sexta-feira, 30 de março de 2012

Livro descreve fauna e flora em área prioritária para conservação



Resultado de projeto do BIOTA-FAPESP, Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes da região noroeste do Estado de São Paulo preenche lacuna no conhecimento sobre biodiversidade paulista (BIOTA-FAPESP)
Por Fábio de Castro


Agência FAPESP – Envolvendo mais de uma centena de pesquisadores, um Projeto Temático realizado no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP produziu, ao longo de cinco anos, um inventário das espécies da fauna e da flora em fragmentos de florestas do noroeste do Estado de São Paulo.
O estudo, que preencheu uma das principais lacunas no conhecimento sobre a biodiversidade no Estado de São Paulo, teve seus resultados sintetizados no livro Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes da região noroeste do Estado de São Paulo.

O livro, que teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio a Publicações, será lançado nesta terça-feira (06/03) durante oBIOTA-BIOEN-Climate Change Joint Workshop: Science and Policy for a Greener Economy in the Context of RIO+20, na sede da FAPESP, em São Paulo.

A organização do livro e a coordenação do Temático “Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes no noroeste paulista: base para estudos de conservação da biodiversidade” foram feitas pelo professor Orlando Necchi, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas de São José do Rio Preto, da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

De acordo com Necchi, a região do noroeste paulista havia sido identificada, em estudos anteriores do BIOTA-FAPESP, como uma das áreas prioritárias para conservação da biodiversidade.
“A região foi diagnosticada pelo BIOTA-FAPESP como uma das mais carentes de estudos no território paulista e, ao mesmo tempo, como uma das áreas com florestas mais fragmentadas no Estado”, disse Necchi à Agência FAPESP.

O projeto foi centralizado no Departamento de Botânica da Unesp de São José do Rio Preto, com participação de pesquisadores, docentes, bolsistas de treinamento técnico e estudantes da iniciação científica ao pós-doutorado. Houve participação também de colaboradores de outros campi da Unesp e de outras universidades e institutos de pesquisa do Estado.

“O estudo foi feito em 18 fragmentos florestais do noroeste do Estado de São Paulo. Os resultados demonstraram a importância desses fragmentos na conservação da biodiversidade remanescente”, contou Necchi.

Segundo o pesquisador, o livro representa um dos raros exemplos envolvendo, em uma única publicação, 14 grupos de organismos da fauna e da flora de fragmentos florestais remanescentes. “No livro, são apresentados os resultados dos levantamentos de cada um dos grupos, bem como análises ecológicas integradas sobre a diversidade nos fragmentos florestais e sua conservação”, afirmou.

Nos 18 fragmentos estudados, foram encontradas 30 espécies de algas e cianobactérias aerofíticas, 16 espécies de macroalgas nos riachos desses fragmentos, 117 espécies de musgos, hepáticas e afins, 39 espécies de samambaias, 91 espécies de fungos basidiomicetos, 468 espécies de fanerógamas, 169 espécies de invertebrados planctônicos em lagoas associadas aos fragmentos, 71 táxons de insetos aquáticos, 257 espécies de ácaros, 2.135 morfoespécies de insetosHymenoptera, 53 espécies de peixes, 36 espécies de anfíbios anuros, 36 espécies de répteisSquamata e 328 espécies de aves.

Além de inventariar as espécies dos fragmentos estudados, o projeto procurou também analisar possíveis efeitos da fragmentação florestal sobre o padrão de ocorrência das espécies. Outro objetivo foi avaliar a importância da preservação dos fragmentos na manutenção da biodiversidade. Os 18 fragmentos florestais estudados se localizavam em propriedades particulares. Nenhum deles em áreas de conservação.

“Um dos dados mais surpreendentes é que cada um dos 18 fragmentos possui uma composição própria de espécies de animais e plantas. Ao contrário do que prevíamos, não há um grande número de espécies presente na totalidade dos fragmentos. Também não imaginávamos que encontraríamos um número tão grande de espécies”, disse Necchi.


Dados disponíveis

O livro Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes da região noroeste do Estado de São Paulo é organizado em 14 capítulos correspondentes a cada grupo de organismos. Cada um deles foi produzido por pesquisadores que lideraram equipes do Projeto Temático.

“Há ainda um capítulo inicial que descreve as características da região e dos fragmentos e dois capítulos voltados especialmente para o aspecto ecológico da região: um deles trata do padrão de distribuição das espécies e o outro aborda o tema da ecologia de paisagens, determinando como os fragmentos se integram ao contexto natural da região”, explicou Necchi.

