sexta-feira, 23 de abril de 2010

Voz destoante

            Por Fábio de Castro

Voz destoante

Livro Gonçalves Dias: o poeta na contramão analisa texto do autor que critica a escravidão em 1850, quando os escritores românticos viviam de favores do governo

No primeiro semestre de 1850, a revista Guanabara publicou três capítulos de Meditação, uma obra inacabada de Gonçalves Dias (1823-1864). O texto, escrito em prosa poética, é hoje praticamente desconhecido, apesar da notável importância histórica: pela primeira vez um escritor do romantismo criticava de forma implacável a sociedade, o Estado e, em especial, o sistema escravista.

Um estudo feito por Wilton José Marques, professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), abriu a discussão sobre esse texto pioneiro do poeta maranhense.

Os resultados da pesquisa – um pós-doutorado realizado com bolsa da FAPESP entre 2002 e 2003 no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – formaram a base para o livro Gonçalves Dias: o poeta na contramão, que acaba de ser publicado com apoio da Fundação na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

De acordo com Marques, o que mais chama a atenção em Meditação, é o fato de escancarar as mazelas sociais do país de forma inédita entre os escritores canônicos românticos naquela época. O eixo central do livro nasceu a partir do texto As ideias fora do lugar, de Roberto Schwartz. Uma das teses do crítico, segundo Marques, sustenta que em meados do século 19 os escritores viviam quase exclusivamente dos favores do governo.

Os intelectuais brasileiros viviam uma relação de dependência com o Estado. Essa política do favor explica por que a literatura nacional só passou a abordar criticamente o tema da escravidão quando o abolicionismo já dominava o debate nacional”, disse Marques à Agência FAPESP.

Segundo ele, quando Gonçalves Dias publicou Meditação, a literatura romântica praticamente não tinha referências explícitas à escravidão e a violência do sistema não transparecia em nenhuma obra. Os primeiros textos abolicionistas de Castro Alves (1847-1871), por exemplo, só entraram em cena a partir de 1863, quando a discussão já tomava as ruas.

O texto de Gonçalves Dias é uma crítica ferrenha à escravidão e é incrível que seja tão pouco conhecido. Praticamente não há referências à sua existência. O meu livro procura preencher essa lacuna, discutindo a posição do intelectual em relação ao Estado e a forma como ele se insere na máquina estatal por meio de uma relação de favores”, disse Marques.

Apesar da virulência do texto, Gonçalves Dias não estava isento da “política do favor”. Em 1846, quando começou sua carreira literária e mudou-se para o Rio de Janeiro, o poeta tornou-se funcionário público, trabalhando como professor no Colégio Pedro 2º.

Com a economia baseada na escravidão, o trabalho livre praticamente não existia. O intelectual, assim, não tinha alternativa além de trabalhar e ser remunerado pelo Estado. Os escritores eram obrigados a se resignar a uma espécie de “cumplicidade cabisbaixa”.

Em um país que tinha 70% da população analfabeta e os livros eram exclusividade de uma pequena elite, era natural que os escritores atuassem como funcionários públicos. Mas, apesar de se sujeitar a isso, Gonçalves Dias fez uma literatura que questionava o estado das coisas. A primeira expressão dessa contestação está em Meditação”, disse Marques.

Dedo na ferida

Gonçalves Dias estava consciente da própria situação de cooptado e acreditava que a dependência em relação ao Estado era danosa para a produção artística. Em uma carta da década de 1860, o poeta ressaltou que, “enquanto o literato precisar de empregos públicos, não poderá haver literatura digna de tal nome”.

Em sua análise, Marques discute como Gonçalves Dias estava na contramão das expectativas românticas, de valorização da natureza e do índio como “brasileiro autêntico”.

Além de criticar a escravidão e fugir da corrente comum dos escritores canônicos do romantismo, ele, naquele texto, também criticou de forma virulenta a elite brasileira. Atacou a classe política – que acusou de se aproveitar do bem público para interesses particulares – e criticou a exclusão social”, apontou.

