domingo, 28 de março de 2010

Livros digitais da Unesp



Por Fábio de Castro (11/3/2010)

Agência FAPESP – A Universidade Estadual Paulista (Unesp) encontrou uma solução inovadora para oferecer acesso universal ao conhecimento produzido em sua pós-graduação: o Programa de Publicações Digitais, que lança nesta quinta-feira (11/3) sua primeira coleção, com 44 títulos inéditos.

O programa, decorrente de uma parceria entre a Fundação Editora Unesp (FEU) e a Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PROPG) da universidade, publica em formato digital livros exclusivamente produzidos para esse fim, com foco nas áreas de ciências humanas, ciências sociais e aplicadas e linguística, letras e artes.

De acordo com o assessor da PROPG, Cláudio José de França e Silva, os títulos iniciais foram selecionados pelos Conselhos de Programas de Pós-Graduação da universidade.

“No mesmo momento em que estamos lançando esses títulos, publicamos a chamada para a edição 2010 do programa, que editará mais 58 livros. O objetivo do programa, lançado em 2009, é editar 600 livros digitais em dez anos”, disse França e Silva à Agência FAPESP.

Segundo ele, cada programa de pós-graduação da Unesp pode indicar até dois livros para publicação no âmbito do Programa de Publicações Digitais. “É uma maneira inovadora para dar vazão à grande produção acadêmica da Unesp nessas áreas do conhecimento. Todos os livros editados são derivados de pesquisas realizadas em nossos programas de pós-graduação, incluindo muitas teses e dissertações, além de trabalhos de docentes e egressos da universidade na última década”, explicou.

O objetivo principal é universalizar o conhecimento produzido pelos pesquisadores da Unesp em grande escala. “Boa parte da pesquisa fica restrita ao público acadêmico. Por outro lado, a publicação em papel de um volume tão grande de obras levaria anos e teria grandes custos. Com o programa, encontramos uma maneira viável para que esse conhecimento possa atingir um público amplo”, disse.

Como as obras passaram pelo crivo dos conselhos, o conjunto de 44 títulos é um reflexo dos próprios programas de pós-graduação da Unesp. “A seleção das obras leva de três a quatro meses para ser feita. No total, contando com todo o processo de edição e revisão, levamos cerca de um ano entre o início da seleção e a publicação dos livros”, disse França e Silva.

Segundo o assessor, existem outras iniciativas, em outras instituições, de disponibilização de conteúdos de livros na internet. Mas, pela primeira vez, uma universidade realiza um programa que publica obras projetadas, em sua origem, para o lançamento em formato digital.

“Esse é o caráter pioneiro do programa. A proposta é que esses livros permaneçam disponíveis em formato exclusivamente digital, sem qualquer custo para o leitor, democratizando a produção acadêmica da universidade”, afirmou.

As diretrizes do programa vetam a produção de obras derivadas a partir dos livros digitais lançados, a fim de garantir a integridade das obras. Também não é permitida a comercialização.

“Os livros têm um conceito muito bem claro, com um padrão de capas e de editoração definidos. Com isso, bastaria imprimi-los, da maneira que estão apresentados na internet, para termos essas obras em papel. Mas a ideia é que sejam mantidos como livros digitais apenas”, afirmou.

Para baixar os livros, segundo França e Silva, o leitor deve apenas preencher um cadastro sumário no site da Editora da Unesp e gerar uma senha que dá acesso às obras.

“O projeto é de grande importância para os autores. Suas obras, com a chancela da Unesp, serão acessadas por um público universal, que nunca seria atingido se a publicação fosse em papel. Iremos, ainda, ter o controle da quantidade e localidade dos downloads, o que nos permitirá aperfeiçoar as estratégias de publicação no futuro”, afirmou.

Para França e Silva, o público não deverá oferecer resistência ao novo formato. “Quando se começou a digitalizar os periódicos houve uma resistência inicial, mas hoje a maior parte das publicações é feita nesse formato. No entanto, não acreditamos que o livro de papel esteja desaparecendo. Trata-se apenas de uma nova forma de divulgar a ciência”, disse.

Segundo ele, os livros digitais serão cada vez mais importantes, em particular para as áreas de humanidades e artes – por isso o programa tem foco nessas áreas.

“Em geral, os pesquisadores das áreas de exatas e biológicas querem encaminhar suas pesquisas para periódicos o mais rápido possível. Mas nas áreas de humanas o livro tem um peso todo especial”, disse.

Mais informações: www.culturaacademica.com.br

terça-feira, 9 de março de 2010

Jorge Luis Borges e a ética

Gostaria de escrever um comentário sobre este trecho que cito do livro Sobre A Filosofia e Outros Diálogos, uma deliciosa coleção de conversas entre Jorge Luis Borges e o jornalista Osvaldo Ferrari. Mas creio que ele é suficiente. Primeiro a pergunta, em itálico, e depois, como costuma ser, a resposta:

O senhor sempre nos fala da ética, e até me disse que considera que ter uma ética é mais importante ainda – como também acreditava Kant – do que possuir uma religião.