De acordo com Necchi, os resultados do Temático foram integrados à base de dados SinBiota e estarão disponíveis assim que a base terminar a migração do Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria) para o Centro Nacional de Processamento de Alto Desempenho (Cenapad) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Os resultados que conseguimos se agregam aos dados do Programa BIOTA-FAPESP, preenchendo uma lacuna importante que o próprio programa estabeleceu como prioridade. O projeto contribuiu, assim, com o programa que tem entre seus principais objetivos o fornecimento de dados científicos que possam ser utilizados em políticas públicas de conservação da biodiversidade”, afirmou.
  • Fauna e flora de fragmentos florestais remanescentes da região noroeste do Estado de São Paulo
    Organizador: Orlando Necchi
    Lançamento: 2012
    Mais informações: www.holoseditora.com.br

sábado, 24 de março de 2012

Quem foram os amigos de Hitler?

veja


Livro acusa a IBM de ajudar os 
nazistas e reacende a polêmica 
sobre a ascensão de Hitler


Ricardo Amorim e Cristiano Dias

AP 

 
Hitler (à esq.) ao lado do chefão da IBM, Watson: simpatia e condecoração

A ascensão e o triunfo dos nazistas na Alemanha é um dos momentos mais tenebrosos da História recente da humanidade. E um dos menos compreendidos. Quando se vê o filme de trás para a frente, como é o mais comum ao se analisar um fato histórico, tudo faz mais sentido. Os nazistas eram monstruosos, colocaram fogo no estopim das latentes tensões européias na primeira metade do século passado, desencadearam uma guerra mundial que levou à morte 60 milhões de pessoas. Enquanto combatiam, montaram uma máquina mortífera paralela que assassinou 6 milhões de judeus. Mas como, antes da guerra, os nazistas puderam firmar seu poder na Europa e montar a estrutura para o holocausto dos judeus sem serem incomodados pelas potências daquele período? Eis um tema cujo interesse nunca diminui. Na semana passada, mais um capítulo dessa interminável obra chegou ao público pelas mãos do jornalista americano Edwin Black. O lançamento mundial de seu livro IBM e o Holocausto acirrou as discussões em torno do holocausto anti-semita perpetrado pelos alemães. Segundo o autor, graças à tecnologia da Dehomag, a subsidiária da IBM na Alemanha, os nazistas puderam mais facilmente localizar, identificar e assassinar os judeus. "Quem acreditar que de algum modo o holocausto não teria ocorrido sem a IBM está redondamente enganado", escreve Black. "Mas há razões para examinar os fantásticos números atingidos por Hitler na matança de tantos milhões de seres humanos com tanta rapidez e analisar o papel crucial da automação e da tecnologia no genocídio."
Segundo que a máquina de morte engendrada por Hitler funcionasse, era preciso primeiro catalogar suas vítimas, tarefa nada fácil. Afinal, para começar, havia enorme quantidade de judeus e era preciso primeiro identificá-los e registrá-los em listas. Aí teria entrado a IBM. A poderosa corporação não dispunha ainda dos PCs que ajudaram a promover sua expansão, mas dominava uma tecnologia adequada para a tarefa: as máquinas Holleriths de cartões perfurados. Black tenta provar que os equipamentos desenvolvidos para uso no censo americano foram instrumentais na tarefa de dizimar o povo judeu empreendida pelos nazistas.

