quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Lampião: cabra-macho ou flor do sertão?

 

Livro que questiona a sexualidade de Lampião gera revolta no meio acadêmico – sobretudo diante de ‘comprovações’ que remetem até a fóruns da internet

Felipe Sáles

Depois de Hitler, Zumbi dos Palmares e a Imperatriz Leopoldina, o, digamos, revisionismo sexual de grandes personagens da História atingiu o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva. O problema é que a “descoberta” do juiz aposentado Pedro de Morais, autor do livro “Lampião, o mata sete” – no qual afirma que o líder do cangaço era homossexual –, nem novidade é, mas se alastrou feito rastilho de pólvora nos megabytes do mundo moderno. O historiador Antônio Amaury, que dedicou nada menos que 63 anos ao estudo do cangaço, inclusive entrevistando vários membros da tropa de Lampião, é categórico: “isso nunca foi sequer cogitado por todos que conheceram e conviveram com Lampião. Portanto, levantar essa difamação foi apenas uma forma desse juiz aparecer”.

Se era esta a intenção (ou apenas difamar o mito), o ex-juiz conseguiu. Uma pesquisa no Google com os termos “Lampião” e “gay” remete a mais de 200 mil resultados, enquanto “Lampião” e “Pedro de Morais” respondem a mais de 40 mil links. Repercussão que, como de praxe nesses casos, ganhou força mesmo após a Justiça proibir o lançamento da obra, a pedido dos parentes do cangaceiro. Pedro de Morais acredita que a decisão será revertida em breve, já que tudo se trata de uma confusão de... sinônimos.

“O próprio juiz, na sentença, afirma que não leu o livro”, argumenta Pedro. “Ele se baseou na manchete de um jornal popularesco, que chamou Lampião de boiola e Maria Bonita de adúltera. Mas em momento algum eu usei esses termos... Depois que ele ler o livro, não haverá problema algum. Tudo o que eu disse está relatado por vários autores. Eu apenas tive a coragem de expor sem meias palavras”.

Fatos controversos

Para sustentar a versão, Pedro de Morais usa como exemplo até fóruns públicos do site Yahoo, onde “todo mundo sabe da homossexualidade de Lampião”.

“Você há de convir que obter prova material de homossexualidade seja difícil. Mas este era um fato amplamente sabido por vários estudiosos”, garante Pedro, citando como exemplo o professor Luiz Mott, doutor em antropologia e fundador do Grupo Gay da Bahia. A tese de Mott – igualmente não aceita por quem se dedicou especificamente ao tema cangaço – se baseia em relatos de que Lampião, na intimidade, adorava perfume francês, usava um lenço de seda e muitos anéis nos dedos. Foi o suficiente para a conclusão – de Pedro, claro, mas não de Antônio Amaury, do alto de suas mais de 250 horas de conversa com cangaceiros e mais de 7 mil entrevistas realizadas sobre o assunto.

“Com todo o respeito, Mott dedicou a vida ao tema da homossexualidade, não ao estudo do cangaço. Não há o menor fundamento para se afirmar isso. Eu conversei com mais de 30 cangaceiros, alguns diretamente ligados a Lampião, e ninguém jamais sequer comentou esse tipo de coisa. Inclusive, conversei uma vez com a mulher de um cangaceiro, que foi presa e levada para Salvador. Ela contou que só ouviu falar desse tipo de conduta, entre pessoas do mesmo sexo, ao chegar lá, na cidade grande”, conclui Antônio.

Provas x Anedotas

O médico-legista Estácio de Lima, autor de “O mundo estranho dos cangaceiros”, também é citado como fonte. Segundo Pedro, Lampião é descrito como um homem de “trejeitos afeminados”, com “postura de homossexual” e até “realizador da cultura homossexual”, conforme descreve o ex-juiz, acrescentando ainda que Lampião “não tinha capacidade de ereção”.

Antônio refuta:

“Não há testemunhos nem a menor evidência para esse tipo de acusação. Mas agora está na moda dizer que toda personalidade histórica foi homossexual. Uma das bases dessa acusação estapafúrdia de impotência foi um tiro que Lampião levou na virilha. Mas esse ferimento, comprovadamente, de modo algum afetou sua virilidade, muito menos, obviamente, sua masculinidade”.

Seja como for, Pedro de Morais não faz questão de esconder a antipatia pelo rei do cangaço, que foi tema da reportagem “Fascinantes facínoras”, publicada em “falo o que penso”.

“Eu trabalhei nas comarcas de Canindé e Poço Redonda e cansei de ouvir histórias escabrosas de Lampião. Meu objetivo é desmitificar esse canalha, um dos piores elementos que a natureza já produziu”, afirma.

Policial militar de Sergipe, Marcelo Rocha também faz pesquisas sobre o cangaceiro, mas sob o ponto de vista da polícia – ou seja, de quem não teria o menor motivo para defender Lampião. Ele também rejeita a tese.

“Não há a menor evidência sobre isso, nenhum relato ou livro com fundamento para tanto. O máximo que havia era conversas de esquina, meras anedotas do povo”.