O poeta desferiu golpes não só contra as esferas do poder, mas principalmente contra as esferas do saber. “Em determinado momento ele defendeu que é preciso dar educação ao povo. A estrutura política do Império era excludente em vários aspectos, mas especialmente em relação à educação. Gonçalves Dias colocou o dedo nessa ferida sem rodeios”, afirmou.

Em seu livro, Marques levanta a hipótese de que uma parte particularmente contundente do terceiro capítulo de Meditação pode ter sido censurada. O trecho não foi publicado na versão de 1850 da revista Guanabara, mas reapareceu em uma publicação de 1868.  “Esse trecho retrata uma conversa noturna dentro de um palácio – que remete ao Palácio São Cristóvão – na qual políticos discutem o que fazer com o Brasil. Um deles questiona o que o Imperador pensará de tal debate. Um dos políticos levanta o véu da cama e diz: ‘o Imperador dorme’. O trecho remete ao período da regência, quando o Imperador era jovem demais para exercer o poder”, disse.

Em sua crítica à escravidão, Gonçalves Dias lançou mão principalmente de argumentos econômicos, segundo o professor da UFSCar. A entrada do Brasil na modernidade, para o poeta, só se daria por meio da implantação do trabalho assalariado.

Gonçalves Dias não fez uma leitura humanista, como a de Castro Alves. Ele acreditava na superioridade racial dos brancos. Mas, em sua visão, a escravidão era um atraso por impedir a adoção de um modelo capitalista”, disse.

              :: Agência FAPESP :: Especiais - Voz destoante

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Império por escrito

 

Império por escrito

Livro reúne ensaios que abordam significados da comunicação escrita no mundo ibérico e destacam sua importância na manutenção do Império português

Por Alex Sander Alcântara

Qual é o papel da comunicação escrita nos séculos seguintes à invenção da imprensa (ocorrida por volta de 1440)? Essa é a principal questão abordada por O Império por escrito – Formas de transmissão da cultura letrada no mundo ibérico (séculos 16 a 19), organizado pelas historiadoras Leila Mezan Algranti e Ana Paula Megiani, que acaba de ser lançado.

Das leituras da vida na corte às gazetas manuscritas revolucionárias do século 18, do cotidiano na colônia desde o Descobrimento aos registros da Biblioteca Real, o livro mostra como a comunicação escrita foi fundamental para a administração e a manutenção do Império português.

De acordo com Leila, professora de história na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a obra destaca o papel da escrita envolvendo os dois lados do Atlântico, não só nas relações entre Brasil e Portugal, mas também entre Portugal, Espanha e África.

Nesse circuito de circulação de ideias, a escrita manuscrita teve um papel importante, apesar da presença crescente da imprensa, no período analisado, e dos impressos na cultura letrada. Isso se faz presente nas narrativas de viagens, cartas, nas correspondências régias, receitas e na poesia”, disse.

Os ensaios são resultado do colóquio internacional “Escrita, Memória e Vida Material: formas de transmissão da cultura letrada no Império português”, realizado na Universidade de São Paulo (USP) em outubro de 2006, no âmbito do Projeto Temático “Dimensões do Império Português”, apoiado pela FAPESP e coordenado por Laura de Mello e Souza, do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP).

O Império por escrito, que também teve o apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações, é o segundo livro publicado dentro do Temático. O primeiro foi O governo dos povos, que aborda as relações de poder no mundo ibérico, e serão publicados outros dois.

Dividido em quatro partes, o foco do novo livro é a escrita e não a leitura propriamente dita. “Apesar de alguns ensaios abordarem a discussão dos livros e bibliotecas, principalmente na segunda parte da obra, a atenção maior é com a produção e circulação de escritos, manuscritos e impressos”, disse Leila.

A primeira parte do livro, Cultura letrada: vida de corte, instituições e poder, tem como unidade a dinâmica das relações de poder em ambientes letrados.

Segundo Leila, há muitos momentos na administração oficial em que a comunicação se torna extremamente importante. “Em termos de Portugal e Brasil, é evidente que sem a comunicação por escrito seria praticamente inviável administrar o Império. O livro mostra, em vários contextos, a importância da escrita na manutenção do Império”, disse.

