sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Dieta totalmente natural? Isso não existe, diz cientista

 

Jeff Grabmeier

Dieta totalmente natural? Isso não existe, diz cientista

"Não há uma maneira natural de comer para a qual precisamos retornar. A cultura influencia tudo o que fazemos," defende a pesquisadora.[Imagem: Cambridge Press]

Saudosismo alimentar

Da dieta do paleolítico à dieta dos alimentos crus, muitas pessoas preocupadas com a saúde física agora querem comer da maneira que elas acreditam que nossos ancestrais comiam.

Mas algumas dessas prescrições alimentares fazem pouco sentido para os humanos modernos, de acordo com um novo livro sobre a evolução do uso de alimentos e dos hábitos alimentares entre os povos pré-históricos.

Embora haja muito que possamos aprender com o que nossos antepassados comiam, muitos dos nossos alimentos e dietas mais modernos foram desenvolvidos por bons motivos, afirma a Dra. Kristen Gremillion, professora de antropologia da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos.

Dietas naturais

"Os seres humanos são onívoros, nós podemos comer uma grande variedade de coisas," diz Gremillion, que acaba de publicar seu livro Apetites Ancestrais: A Comida na Pré-História, ainda sem lançamento no Brasil.

"Em vez de tentar fundamentar uma dieta saudável naquilo que nós pensamos que as pessoas costumavam comer milhares de anos atrás, faria muito mais sentido olhar para as nossas necessidades nutricionais hoje e encontrar a melhor maneira de atendê-las," explica.

Uma questão que a pesquisadora levanta contra os muitos modismos das novas dietas é a alegação de que elas seriam de algum modo mais "naturais" porque se concentram em um tempo antes que a cultura moderna estragasse nossos hábitos alimentares.

"Esse tempo nunca existiu", disse Gremillion.

"O comportamento alimentar humano não pode ser reduzido apenas à nossa biologia. A cultura sempre exerceu uma influência importante naquilo que nós comemos e como nós comemos. E as pessoas têm sido criativas, encontrando novos alimentos para comer e novas maneiras de prepará-los. Não há como dizer que só há uma forma correta para comermos," completa a pesquisadora.

Dieta do paleolítico

Uma dieta popular hoje é a chamada "paleo" ou "dieta do paleolítico", algumas vezes também chamada de dieta do homem das cavernas.

Esta dieta é baseada no que as pessoas comiam antes da introdução da agricultura. Há uma ênfase em carnes magras e frutas e legumes, evitando alimentos processados e grãos de todos os tipos.

Gremillion afirma que a dieta paleo tem uma base científica e é uma forma saudável de comer. Mas não é de modo algum mais natural do que outras dietas.

"Não é contra a natureza dos seres humanos comer cereais e grãos, apesar do que algumas pessoas possam dizer. Os humanos começaram a agricultura porque era difícil conseguir alimentos suficientes através da caça e da coleta. Grãos de cereais representam uma fonte estável de calorias," disse ela.

Os grãos de cereais não podem ser a única base de uma dieta, mas podem ser parte de uma alimentação saudável, garante.

Dieta dos alimentos crus

Apesar de a dieta paleo ter uma base científica, Gremillion afirma que a dieta de alimentos crus não tem.

Esta dieta enfatiza a obtenção de calorias de alimentos não cozidos e não transformados.

"Não há realmente nada a se ganhar por comer apenas alimentos crus. Cozinhamos os alimentos há centenas de milhares de anos," disse ela.

O cozinhar remove alguns nutrientes dos alimentos, assim como também divide os compostos nos alimentos para tornar alguns nutrientes mais fáceis para serem assimilados por nossos corpos.

Além disso, é muito mais fácil para nossos dentes e mandíbulas comer alimentos cozidos do que rasgar e triturar alimentos duros e fibrosos.

"Cozinhar pegou por um bom motivo, e não há nenhuma razão real para descartá-lo," defende.

Retorno à natureza

A preocupação com o retorno a um estado mais natural muitas vezes envolve não apenas o que comemos, mas como e onde podemos cultivar alimentos e domesticar animais.

Grande parte da própria pesquisa de Gremillion envolve as origens da agricultura e como os povos primitivos interagiam com o meio ambiente.

"Tem havido uma tendência na cultura americana de pensar que a selva virgem é algo totalmente separado das pessoas. Mas é um equívoco pensar que as paisagens que queremos trazer de volta não foram tocados por pessoas," disse ela.

