma das áreas com florestas mais fragmentadas no Estado”, disse Necchi à Agência FAPESP.

O projeto foi centralizado no Departamento de Botânica da Unesp de São José do Rio Preto, com participação de pesquisadores, docentes, bolsistas de treinamento técnico e estudantes da iniciação científica ao pós-doutorado. Houve participação também de colaboradores de outros campi da Unesp e de outras universidades e institutos de pesquisa do Estado.

“O estudo foi feito em 18 fragmentos florestais do noroeste do Estado de São Paulo. Os resultados demonstraram a importância desses fragmentos na conservação da biodiversidade remanescente”, contou Necchi.

Segundo o pesquisador, o livro representa um dos raros exemplos envolvendo, em uma única publicação, 14 grupos de organismos da fauna e da flora de fragmentos florestais remanescentes. “No livro, são apresentados os resultados dos levantamentos de cada um dos grupos, bem como análises ecológicas integradas sobre a diversidade nos fragmentos florestais e sua conservação”, afirmou.

Nos 18 fragmentos estudados, foram encontradas 30 espécies de algas e cianobactérias aerofíticas, 16 espécies de macroalgas nos riachos desses fragmentos, 117 espécies de musgos, hepáticas e afins, 39 espécies de samambaias, 91 espécies de fungos basidiomicetos, 468 espécies de fanerógamas, 169 espécies de invertebrados planctônicos em lagoas associadas aos fragmentos, 71 táxons de insetos aquáticos, 257 espécies de ácaros, 2.135 morfoespécies de insetosHymenoptera, 53 espécies de peixes, 36 espécies de anfíbios anuros, 36 espécies de répteisSquamata e 328 espécies de aves.

Além de inventariar as espécies dos fragmentos estudados, o projeto procurou também analisar possíveis efeitos da fragmentação florestal sobre o padrão de ocorrência das espécies. Outro objetivo foi avaliar a importância da preservação dos fragmentos na manutenção da biodiversidade. Os 18 fragmentos florestais estudados se localizavam em propriedades particulares. Nenhum deles em áreas de conservação.

“Um dos dados mais surpreendentes é que cada um dos 18 fragmentos possui uma composição própria de espécies de animais e plantas. Ao contrário do que prevíamos, não há um grande número de espécies presente na totalidade dos fragmentos. Também não imaginávamos que encontraríamos um número tão grande de espécies”, disse Necchi.


Dados disponíveis

O livro Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes da região noroeste do Estado de São Paulo é organizado em 14 capítulos correspondentes a cada grupo de organismos. Cada um deles foi produzido por pesquisadores que lideraram equipes do Projeto Temático.

“Há ainda um capítulo inicial que descreve as características da região e dos fragmentos e dois capítulos voltados especialmente para o aspecto ecológico da região: um deles trata do padrão de distribuição das espécies e o outro aborda o tema da ecologia de paisagens, determinando como os fragmentos se integram ao contexto natural da região”, explicou Necchi.

De acordo com Necchi, os resultados do Temático foram integrados à base de dados SinBiota e estarão disponíveis assim que a base terminar a migração do Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria) para o Centro Nacional de Processamento de Alto Desempenho (Cenapad) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Os resultados que conseguimos se agregam aos dados do Programa BIOTA-FAPESP, preenchendo uma lacuna importante que o próprio programa estabeleceu como prioridade. O projeto contribuiu, assim, com o programa que tem entre seus principais objetivos o fornecimento de dados científicos que possam ser utilizados em políticas públicas de conservação da biodiversidade”, afirmou.
  • Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes da região noroeste do Estado de São Paulo
    Organizador: Orlando Necchi
    Lançamento: 2012
    Mais informações: www.holoseditora.com.br

sábado, 24 de março de 2012

Quem foram os amigos de Hitler?

veja


Livro acusa a IBM de ajudar os 
nazistas e reacende a polêmica 
sobre a ascensão de Hitler