Além dos impressos, registros manuscritos de todo tipo (cartas, regulamentos, crônicas, gramáticas) desempenharam um papel fundamental na transmissão de ideias, valores, normas, costumes e saberes entre as metrópoles e suas colônias, bem como entre as diferentes possessões ultramarinas que integravam tais impérios coloniais”, destacam as organizadoras.

De acordo com a historiadora, ao se expandir, o Império português sentiu a necessidade de trocar informações com mais rapidez. “As ordens que até então eram feitas oralmente começaram a ser feitas por escrito. As normas regulavam não só a administração, mas também outras esferas, no âmbito político e jurídico, envolvendo queixas ou denúncias, por exemplo”, explicou.

É a partir desse momento, segundo Leila, que surgiram os arquivos, como o da Torre do Tombo, em Portugal. “Todo navio que chegava ao Brasil de Portugal, e vice-versa, trazia documentos. A manutenção do Império se deu a partir da troca de informações, grande parte com deliberações para os encarregados locais”, disse.

A segunda parte do livro, Suportes, circulação e colecionismo, reúne trabalhos que abordam conjuntos de escritos, impressos ou manuscritos, além de gravuras e mapas que circularam e foram objetos de coleções.

Um dos artigos, de Maria Aparecida de Menezes Borrego, pesquisadora na USP e no Temático, analisa a presença de livros impressos e manuscritos entre os bens materiais arrolados nos inventários de mercadores paulistas, no decorrer do século 18.

A partir da análise de inventários contidos no Arquivo do Estado de São Paulo, a autora conclui que a propriedade dos livros disseminou-se no período.

Ainda que os proprietários de livros representassem uma parcela insignificante da população livre, é pouco satisfatório acreditar que somente os comerciantes focalizados nesta pesquisa fossem proprietários de livros, o que nos leva a especular sobre a presença de mais impressos nas casas de outros habitantes da capital”, destacou.

Cultura e salvação

A terceira parte, Traduções culturais e transmissões de saberes, aborda a questão de contatos e intercâmbios entre povos de culturas distintas, a partir da análise de manuscritos e impressos que circularam entre América e África.

No artigo Bebida dos deuses, por exemplo, Leila analisa técnicas de fabricação e utilidades do chocolate no império português. “A bebida feita com cacau pelos índios da América Espanhola não era mais o mesmo chocolate tomado na corte europeia nos séculos 17 e 18, por exemplo. É um saber que foi transformado. E tudo isso passa pela escrita”, disse a historiadora, que pesquisa sobre a história da alimentação.

A quarta e última parte do livro, Usos da escrita e formas de contestação política, enfoca o estudo da circulação de informações e ideias consideradas sediciosas, heréticas ou libertinas no império luso-brasileiro, a partir de vários tipos de manuscritos e impressos.

No capítulo Do destino das almas dos índios, por exemplo, Evergton Sales Souza, professor adjunto na Universidade Federal da Bahia, comenta as mudanças no paradigma da teologia portuguesa entre o século 17 e o 18, a partir de visões antagônicas sobre a salvação dos gentios expostas nas textos do jesuíta Simão de Vasconcellos e do padre Antônio Pereira de Figueiredo.

“Os textos da quarta parte abordam, ainda, a questão da produção, divulgação e recepção de notícias, bem como de proposições políticas contra a administração portuguesa na América”, contam as organizadoras.

    Título: O Império por escrito: Formas de transmissão da cultura letrada no mundo ibérico – séculos 16 a 19
    Páginas: 608
    Preço: R$ 78
    Mais informações: www.alamedaeditorial.com.br

:: Agência FAPESP :: Especiais - Império por escrito

Memória da imprensa

 

Memória da imprensa

Última Hora, de Samuel Wainer, é um dos jornais que integram o novo site do Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP)

Por Alex Sander Alcântara

Há décadas a historiografia contemporânea tem incorporado a imprensa como fonte fundamental para se compreender momentos históricos e a atuação de protagonistas. Mas a fragilidade e as limitações do papel impresso, especialmente seu acesso, representam dificuldades aos pesquisadores.

Com o objetivo de ampliar o acesso a jornais e revistas do século 19 e início do século 20 no Brasil, o Arquivo Público do Estado de São Paulo acaba de lançar o site Memória da Imprensa, uma seleção de periódicos digitalizados do acervo da instituição.