Estudando os nativos da América do Norte, ela afirma que os seres humanos têm interagido com o meio ambiente desde o momento que pisaram no continente.

Uma das primeiras formas que os nativos interagiram com o ambiente foi através do uso do fogo para limpar áreas para a sua utilização. Mais tarde, eles também adotaram a agricultura em pequena escala.

"Mas não era apenas uma ligação espiritual com a natureza. Foi uma maneira prática de viver da terra", disse ela.

Hábitos culturais

Gremillion afirma que, em tudo o que se relaciona à alimentação - os alimentos que comemos, a forma como os cultivamos e como os preparamos - não há uma maneira natural de fazer as coisas.

"Os seres humanos são flexíveis. Isso é o que fazemos melhor do que qualquer outro animal, e isso significa que podemos nos adaptar às condições," disse ela.

"Não há uma maneira natural de comer para a qual precisamos retornar. A cultura influencia tudo o que fazemos," conclui ela.

Dieta totalmente natural? Isso não existe, diz cientista

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ícone moderno

 

Revista de História

Livro 'O risco - Lucio Costa e a utopia moderna' traça o percurso de vida e as obras do arquiteto que chamava Brasília de 'a cidade que inventei'

Luiz Cruz

Fachada norte do edifício Gustavo Capanema, no Centro do Rio

Fachada norte do edifício Gustavo Capanema, no Centro do Rio

Iluminado. Assim vamos encontrar Lucio Costa no livro “O risco - Lucio Costa e a utopia moderna”, editado por Sesc/RJ e CEF. Geralmente um livro pode virar filme. Este é o contrário, foi o filme de Geraldo Motta Filho que virou livro. Um belo livro, todo em páginas pretas, num bonito projeto gráfico para mostrar a grande figura da arquitetura moderna brasileira. “O risco” traz uma série de depoimentos de pessoas da família, amigos, companheiros de trabalho e admiradores. É obra que contribui muito para entendermos a trajetória do arquiteto.

Lucio Marçal Ferreira Ribeiro Lima Costa nasceu em Toulon, França, em 27 de fevereiro de 1902 e faleceu no Rio de Janeiro, no dia13 de junho de 1998. Ele foi “um pensador, muito mais do que mero arquiteto ou urbanista”, segundo depoimento do arquiteto Lauro Cavalcanti. Iniciou sua formação na França, depois na Suíça e, posteriormente, na Inglaterra. Retornou ao Brasil para cursar a Escola Nacional de Belas Artes. Logo que se formou, em 1924, instalou seu escritório de arquitetura em parceria com Gregory Warchavchik – russo, com formação na Itália, que se mudou para o Brasil em 1923 e foi o precursor da arquitetura moderna em São Paulo. O escritório da dupla se tornaria num reduto de puristas (em oposição ao neocolonial, cheio de detalhes), procurado por jovens arquitetos. Em 1930, foi convidado a dirigir a Escola de Belas Artes e conseguiu inovar todo o sistema de ensino. Uma das consequências foi o Salão Nacional de Arte, de 1931, que tornou-se uma referência das artes plásticas.

Um pouco antes disso, foi criado o Sphan – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (hoje Iphan), ligado à trajetória do arquiteto. Ele integrou a equipe técnica do instituto a partir de 1937 e lá ficou até se aposentar, em 1972. O Sphan nasceu como resultado das propostas dos modernistas brasileiros. Em 1924, foi realizada a conhecida expedição a Minas, que tinha como objetivo uma “redescoberta” do se havia produzido de arte no Brasil. Dela faziam parte: Mario de Andrade, Oswald de Andrade e seu filho Nonê, Tarsila do Amaral, Olívia Guedes Penteado, René Thiollier, Gofredo da Silva Telles e o poeta franco-suíço Blaise Cendrars. Encontraram tesouros, além de sítios correndo grave risco de se perderem devido ao total abandono. Foi a partir dessa expedição que se iniciou a preocupação para a preservação patrimônio cultural. O texto do Decreto-Lei Nº 25, de 30 de novembro de 1937, teve redação de Mario de Andrade, com orientação jurídica de Rodrigo Mello Franco de Andrade, que era advogado e foi o primeiro diretor do órgão, dirigindo-o por 30 anos. Rodrigo conseguiu formar um grupo de apoio expressivo, envolvendo várias figuras como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mario de Andrade e outros.