Reuters


Edwin Black e seu livro-denúncia: vendo os fatos de 1930 com olhos de hoje


Precursora dos computadores modernos, a tecnologia consistia na perfuração de cartões em pontos específicos que serviam para a identificação das características de um determinado indivíduo. Com colunas e linhas numeradas, havia centenas de combinações possíveis. As colunas relacionavam diferentes categorias e as linhas tratavam de particularizar o indivíduo. As colunas 3 e 4, por exemplo, enumeravam dezesseis categorias de cidadãos. O furo na linha 3 identificava o homossexual. A linha 12 indicava um cigano e a linha 8 identificava os judeus.
Quando se passou da perseguição ao extermínio, as máquinas da IBM continuaram fazendo seu trabalho. Algumas delas, segundo o autor, instaladas em campos de concentração. Mesmo durante a guerra, ocasião em que empresas americanas ficaram proibidas de negociar com a Alemanha, a IBM usou suas subsidiárias européias, principalmente a suíça e a alemã Dehomag, para continuar faturando alto com as demandas nazistas, sustenta Edwin Black. O fundador da IBM, Thomas J. Watson, acabou sendo condecorado por Hitler em 1937 pelos serviços prestados. Em 1940, pressionado, Watson, que não escondia sua simpatia pelo líder nazista, devolveu a comenda.
Isso é o que descreve Edwin Black. Os que examinaram o livro com experiência no tema acham que sua descrição força demais nas cores e nos fatos. "É ridículo imaginar que o holocausto ocorreu graças à IBM. A maioria dos planos e sua execução foram desenhados a mão mesmo, com lápis e papel", rebate Efraim Zuroff, diretor do Simon Wiesenthal Center, de Israel, um dos maiores centros de estudo do holocausto no mundo. "Não há novidade nessas revelações. Acho que estão fazendo uma tempestade em copo d'água para vender livro", diz Zuroff. Um dos mais controversos estudiosos do assunto, o historiador americano Norman Finkelstein, lembrou imediatamente do argumento de seu livro The Holocaust Industry (A Indústria do Holocausto), lançado no ano passado, no qual condena as tentativas de responsabilização de empresas e governos pelo genocídio com o propósito de auferir vantagens. Ele se recusou a comentar as acusações à IBM, por não ter lido o livro de Black, mas disse que o lançamento da semana passada pode estar incluído na categoria caça-níquel.

Reuters

A máquina Hollerith, de cartões perfurados: a serviço do mal


Especialista em temas relacionados ao holocausto, a geógrafa Solange Terezinha Guimarães, da Universidade Estadual Paulista, lembra que não foram apenas a IBM e suas subsidiárias que colaboraram com o regime de Adolf Hitler. "Se vamos falar de responsabilidades, temos de citar outras empresas, como a IG-Farben, que deu origem à Basf e foi a principal fornecedora do gás usado nas câmaras dos campos de concentração", diz. A IG-Farben era o principal conglomerado industrial da Alemanha nazista e, com o fim do conflito, teve vários de seus executivos condenados por crimes de guerra pelo Tribunal de Nuremberg, que julgou as atrocidades cometidas no período. A empresa se dividiu em companhias menores, hoje tão famosas quanto a IBM, como é o caso de Basf, Hoescht e Bayer.
A farta documentação que o sustenta não livra o trabalho de Edwin Black de um equívoco fatal: a falta de perspectiva histórica. Black avalia principalmente acontecimentos ocorridos entre 1933 e 1939, época da ascensão do nazismo na Europa, com a visão atual do fenômeno. Diferentemente da percepção que se tem hoje do nazismo, uma ideologia contrária à própria humanidade, o conceito que se tinha na época não era tão nítido nem tão clara a informação sobre seus atos. Hitler era chefe de um governo legítimo e democraticamente eleito, que estava promovendo a recuperação econômica da Alemanha e suscitava simpatias mesmo nos Estados Unidos e na Europa democrática. As atrocidades do nazismo contra os judeus, que já estavam ocorrendo, não eram amplamente conhecidas e, de certa forma, batiam com o largamente disseminado anti-semitismo que grassava em toda a Europa, da Rússia até a França. Assim, muita gente acima de qualquer suspeita acabou aderindo ao fascínio do führer alemão.
Henry Ford, fundador da maior fabricante de carros dos Estados Unidos, nunca escondeu sua admiração por Hitler. A simpatia era correspondida e Hitler cita o nome do empresário americano em Mein Kampf, livro autobiográfico do líder nazista. A exemplo de Watson, Ford também foi condecorado por Hitler em 1938. As boas relações com os nazistas renderam à Ford alemã uma encomenda de 100.000 caminhões para o Exército alemão em 1942. A imagem romântica e combativa da resistência francesa também não corresponde à realidade. Até meados de 1941, os nazistas foram muito bem tratados na França ocupada. Paris fez uma festa com a dinheirama dos soldados e oficiais nazistas. Pelas salas suntuosas do Hotel Ritz, onde morava, a famosa estilista Coco Chanel exibia seu amante, um oficial nazista atlético, jogador de tênis, bom bebedor de champanhe. Depois da guerra, Chanel tentou minimizar o caso. "Na minha idade, quando um homem quer dormir com você, não dá para pedir seu passaporte", disse. Documentos revelados na França, em 1999, mostram seu envolvimento político com oficiais alemães. Chanel teria inclusive sido incumbida pelo alto comando da Wehrmacht, o Exército nazista, de sondar o primeiro-ministro inglês, Winston Churchill, sobre a possibilidade de a Inglaterra assinar um acordo de paz em separado com a Alemanha. Colaboração mais direta teve Ferdinand Porsche, um dos mais talentosos designers de automóveis da época. A admiração de Hitler por Ford levou-o à idéia de produzir na Alemanha um carro popular. Encarregado da tarefa, Porsche inventou o Volkswagen ("carro do povo") em 1935. Com o início da guerra, passou a desenhar tanques para o Exército alemão.