O serviço reúne por enquanto 14 títulos de jornais e revistas de época, que permitem acompanhar a trajetória da imprensa paulista e brasileira a partir da seleção de exemplares de 1854 a 1981.

De acordo com o Carlos de Almeida Prado Bacellar, coordenador do Arquivo Público, além de ampliar o acesso, outro objetivo importante do novo site é preservar os raros originais das publicações.

Jornais e revistas antigos têm um suporte muito delicado. O papel amarela com facilidade e a consulta é muito complicada. O acesso direto aos originais ajuda a destruir ainda mais. Quanto mais conseguirmos passar para o formato digital, mais colaboraremos na preservação dos originais”, disse.

Segundo ele, a partir de agora pesquisadores não terão acesso aos originais dos jornais e revistas que já estão em formato digital. “Só poderão consultar em casos muito específicos e que serão analisados. Essa é uma iniciativa importante para preservar o acervo”, disse.

Parte do acervo já digitalizado ajuda a reconstituir momentos importantes dos mais de 200 anos de história da imprensa no Brasil. Pesquisadores já podem acessar desde publicações que marcaram época, como a revista A Cigarra (1914-1975) e o jornal Última Hora (1951-1971), até títulos menos conhecidos, como o jornal sindical Notícias Gráficas (1945-1964) e o anarquista La Barricata (1912-1913).

Segundo Bacellar, a ideia é colocar à disposição do público um conjunto variado de fontes. “Buscamos alguns exemplos de periódicos famosos, mas que ilustrem tendências ou conceitos diferentes. Temos desde a grande imprensa até pequenos jornais e revistas com perfis mais variados, como sindicais, políticos ou culturais”, disse.

A digitalização dos jornais e revistas é uma iniciativa interna do Arquivo do Estado. “Algumas digitalizações em curso estão envolvidas diretamente em projetos de pesquisa relacionados, como, por exemplo, à imigração em São Paulo, e à resistência política durante a Ditadura Militar”, explicou.

Movimento

O Memória da Imprensa já soma mais de 1.670 páginas de jornais, mas, de acordo com seu coordenador, as páginas disponíveis ainda representam uma amostra ínfima, se comparadas com a totalidade disponível no Arquivo do Estado.

Esperamos que esse material sirva para o uso do professor em sala de aula e dos próprios alunos. Caso o professor queira dar uma aula sobre o período da República Velha no Brasil pode, por exemplo, consultar alguns jornais anarquistas do período”, disse.

Um dos destaques é o periódico alternativo Movimento, que liderou a campanha pela anistia durante a ditadura militar. Lançado em 1975 e fechado em 1981, teve 3.093 artigos e 3.162 ilustrações censurados pela ditadura.

Segundo Bacellar, a alimentação do site será feita ao longo do ano de forma aleatória, com relação aos títulos. “Mas, às vezes, coincide com solicitação externa. Uma entidade pede, por exemplo a digitalização de um determinado jornal. De qualquer forma, pretendemos chegar, até o fim do ano, com mais de 2 milhões de páginas digitalizadas”, disse.

O Arquivo Público do Estado de São Paulo é um dos maiores arquivos públicos brasileiros. Sua hemeroteca tem cerca de 1,2 mil títulos e 32 mil exemplares de revistas e mais de 200 títulos de jornais.

Já estão disponíveis no site as revistas O Malho (1902-1954), Panóplia (1901-1935), Anauê! (1935), Vida Moderna (1907-1925) e Escrita (1975-1988), além dos jornais Lanterna (1901-1935), Acção (1936), Germinal (1902-1913) e Correio Paulistano (1854-1963), este último o primeiro diário da província de São Paulo.

Para acessar a página e mais informações: www.arquivoestado.sp.gov.br/memoria

:: Agência FAPESP - Especiais - Memória da imprensa

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Laboratórios de títulos

 

Laboratórios de títulos

Em sua sexta chamada, Programa FAP-Livros, da FAPESP, terá metade dos recursos – R$ 17 milhões – investidos em bibliotecas de ciências humanas, área na qual os livros são a ferramenta de pesquisa por excelência

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Bibliotecas de 175 instituições paulistas receberão, durante os próximos meses, uma “enxurrada” de livros que acrescentarão 165 mil títulos às suas coleções. As aquisições serão feitas por meio do Programa FAP-Livros, da FAPESP, cujo resultado da sexta chamada foi anunciado em março.