Em 1935, por meio de edital publicado em 23 de abril, foi realizado um concurso para a escolha do projeto arquitetônico para a nova sede do Ministério da Educação, Cultura e Saúde. A proposta vencedora foi de Archimedes Memória, de inspiração “marajoara”. O vencedor recebeu o prêmio, mas o projeto não foi executado. Como naquele momento predominava a influência “modernista”, em circunstância deliberada por Drummond, o ministro Gustavo Capanema, convidou Lucio Costa para criar o projeto para a sede do ministério.

Lucio monta, então, uma equipe para desenvolver a proposta, fazendo parte dela Carlos Leão, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos, Affonso Eduardo Reidy. Oscar Niemeyer trabalhava juntamente com Lucio, em seu escritório, mas não se sentia parte da equipe – estava aprendendo. Porém, deu contribuições expressivas para a elaboração do projeto.

Foi o Lucio Costa quem sugeriu que se convidasse o arquiteto Charles Edouard Janneret, mais conhecido por Le Corbusier, para prestar uma consultoria durante a elaboração do projeto para a sede do Ministério da Educação, Cultura e Saúde, depois Palácio da Cultura e atualmente Palácio Gustavo Capanema. O arquiteto passou seis semanas no Brasil e fez muitas sugestões, mas predominou a inspiração dos arquitetos brasileiros e o prédio ficou com as características leves e sobre pilotis elegantes. Enquanto a obra deste arquiteto é pesada, extremamente arrojada. O oposto desenvolvido pela arquitetura moderna brasileira, que foi reconhecida internacionalmente pela ousadia e inovação.

O edifício é considerado um marco no estabelecimento da arquitetura moderna brasileira, tendo-se tornado referência internacional. Foi a grande atração da mostra “Brasil Builds”, realizada no Museum of Modern Art of New York, de 1943, e referência na revista francesa “Architecture D’Aujourd’hui”, de 1947.

 

Lucio Costa foi um homem do patrimônio. Ele dizia que só é possível revolucionar o futuro se você conhecer bem o passado. E como arquiteto e urbanista, ele mergulhou profundamente no passado. Sua viagem a Diamantina, em 1924, marcou para sempre sua vida profissional. Ele se encantou pela cidade, organizada e instalada num lugar isolado, onde a pedra predominava. Depois, a convite de Rodrigo Melo Franco de Andrade, pelo Iphan, realizou duas longas viagens por Portugal coletando informações para redigir um trabalho mais amplo sobre a origem de nossa arquitetura. Como Lucio Costa foi postergando a redação do trabalho e Rodrigo tinha pressa em ver resultados, decidiu, então, convidar Germain Bazin, do Museu do Louvre, que prontamente aceitou o convite e redigiu “L’architecture religieuse baroque au Brésil”, Paris, Plon, 1956. Lúcio ficou inconformado, achou que tinha sido traído por Rodrigo, mas suas viagens a Portugal resultaram em cadernos com muitos desenhos e informações. Se Lucio não redigiu o trabalho, as viagens muito contribuíram para o entendimento da formação das antigas vilas portuguesas e nossas cidades.

“A cidade inventada”. Assim, o arquiteto e urbanista se referia à Brasília, cidade que ele criou. Isto surgiu em decorrência a uma série de críticas que fizeram sobre a nova capital brasileira. Uma capital instalada no nada, sem referência, sem memória, apenas implantada no centro do País, no cerrado. Onde predominavam árvores retorcidas e terra vermelha (um lugar totalmente desconhecido no aspecto ambiental). Lucio não compareceu à inauguração de Brasília. Só a visitou depois de muitos anos, acompanhado de sua filha, Maria Elisa Costa, também arquiteta, e ficou encantado com sua criação, ao constatar que lá já havia uma geração de pessoas nascidas na cidade, havia vida própria. E era uma cidade com alma. “A cidade que inventei”. Esta passa a ser a referência que Lucio Costa utilizava após sua visita.

Essa “invenção” aconteceu após o retorno de uma de suas muitas viagens. Após desembarcar, pôs-se a trabalhar. Havia se inscrito no concurso para a criação do Plano Urbanístico de Brasília. Trabalhou silenciosamente durante dois meses em casa e em seu escritório. Apenas sua filha sabia o que se passava em sua cabeça. No dia 10 de março de 57, poucos minutos antes de encerrar o prazo de inscrições, Maria Elisa Costa entrega o projeto criado seguindo os preceitos da Carta de Atenas, documento elaborado em 1933, pelo Congresso Internacional de Arquitetura Moderna. Era uma proposta diferente, um projeto literário e muitos desenhos feitos a lápis de cor.