Ricardo Amorim e Cristiano Dias

AP 

 
Hitler (à esq.) ao lado do chefão da IBM, Watson: simpatia e condecoração

A ascensão e o triunfo dos nazistas na Alemanha é um dos momentos mais tenebrosos da História recente da humanidade. E um dos menos compreendidos. Quando se vê o filme de trás para a frente, como é o mais comum ao se analisar um fato histórico, tudo faz mais sentido. Os nazistas eram monstruosos, colocaram fogo no estopim das latentes tensões européias na primeira metade do século passado, desencadearam uma guerra mundial que levou à morte 60 milhões de pessoas. Enquanto combatiam, montaram uma máquina mortífera paralela que assassinou 6 milhões de judeus. Mas como, antes da guerra, os nazistas puderam firmar seu poder na Europa e montar a estrutura para o holocausto dos judeus sem serem incomodados pelas potências daquele período? Eis um tema cujo interesse nunca diminui. Na semana passada, mais um capítulo dessa interminável obra chegou ao público pelas mãos do jornalista americano Edwin Black. O lançamento mundial de seu livro IBM e o Holocausto acirrou as discussões em torno do holocausto anti-semita perpetrado pelos alemães. Segundo o autor, graças à tecnologia da Dehomag, a subsidiária da IBM na Alemanha, os nazistas puderam mais facilmente localizar, identificar e assassinar os judeus. "Quem acreditar que de algum modo o holocausto não teria ocorrido sem a IBM está redondamente enganado", escreve Black. "Mas há razões para examinar os fantásticos números atingidos por Hitler na matança de tantos milhões de seres humanos com tanta rapidez e analisar o papel crucial da automação e da tecnologia no genocídio."
Segundo que a máquina de morte engendrada por Hitler funcionasse, era preciso primeiro catalogar suas vítimas, tarefa nada fácil. Afinal, para começar, havia enorme quantidade de judeus e era preciso primeiro identificá-los e registrá-los em listas. Aí teria entrado a IBM. A poderosa corporação não dispunha ainda dos PCs que ajudaram a promover sua expansão, mas dominava uma tecnologia adequada para a tarefa: as máquinas Holleriths de cartões perfurados. Black tenta provar que os equipamentos desenvolvidos para uso no censo americano foram instrumentais na tarefa de dizimar o povo judeu empreendida pelos nazistas.

Reuters


Edwin Black e seu livro-denúncia: vendo os fatos de 1930 com olhos de hoje


Precursora dos computadores modernos, a tecnologia consistia na perfuração de cartões em pontos específicos que serviam para a identificação das características de um determinado indivíduo. Com colunas e linhas numeradas, havia centenas de combinações possíveis. As colunas relacionavam diferentes categorias e as linhas tratavam de particularizar o indivíduo. As colunas 3 e 4, por exemplo, enumeravam dezesseis categorias de cidadãos. O furo na linha 3 identificava o homossexual. A linha 12 indicava um cigano e a linha 8 identificava os judeus.
Quando se passou da perseguição ao extermínio, as máquinas da IBM continuaram fazendo seu trabalho. Algumas delas, segundo o autor, instaladas em campos de concentração. Mesmo durante a guerra, ocasião em que empresas americanas ficaram proibidas de negociar com a Alemanha, a IBM usou suas subsidiárias européias, principalmente a suíça e a alemã Dehomag, para continuar faturando alto com as demandas nazistas, sustenta Edwin Black. O fundador da IBM, Thomas J. Watson, acabou sendo condecorado por Hitler em 1937 pelos serviços prestados. Em 1940, pressionado, Watson, que não escondia sua simpatia pelo líder nazista, devolveu a comenda.
Isso é o que descreve Edwin Black. Os que examinaram o livro com experiência no tema acham que sua descrição força demais nas cores e nos fatos. "É ridículo imaginar que o holocausto ocorreu graças à IBM. A maioria dos planos e sua execução foram desenhados a mão mesmo, com lápis e papel", rebate Efraim Zuroff, diretor do Simon Wiesenthal Center, de Israel, um dos maiores centros de estudo do holocausto no mundo. "Não há novidade nessas revelações. Acho que estão fazendo uma tempestade em copo d'água para vender livro", diz Zuroff. Um dos mais controversos estudiosos do assunto, o historiador americano Norman Finkelstein, lembrou imediatamente do argumento de seu livro The Holocaust Industry (A Indústria do Holocausto), lançado no ano passado, no qual condena as tentativas de responsabilização de empresas e governos pelo genocídio com o propósito de auferir vantagens. Ele se recusou a comentar as acusações à IBM, por não ter lido o livro de Black, mas disse que o lançamento da semana passada pode estar incluído na categoria caça-níquel.