Do total de R$ 33,9 milhões previstos para essas aquisições, R$ 17 milhões serão concedidos a propostas voltadas para complementar coleções e ajudar a estruturar novas bibliotecas das áreas de ciências humanas e sociais.

De acordo com os responsáveis por algumas das propostas que receberam as maiores concessões, a concentração de recursos nas áreas de humanidades se explica pela importância especial do livro para essas disciplinas.

Segundo Michael Hall, professor do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o FAP-Livros tem um impacto incalculável para a pesquisa nas áreas de ciências humanas.

Costumo dizer que, para essas áreas, a biblioteca é o equivalente ao laboratório. Incrementar nossas coleções de livros equivale a equipar laboratórios nas áreas de ciências biológicas e exatas”, disse Hall à Agência FAPESP.

A Biblioteca Octávio Ianni, do IFCH, receberá cerca de 30 mil títulos nesta chamada do FAP-Livros, totalizando mais de R$ 2,5 milhões. A Unicamp – que ficou em segundo lugar entre as instituições com maiores concessões – receberá, no total, 75 mil títulos, avaliados em cerca de R$ 9,2 milhões.

Os novos livros vão incrementar o acervo da biblioteca em geral, mas procuramos aproveitar a oportunidade para aprofundá-lo em algumas áreas que consideramos atualmente inadequadas para as necessidades do instituto, em especial nos temas relacionados à América Latina e à África. Enfatizamos em especial os campos da antropologia e da história da arte”, disse Hall.

A maioria absoluta dos volumes será importada. “Enfatizamos as obras estrangeiras, porque o orçamento da Unicamp é suficiente para cobrir pelo menos uma parte das necessidades de bibliografias nacionais”, afirmou.

Segundo ele, as aquisições irão servir, em sua maior parte, para atualizar o acervo em áreas prioritárias, de acordo com a demanda manifestada pelos docentes da unidade.

Mobilizamos uma parte razoável dos professores de cada departamento para identificar essa demanda. Fizemos circular catálogos de editoras e designamos duas funcionárias da biblioteca para acompanhar os lançamentos em revistas internacionais”, disse.

O programa, segundo Hall, representa um grande avanço para a biblioteca do IFHC. “Na última chamada do FAP-Livros foi concedida uma solicitação de cerca de 27 mil títulos. Agora serão mais 30 mil. Para uma biblioteca que conta com cerca de 200 mil volumes, trata-se de um impacto formidável”, disse Hall.

Mais do que o previsto

O Programa FAP-Livros tem o objetivo de apoiar a aquisição de livros, e-books e publicações em outras mídias, destinados à pesquisa científica e tecnológica.

Participaram da sexta chamada bibliotecas de instituições que tiveram pesquisadores vinculados a solicitações de qualquer natureza apoiadas pela FAPESP no período de 2003 a 2009.

As propostas foram analisadas considerando-se os benefícios ao desenvolvimento científico e tecnológico do Estado de São Paulo, a capacitação das instituições proponentes e a aderência às condições da chamada de propostas.

O valor reservado para apoio às solicitações aprovadas na sexta chamada do programa era de, inicialmente, até R$ 25 milhões. Como o valor total das propostas recomendadas foi superior (R$ 33,9 milhões) ao reservado inicialmente, a Diretoria Científica da FAPESP recomendou e o Conselho Técnico-Administrativo aprovou a suplementação.

Dessa forma, será possível apoiar fortemente todas as propostas qualificadas e viabilizar a aquisição de aproximadamente 165 mil títulos para as bibliotecas de 175 instituições de pesquisa no Estado de São Paulo”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

Acervo abastecido

Entre as 175 instituições contempladas pela sexta chamada, a Universidade de São Paulo (USP) foi a que teve a maior concessão: R$ 11 milhões para a aquisição de mais de cerca de 54,7 mil títulos. A maior parte deles, quase 30 mil itens, terá como destino a Biblioteca Florestan Fernandes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).