A comissão julgadora era composta pelo sir William Holford, urbanista inglês, André Sive, Stamos Papadaki, Oscar Niemeyer, Luiz Hildebrando Horta Barbosa e Paulo Antunes Ribeiro. À primeira vista, tudo parecia confuso, mas após a terceira leitura, sir Holford entendeu e clamou que estava diante da maior contribuição urbanística do século XX. O projeto de Lucio Costa foi o vencedor e Oscar Niemeyer foi o arquiteto escolhido para criar as edificações. Assim, Brasília saiu do papel e se tornou realidade.

Em 1962, Darcy Ribeiro era o ministro da Educação e Cultura, no Governo de João Goulart, e trouxe novamente ao Brasil Le Corbusier. Um dos pontos visitados por ele foi o Parque Guinle, projetado por Lucio Costa, com amplo uso de treliças e bastante inspirado na arquitetura colonial mineira. Ítalo Campofiorito foi o escolhido para acompanhar o arquiteto, inclusive a visita à Brasília. Ítalo registrou as impressões do famoso urbanista franco-suíço em “O risco”, que disse: “eles conseguiram uma coisa que nunca consegui. Mas contavam com uma coisa que eu nunca tive ao meu lado: a autoridade”. E continuou: “Essa cidade foi pensada par un type”. Mais adiante: “O que é bom nessa cidade é que ela tem uma alma”. A visita dele e os registros de suas impressões são um presente à capital brasileira, uma cidade símbolo do modernismo, da ousadia do brasileiro.

No mesmo livro “O risco - Lucio Costa e a utopia moderna”, vamos encontrar depoimentos impressionantes, especialmente o de Sergio Ferro que apresenta um enorme contraste sobre o clima de sonho e prosperidade que tomou conta dos anos em que se construía Brasília e a triste realidade do dia a dia da construção, das péssimas condições oferecidas aos operários, uma mão-de-obra sem qualificação alguma. Milhares de homens que enfrentavam jornadas enormes de trabalho, com alimentação precária. Cercados e ameaçados. Segundo Sergio Ferro, o sofrimento era tanto que muitos operários se suicidaram. Jogaram-se embaixo de caminhões, desesperados, com fome, diarreia e impossibilitados de sair de lá. Um contraste entre a proposta de Lucio Costa e Niemeyer e, principalmente, o discurso oficial de Juscelino Kubitscheck e a realidade.

A memória de Lucio Costa é preservada através da ONG Casa Lucio Costa, criada no Rio de Janeiro, para reunir sua vasta coleção de documentos, desenhos e projetos. Mais informações podem ser obtidas através do site: www.casadeluciocosta.org/

Luiz Cruz é professor de Línguas e Educação Patrimonial, vive em Tiradentes/MG

Referência Bibliográfica:

AMARAL, Aracy A. Blaise “Cendras no Brasil e os modernistas”. São Paulo: Ed.34/FAPESP, 1997.

CAVALCANTI, Lauro Pereira. “Moderno e brasileiro: a história de uma nova linguagem na arquitetura”. Rio de Janeiro: Jorge Zahah Ed., 2006.

WISNIK, Guilherme –Organização. O risco - Lucio Costa e a utopia moderna”. Coordenação de projeto: Juliana Simões de Carvalho e Geraldo Motta Filho. Apoio Cultural SESC/RJ e outros

Ícone moderno - Revista de História

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

John Milton

 

John Milton, filho do banqueiro John Milton Senior e Sara Jeffrey, nasceu em 9 de dezembro de 1608 em Londres, Inglaterra. Recebeu sua educação formal na mesma cidade, no St Paul's School. Posteriormente, em 1625, matriculou-se no Christ's College, em Cambridge, ali permanecendo por sete anos até concluir os estudos e formar-se em Artes, no ano de 1632. Assim, contrariando o desejo paterno de que Milton seguisse a vida religiosa.

Milton, neste momento, com apenas 25 anos, já se revelava um homem de mente e espírito privilegiados, tendo se graduado com expressão em disciplinas como filosofia, teologia, história, política, ciências e literatura. Também já era um ávido escritor de poemas e sonetos em latim, italiano e, obviamente, inglês. Nesta época ele compõe a obra L'Allegro, uma ode à vida e hábitos no campo, e Il Penseroso, como um complemento do primeiro, sendo um louvor à contemplação e ao recolhimento. Ainda, dedica-se à redação da peça teatral intitulada Comus – Um disfarce, uma fábula mitológica na qual aborda o conflito entre o bem e o mal.