Reuters

A máquina Hollerith, de cartões perfurados: a serviço do mal


Especialista em temas relacionados ao holocausto, a geógrafa Solange Terezinha Guimarães, da Universidade Estadual Paulista, lembra que não foram apenas a IBM e suas subsidiárias que colaboraram com o regime de Adolf Hitler. "Se vamos falar de responsabilidades, temos de citar outras empresas, como a IG-Farben, que deu origem à Basf e foi a principal fornecedora do gás usado nas câmaras dos campos de concentração", diz. A IG-Farben era o principal conglomerado industrial da Alemanha nazista e, com o fim do conflito, teve vários de seus executivos condenados por crimes de guerra pelo Tribunal de Nuremberg, que julgou as atrocidades cometidas no período. A empresa se dividiu em companhias menores, hoje tão famosas quanto a IBM, como é o caso de Basf, Hoescht e Bayer.
A farta documentação que o sustenta não livra o trabalho de Edwin Black de um equívoco fatal: a falta de perspectiva histórica. Black avalia principalmente acontecimentos ocorridos entre 1933 e 1939, época da ascensão do nazismo na Europa, com a visão atual do fenômeno. Diferentemente da percepção que se tem hoje do nazismo, uma ideologia contrária à própria humanidade, o conceito que se tinha na época não era tão nítido nem tão clara a informação sobre seus atos. Hitler era chefe de um governo legítimo e democraticamente eleito, que estava promovendo a recuperação econômica da Alemanha e suscitava simpatias mesmo nos Estados Unidos e na Europa democrática. As atrocidades do nazismo contra os judeus, que já estavam ocorrendo, não eram amplamente conhecidas e, de certa forma, batiam com o largamente disseminado anti-semitismo que grassava em toda a Europa, da Rússia até a França. Assim, muita gente acima de qualquer suspeita acabou aderindo ao fascínio do führer alemão.
Henry Ford, fundador da maior fabricante de carros dos Estados Unidos, nunca escondeu sua admiração por Hitler. A simpatia era correspondida e Hitler cita o nome do empresário americano em Mein Kampf, livro autobiográfico do líder nazista. A exemplo de Watson, Ford também foi condecorado por Hitler em 1938. As boas relações com os nazistas renderam à Ford alemã uma encomenda de 100.000 caminhões para o Exército alemão em 1942. A imagem romântica e combativa da resistência francesa também não corresponde à realidade. Até meados de 1941, os nazistas foram muito bem tratados na França ocupada. Paris fez uma festa com a dinheirama dos soldados e oficiais nazistas. Pelas salas suntuosas do Hotel Ritz, onde morava, a famosa estilista Coco Chanel exibia seu amante, um oficial nazista atlético, jogador de tênis, bom bebedor de champanhe. Depois da guerra, Chanel tentou minimizar o caso. "Na minha idade, quando um homem quer dormir com você, não dá para pedir seu passaporte", disse. Documentos revelados na França, em 1999, mostram seu envolvimento político com oficiais alemães. Chanel teria inclusive sido incumbida pelo alto comando da Wehrmacht, o Exército nazista, de sondar o primeiro-ministro inglês, Winston Churchill, sobre a possibilidade de a Inglaterra assinar um acordo de paz em separado com a Alemanha. Colaboração mais direta teve Ferdinand Porsche, um dos mais talentosos designers de automóveis da época. A admiração de Hitler por Ford levou-o à idéia de produzir na Alemanha um carro popular. Encarregado da tarefa, Porsche inventou o Volkswagen ("carro do povo") em 1935. Com o início da guerra, passou a desenhar tanques para o Exército alemão.