Bem… a religião somente se justifica em função da ética. Por outro lado, como disse Stevenson, a ética é um instinto, ou seja, não é necessário definir a ética; a ética não são os Dez Mandamentos, a ética é algo que sentimos cada vez que agimos. E, no final do dia, sem dúvida teremos tomado muitas decisões éticas, e teremos tido que escolher… simplificando o tema – entre o bem e o mal.

E quando escolhemos o bem, sabemos que escolhemos o bem; quando escolhemos o mal também sabemos. O importante é julgar cada ato em si mesmo, não pelas suas consequências, já que as consequências de todo ato são infinitas, se ramificam no futuro e, a longo prazo, se equivalem e se complementam. De modo que julgar um ato pelas suas consequências é imoral, eu acho.

A conversa continua:

Penso que uma pessoa culta tem que ser ética. Por exemplo, costuma-se pensar que os bons são bobos, e que os malvados são inteligentes, e eu acho que não, eu acho que de fato, é ao contrário.

Geralmente, as pessoas más são ingênuas também: uma pessoa atua mal porque não imagina o que a sua conduta pode produzir na consciência dos outros. De modo que eu penso que, na verdade, existe inocência na maldade e inteligência na bondade. Além disso, a bondade, para ser perfeita – creio que ninguém chega a uma bondade perfeita – tem que ser inteligente. Por exemplo, uma pessoa boa, e não muito inteligente, pode dizer coisas desagradáveis para os outros, porque não se dá conta de que são desagradáveis. Por outro lado, para ser boa, uma pessoa tem que ser inteligente, porque, caso contrário, sua bondade será… imperfeita, por dizer coisas incômodas para os outros sem se dar conta.

Leve em conta que a discussão do tema é simplificada para termos como bom e mau por conta do curto tempo reservado à conversa na rádio. Nunca é demais lembrar que a ética nem sempre tem a ver com o que uma sociedade e um tempo consideram bom ou mau. Por outro lado, Borges era um escritor que dizia as coisas da maneira simples.

http://livroseafins.com/jorge-luis-borges-e-a-etica/

domingo, 7 de março de 2010

Legado incalculável

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – “José Mindlin deixou um legado incalculável para a cultura e a ciência”, disse Celso Lafer, presidente da FAPESP, a respeito do bibliófilo e empresário morto no domingo (28/2), em São Paulo, de falência múltipla de órgãos. Mindlin estava internado desde janeiro.

Advogado, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e fundador da indústria de autopeças Metal Leve, Mindlin teve também atuação importante como conselheiro da FAPESP (1973-1974) e como secretário de Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (1975-1976).

Como conselheiro da FAPESP, teve participação importante na anulação de um decreto que havia transformado os institutos de pesquisa em empresas.

A transformação de todos os institutos em companhias era coisa que não fazia sentido, porque há institutos que podem vender serviços e por isso devem ser transformados em empresas, enquanto outros fazem pesquisa e não têm condições de vender serviços”, disse Mindlin no livro FAPESP – Uma História de Política Científica e Tecnológica.

Segundo Lafer, como secretário de Estado, Mindlin teve a FAPESP sob sua responsabilidade administrativa. “Nesse período, ele teve um papel importante na indicação do professor William Saad Hossne para sua segunda gestão como diretor científico da Fundação. Foi um período difícil do ponto de vista político, com as dificuldades impostas pelo regime militar, e o professor Saad, em conjunto com Mindlin, responderam a esse desafio preservando a autonomia da FAPESP”, disse.

Em sua gestão à frente da secretaria, Mindlin realizou, com muita propriedade, o diálogo entre a cultura literária e humanística e a cultura científica. “Era justamente um homem de cultura, mas um homem de grande interesse nas áreas de ciência e tecnologia. Na Metal Leve, uma de suas preocupações foi a criação de um centro de pesquisas. A empresa se notabilizou no cenário industrial do Brasil por fazer pesquisa em parceria com a universidade”, disse Lafer.

Mindlin também teve atuação relevante, no campo científico, durante o período em que dirigiu o Departamento de Ciência e Tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “Em sua atuação empresarial ele deu muito destaque à pesquisa, como também ao design – que é uma dimensão importante não só do ponto de vista da funcionalidade e da qualidade do produto, mas também de sua aparência estética”, apontou Lafer.

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, também destacou a contribuição de Mindlin para a Fundação e a importância de sua atuação no campo cultural e científico. “Mindlin foi um grande amigo da FAPESP, valorizando a ciência, a tecnologia e a cultura em vários cargos de liderança que ocupou. Em várias ocasiões contribuiu para a Fundação com ideias e sugestões”, afirmou.

Brito Cruz lembrou ainda o impacto da doação, em 2006, dos mais de 40 mil volumes da Biblioteca Guita e José Mindlin à Universidade de São Paulo (USP). “Recentemente a FAPESP concedeu apoio expressivo para que a USP realize a digitalização dos volumes recebidos de Mindlin em doação, em importante iniciativa para a publicização daquela belíssima coleção”, disse.