Reprodução

Porsche e o führer: projetos de carros e tanques de guerra


Com o lusco-fusco ideológico que caracterizou a época, fica difícil traçar a fronteira entre o colaboracionismo explícito com o regime nazista e a prestação de serviço a um cliente. Essa confusão atingiu seu grau mais dramático na França ocupada pelos nazistas em 1940. Ao dominar o país, os alemães instalaram um governo na cidade de Vichy, de onde o país seria governado pelos próprios franceses mas a serviço do führer. Coube ao marechal Henri-Philippe Pétain o serviço sujo. Mas ele não estava sozinho. A França de Vichy só sobreviveu graças ao anti-semitismo latente entre os franceses, que aumentou ainda mais após a ocupação. A febre do colaboracionismo acabou levando Louis Renault a colocar suas fábricas de automóvel a serviço do adversário. Ao contrário de Ford e Porsche, Renault foi preso em 1944. Acusado de traição, morreu na cadeia no mesmo ano.
O ataque alemão foi avassalador, a derrota francesa humilhante e qualquer reação à ocupação parecia ridícula. O próprio general Charles de Gaulle desaconselhava enfrentamentos, o que permitiu aos alemães se acomodarem confortavelmente atrás de um governo subserviente em Vichy. O pacto de não-agressão entre a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stalin garantia a vida boa aos alemães, livrando-os de uma resistência armada dos comunistas. Intimamente ligada ao Partido Comunista francês, a resistência francesa só passou a ser efetiva depois que Hitler, em 1941, invadiu a União Soviética, como assinala o historiador francês Marc Ferro, em sua História da Segunda Guerra Mundial, outro livro que procura ver os episódios dentro de uma ótica do seu tempo. A ordem de reagir ao domínio estrangeiro partia assim muito mais de Moscou que de Londres, onde De Gaulle passava seus dias de exilado com muito mais medo dos comunistas que dos próprios nazistas.
A dúvida sobre qual era o verdadeiro inimigo, se o nazismo ou o comunismo, persistiu mesmo depois que as tropas de Hitler invadiram a Rússia em 1941 e lançaram os soviéticos nos braços dos aliados. Mas era muito mais forte dois anos antes, quando Hitler e Stalin assinaram um tratado de não agressão enquanto trocavam amabilidades. O Projeto Avalon, da Universidade de Yale dos Estados Unidos, levantou uma vasta documentação, disponível em seu site na internet desde 1998, que comprova as relações incestuosas entre o regime de Hitler e o de Stalin. Há documentos com força de martelada, como um telegrama enviado pelo chanceler soviético Molotov a seu colega alemão Ribbentrop, logo depois da invasão da Polônia pelos alemães, que detonou a II Guerra Mundial. Diz a mensagem de Molotov: "Recebi sua comunicação a respeito da entrada das tropas alemãs em Varsóvia. Por favor, aceite minhas congratulações e meus cumprimentos ao Governo do Reich Alemão". Com os aliados nazistas atacando por um lado, os russos aproveitaram e tomaram a outra metade da Polônia. Além da cumplicidade de Stalin, Hitler contava com a conivência ou a indiferença das potências ocidentais. Hitler foi recebido como herói nacional em Viena depois da incorporação da Áustria, em 1938, e ninguém moveu uma palha quando a Alemanha anexou a Checoslováquia no ano seguinte. Foi somente no final de 1942 que o mundo, atordoado, começou a tomar conhecimento da política de extermínio do governo alemão, mas até o fim da guerra não se tinha plena consciência das dimensões da tragédia. O livro de Black, se erra em focar no papel de uma única empresa, a IBM, tem o mérito de lembrar que sem a ajuda de comunistas e capitalistas o veneno de Hitler talvez pudesse ter sido contido antes de espalhar destruição pelo mundo.