Reprodução

Porsche e o führer: projetos de carros e tanques de guerra


Com o lusco-fusco ideológico que caracterizou a época, fica difícil traçar a fronteira entre o colaboracionismo explícito com o regime nazista e a prestação de serviço a um cliente. Essa confusão atingiu seu grau mais dramático na França ocupada pelos nazistas em 1940. Ao dominar o país, os alemães instalaram um governo na cidade de Vichy, de onde o país seria governado pelos próprios franceses mas a serviço do führer. Coube ao marechal Henri-Philippe Pétain o serviço sujo. Mas ele não estava sozinho. A França de Vichy só sobreviveu graças ao anti-semitismo latente entre os franceses, que aumentou ainda mais após a ocupação. A febre do colaboracionismo acabou levando Louis Renault a colocar suas fábricas de automóvel a serviço do adversário. Ao contrário de Ford e Porsche, Renault foi preso em 1944. Acusado de traição, morreu na cadeia no mesmo ano.
O ataque alemão foi avassalador, a derrota francesa humilhante e qualquer reação à ocupação parecia ridícula. O próprio general Charles de Gaulle desaconselhava enfrentamentos, o que permitiu aos alemães se acomodarem confortavelmente atrás de um governo subserviente em Vichy. O pacto de não-agressão entre a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stalin garantia a vida boa aos alemães, livrando-os de uma resistência armada dos comunistas. Intimamente ligada ao Partido Comunista francês, a resistência francesa só passou a ser efetiva depois que Hitler, em 1941, invadiu a União Soviética, como assinala o historiador francês Marc Ferro, em sua História da Segunda Guerra Mundial, outro livro que procura ver os episódios dentro de uma ótica do seu tempo. A ordem de reagir ao domínio estrangeiro partia assim muito mais de Moscou que de Londres, onde De Gaulle passava seus dias de exilado com muito mais medo dos comunistas que dos próprios nazistas.
A dúvida sobre qual era o verdadeiro inimigo, se o nazismo ou o comunismo, persistiu mesmo depois que as tropas de Hitler invadiram a Rússia em 1941 e lançaram os soviéticos nos braços dos aliados. Mas era muito mais forte dois anos antes, quando Hitler e Stalin assinaram um tratado de não agressão enquanto trocavam amabilidades. O Projeto Avalon, da Universidade de Yale dos Estados Unidos, levantou uma vasta documentação, disponível em seu site na internet desde 1998, que comprova as relações incestuosas entre o regime de Hitler e o de Stalin. Há documentos com força de martelada, como um telegrama enviado pelo chanceler soviético Molotov a seu colega alemão Ribbentrop, logo depois da invasão da Polônia pelos alemães, que detonou a II Guerra Mundial. Diz a mensagem de Molotov: "Recebi sua comunicação a respeito da entrada das tropas alemãs em Varsóvia. Por favor, aceite minhas congratulações e meus cumprimentos ao Governo do Reich Alemão". Com os aliados nazistas atacando por um lado, os russos aproveitaram e tomaram a outra metade da Polônia. Além da cumplicidade de Stalin, Hitler contava com a conivência ou a indiferença das potências ocidentais. Hitler foi recebido como herói nacional em Viena depois da incorporação da Áustria, em 1938, e ninguém moveu uma palha quando a Alemanha anexou a Checoslováquia no ano seguinte. Foi somente no final de 1942 que o mundo, atordoado, começou a tomar conhecimento da política de extermínio do governo alemão, mas até o fim da guerra não se tinha plena consciência das dimensões da tragédia. O livro de Black, se erra em focar no papel de uma única empresa, a IBM, tem o mérito de lembrar que sem a ajuda de comunistas e capitalistas o veneno de Hitler talvez pudesse ter sido contido antes de espalhar destruição pelo mundo.