De acordo com Sandra Nitrini, diretora da FFLCH, a biblioteca da unidade, que possui mais de 860 mil itens, tem um acervo de humanidades reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes no Brasil e na América Latina. Em recente processo de avaliação externa, o acervo, que dispõe de livros raros, foi objeto de elogios de pareceristas estrangeiros.

As chamadas do Programa FAP-Livros contribuem para o contínuo processo de complementação deste acervo, o que garante a manutenção de seu padrão de qualidade e a disponibilização para docentes, pesquisadores e estudantes de um acervo cada vez mais rico e atualizado. Isso é um fator imprescindível para o avanço e a produção do conhecimento nas humanidades”, disse Sandra.

Segundo ela, o programa supre a necessidade constante de uma criteriosa atualização e a complementação de grandes e respeitados acervos, como o da Biblioteca Florestan Fernandes.

A também professora do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH conta que, na sexta chamada, foram solicitados quase que exclusivamente livros em papel – o que é coerente com uma característica específica das ciências humanas, já que em outras áreas as publicações em periódicos digitais são hoje mais importantes que os livros. Mas as humanidades, segundo ela, não são excessivamente “apegadas” ao papel.

O livro é uma ferramenta fundamental para as ciências humanas, seja em papel ou em formato eletrônico. Na chamada anterior, o nosso acervo teve um acréscimo de mais de 360 mil itens, graças à aquisição de e-books, periódicos e documentos eletrônicos e microfilmes”, disse Sandra.

Complemento de pesquisa

Segundo Claudio Kiminami, coordenador de Pós-Graduação da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a predominância das áreas de humanas nas concessões da sexta chamada, em geral, foi uma tendência acompanhada pelo caso da UFSCar, em particular.

A UFSCar ficou em quarto lugar entre as instituições com maiores concessões: cerca de R$ 3,2 milhões para a aquisição de mais de 20 mil títulos.

Cerca de 80% da nossa demanda de referências bibliográficas corresponde às áreas de ciências humanas e educação. São setores cuja pesquisa está fortemente ligada ao acesso a livros. Enquanto em áreas como exatas e biológicas os laboratórios são constituídos de equipamentos de ensaio e análise, nas humanidades eles são constituídos de bibliotecas e livros”, afirmou Kiminami.

Nas áreas de saúde, ciências exatas, tecnologia e ciências biológicas, de acordo com Kiminami, os portais digitais de periódicos são a fonte mais importante de recursos para pesquisa.

Segundo ele, os 20 mil novos títulos serão um item importantíssimo da complementação aos apoios da FAPESP aos pesquisadores da UFSCar. “A solicitação desses recursos está vinculada aos projetos financiados pela FAPESP. O programa consiste em uma complementação fundamental às bolsas e projetos de pesquisa”, disse.

Os novos livros serão distribuídos em três bibliotecas da UFSCar. Cerca de 90% dos volumes irão para a Biblioteca Comunitária no campus de São Carlos (SP). O restante irá para os campi de Araras e Sorocaba, também no interior paulista.

O campus de Sorocaba está em estágio inicial, pois foi criado em 2006. A atividade de pesquisa ali, no entanto, já é muito intensa e a atuação do corpo docente é digna de nota – são mais de 100 pesquisadores entre professores e jovens doutores. Estruturar a biblioteca local será de uma importância crucial, pois o campus está a quase 300 quilômetros de São Carlos e a mobilidade de livros não é algo trivial nessa circunstância”, explicou.

Do total de volumes solicitados ao programa, cerca de 19 mil são livros importados, perfazendo mais de US$ 1,3 milhão. “O restante – uns 1.600 volumes – são materiais bibliográficos a serem adquiridos no país, totalizando R$ 242 mil”, disse.

Na chamada anterior do FAP-Livros, a concessão feita à UFSCar totalizou aproximadamente 8 mil livros. Segundo Kiminami, o fato de o apoio ser recorrente é importante para o planejamento a longo prazo.