Passa alguns anos de sua juventude morando com seu pai em Buckinghamshire. Neste período, teve a oportunidade de dedicar-se intensamente aos estudos de matemática e de clássicos como Dante, Tasso e Petrarca.

No ano de 1638, após o falecimento da mãe, Milton viaja para a França, Suíça e Itália, tendo conhecido pessoalmente o físico e pensador italiano Galileu Galilei e se aproximado do movimento renascentista. No mesmo ano compõe a elegia Lycidas. A partir de 1641 tem início sua fase mais criativa e produtiva. Milton elabora, além de poemas, sonetos e peças teatrais, ensaios sobre política e religião.

Em junho de 1642, já atuando profissionalmente na área de ensino, casa-se com Mary Powell de apenas dezesseis anos de idade. Porém, cerca de um mês após o matrimônio, Mary parte em visita aos pais e não retorna. Fato que certamente influiu na produção literária de Milton nos anos seguintes, publicando ensaios nos quais defende com veemência a legalidade e os aspectos morais do divórcio.

Em 1641, afrontou a doutrina eclesiástica publicando Of Reformation Touching Church Discipline in England (Sobre a reforma da disciplina eclesiástica na Inglaterra). O contato com o professor tcheco Comenius e com o educador inglês Samuel Hartlib inspirou Milton a elaborar um tratado sobre educação em 1644. No mesmo ano, publicou Areopagitica, um discurso que defende a liberdade da imprensa e até hoje é considerado uma das obras mais bem construídas sobre o tema. Neste período, também participa ativamente da política inglesa e ocupa cargos elevados durante o período republicano.

Em 1645, Mary regressa e Milton aceita seu retorno. O casal teria quatro filhos: Anne, Mary, John e Deborah. No ano seguinte, Milton em boas condições econômicas abandona o ensino. Paralelamente, sofre com a perda de seu pai.

No ano de 1649 o poeta já apresenta sinais da perda gradativa da visão. Foi diretor do jornal Mercurius Politicus em 1651 e abertamente defendeu a revolução em detrimento da monarquia. Manifestou-se também em relação à matança de protestantes na Itália no episódio do Piemonte, através do soneto On the Late Massacre in Piedmont (Sobre o recente massacre em Piemonte).

Mary Powell falece em maio de 1652 devido à complicações no parto de Deborah. No mês seguinte, John de apenas 15 meses, também falece. Estas perdas abalaram sensivelmente Milton. Porém, neste momento, devido à saúde debilitada, não chegou a ser detido após a restauração da monarquia.

Em 1656 Milton casa-se com Katherine Woodcock. No final do ano seguinte, Katherine dá à luz a menina também de nome Katherine. Porém, em fevereiro a esposa Katherine falece. No mês seguinte, a filha Katherine também morre. Em 1658 dá início à produção literária de uma de suas obras mais relevantes: Paradise Lost (Paraíso Perdido). Em 1660, empobrecido, enfermo e contrário às condições políticas da Inglaterra, recolhe-se e dedica o tempo a compilar as próprias obras.

Em fevereiro de 1663, Milton casa-se novamente. Elizabeth Minshull, de apenas 25 anos, é sua terceira esposa. A esta altura, já completamente cego e passando por sérias dificuldades financeiras, dita o poema Paradise Lost que foi redigido em versos não rimados e aborda sob uma perspectiva cristã, a criação de Adão e Eva, o pecado original e a queda de Lúcifer.

Milton, vivendo imerso na pobreza, vende os direitos de publicação de Paradise Lost em 1667, sendo publicada no mesmo ano. Em 1671 publica a continuidade de Paradise Lost, a obra Paradise Regained (Paraíso Recuperado), que teria sido inspirada no Evangelho de Lucas e aborda o retorno de Cristo à Terra para resgatar o que Adão havia perdido. No mesmo ano é publicado Samson Agonistes. Em 1674, Paradise Lost é reorganizado em doze partes pelos editores e é publicado novamente.

Em 8 de novembro de 1674, pouco antes de completar 66 anos e ainda vivendo na companhia de Elizabeth Minshull, John Milton falece devido à diversas enfermidades.

Ao lado de Shakespeare, John Milton é uma das mais célebres e significativas personalidades da literatura inglesa. Sem dúvida, sua obra mais relevante é Paradise Lost que coloca Satã como personagem central e seria fonte de inspiração para os românticos que viriam. Mais do que a figura de autor classicista, um Milton pensador e contestador, politizado e corajoso ajudam a compor sua admirável biografia.

Por Spectrum

John Milton