Essa repetição do apoio à infraestrutura de bibliografias é um indicativo de que a FAPESP está nos dando um apoio regular. Isso faz com que os pesquisadores se preparem para a demanda. Essa consistência dos editais gera um clima favorável entre os pesquisadores, que podem se planejar”, disse.

Segundo ele, também é importante que a chamada tenha sido flexível. O valor original reservado para apoio ao conjunto de solicitações aprovadas era de até R$ 25 milhões, mas a FAPESP aumentou essa quantia em R$ 8,9 milhões a fim de atender integralmente às solicitações.

É importante que o edital tenha conseguido atender à demanda qualificada. Não foi uma chamada competitiva, que excluiria determinados projetos, como ocorreria se tivéssemos um edital com volume fixo de recursos”, apontou.

Com a chegada de mais de 20 mil volumes, segundo Kiminami, as bibliotecas terão um grande trabalho pela frente. “Temos que importar, catalogar, organizar e instalar em um espaço físico esses volumes. Para isso será necessário investir em uma força-tarefa e engajar estagiários temporários, a fim de dar acesso a esses livros rapidamente. É um problema muito bem-vindo”, disse o também professor do Departamento de Engenharia dos Materiais da UFSCar.

Mais informações sobre o Programa FAP-Livros: www.fapesp.br/faplivros

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Claro e escuro: Borges, mais uma vez

Continuo a ler as conversas entre o escritor Jorge Luis Borges e o jornalista Osvaldo Ferrari, desta vez no volume Sobre os Sonhos e Outros Diálogos.

Como sempre, vários momentos chamam a atenção, mas alguns são mais curiosos que outros.

Como este em que Borges fala sobre o romance Moby Dick e sobre como Herman Melville transmite o horror através da cor branca, através de um selvagem e supostamente sanguinário animal albino.

Porque sempre se associa a ideia do terror às trevas, à negrura, e depois ao vermelho, ao sangue. E ele viu que a cor branca – que para a vista seria a ausência de toda cor – também pode ser terrível. Agora, ele pode ter encontrado essa ideia. Por que não encontrar sugestões em um livro, em uma leitura, da mesma forma que em qualquer outra coisa, uma vez que uma leitura é algo tão vívido quanto outra experiência qualquer? Eu acredito que ele encontrou essa idéia no Relato de Arthur Gordon Pym, de Poe. Porque o tema das últimas páginas desse relato, a parte que começa com a água das ilhas, essa água mágica, essa água frisada que pode se dividir segundo as listas, bom, nisso no final, há o horror pelo branco. E ali isso se explica por aquele país da Antártida que alguma vez foi invadido por gigantes brancos. A cor branca é terrível; isso vai sendo insinuado nas últimas páginas. Pym afirma claramente que as coisas brancas são terríveis para essa gente. E Melville aproveitou a ideia para Moby Dick (“aproveitou” é um apelativo pejorativo que eu lamento ter usado). Enfim, isso é o que acontece. Além disso, há um capítulo especialmente interessante chamado “The whiteness of the wale” (a brancura da baleia), e ali ele se estende com muita eloquência, uma eloquência que agora eu não posso repetir, sobre o branco como algo terrível.

Borges, então, aproveita para analisar a etimologia de algumas palavras que designam as cores em diferentes idiomas:

Bom, como eu disse branco, e como eu gosto das etimologias, poderia lembrar, não é um fato muito divulgado, que no inglês temos a palavra black, que significa preto, e em espanho a palavra blanco. E depois, no francês temos blanc, no português branco, no italiano bianco. E essas palavras tem a mesma raiz, porque no inglês – acho que a palavra saxônica deu origem a duas palavras: bleak, que significa descolorido (diz-se, por exemplo, In a bleak mood, quando a gente está não descolorido, mas melancólico, abúlico), e a outra black, preto. E ambas as palavras – black em inglês e blanco em espanhol – tem a mesma raiz. Tem a mesma raiz porque, no início, não significava preto, mas sem cor. De maneira que no inglês a idéia de algo sem cor foi passando para o lado da sombra: black significa preto. Por outro lado, nas línguas romances, essa palavra passou para o lado da luz, para o lado da claridade (…)

Fonte: http://livroseafins.com/