Universalização do conhecimento

A FAPESP apoiou, por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular, o projeto Brasiliana Digital, que disponibilizará pela internet, com acesso livre, toda a coleção reunida por Mindlin ao longo de mais de 80 anos, além de outros acervos da USP.

Os recursos permitiram a compra de um sistema integrado de digitalização robotizada de livros que, atualmente, está instalado na residência do empresário. Ali, os técnicos da universidade continuam o trabalho de digitalização.

Segundo o coordenador da Brasiliana Digital, Pedro Puntoni, professor do Departamento de História da USP, a base da iniciativa é o projeto Brasiliana USP, coordenado por István Jancsó, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Para abrigar o acervo doado por Mindlin e a nova sede do IEB, a Brasiliana USP está construindo um edifício com cerca de 20 mil metros quadrados no centro da Cidade Universitária, em São Paulo.

Estamos sentindo muita falta do doutor Mindlin e é muito triste que ele não possa ver pronta essa grande casa dos livros pela qual ele é responsável. Ele fará falta como amigo, como homem de cultura e como pensador, mas deixou para todo o Brasil um grande presente, ao qual sua memória estará sempre associada”, disse.

Segundo Puntoni, o objetivo é concluir as obras dentro de um ano. Está pronta a primeira etapa da construção, correspondente às estruturas de concreto da ala Mindlin. “A estrutura metálica está contratada e, assim que estiver pronta, passaremos à fase de acabamento. A ala do IEB ainda está na fase inicial da parte de concreto”, contou.

Puntoni acrescenta que, além das novas instalações da Biblioteca Brasiliana e da digitalização de todo o acervo, existe um projeto associado que prevê a criação do Centro de Restauro de Livro e Papel Guita Mindlin, voltado para atender à demanda da USP para a formação de restauradores profissionais. “Com a criação desse espaço, queremos formar um centro de convergência de múltiplas disciplinaridades em torno do objeto livro”, afirmou.

No fim de abril, segundo Puntoni, a partir de uma proposta de Mindlin, a USP, em parceria com o Ministério da Cultura (Minc), promoverá um simpósio internacional sobre políticas de acervos digitais que trará ao Brasil grandes nomes do universo da digitalização de livros.

Sua ideia era criar um ambiente acadêmico e cultural de discussão de temas como o direito à cultura, direitos autorais e sustentabilidade de projetos, convergindo para a formação de uma política pública de digitalização de acervos”, afirmou.

Tradição e modernidade

João Grandino Rodas, reitor da USP, conta que o empresário e sua esposa Guita Mindlin – morta em 2006 – foram estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (FD-USP), onde se conheceram. Rodas, que foi diretor da faculdade entre 2006 e 2009, lembra que Mindlin e Guita se notabilizaram como alunos exemplares da universidade.

Se olharmos para os 192 anos da Faculdade de Direito, ele certamente se destaca entre nomes como Rui Barbosa e o Barão de Rio Branco. Mindlin foi um desbravador em vários aspectos. No que diz respeito à herança deixada à USP, trata-se de um legado imenso, mas ainda maior é a ideia, por ele plantada, de que a universidade precisa juntar tradição e modernidade”, disse Rodas.

A tradição, segundo o reitor da USP, só é importante se for distribuída a todos – e isso só é possível com a tecnologia. “Mindlin reuniu todos esses livros e criou um tesouro incalculável. É preciso considerar o valor de cada obra e o valor de ter juntado essas obras. Mas seu pensamento vai além: ele pensava na digitalização dessas obras para que elas possam ser universalizadas. Aceitamos essa ideia imaginando que isso não se devesse circunscrever simplesmente à Biblioteca Brasiliana”, disse.

Segundo ele, a digitalização de bibliotecas é uma tendência moderna, ainda pouco disseminada no mundo. “Mindlin nos mostrou a necessidade de digitalizar todo o acervo da USP, em suas 41 unidades, que não pode ser confinado entre quatro paredes e limitado à consulta em horário útil”, destacou.

Outro aspecto importante da contribuição de Mindlin, segundo Rodas, foi o esforço feito durante 15 anos para conseguir que a USP aceitasse a doação de seu acervo.

Percebemos que nas universidades públicas brasileiras geralmente é extremamente difícil a doação de acervos particulares. Isso não pode continuar. Verificamos que hoje, no mundo, várias bibliotecas recebem acervos importantes doados por brasileiros às universidades estrangeiras, porque não conseguem fazer o mesmo no Brasil. Mindlin foi pioneiro nesse aspecto. Graças a ele, esses procedimentos se tornarão mais fáceis”, disse.

O que mais me encantou em Mindlin é que, além de todos esses aspectos, era uma pessoa extremamente simples, afável, agradável, que deixava a todos à vontade e com isso cativou a todos – esse é um legado imprescindível. Foi uma pessoa de estatura gigantesca que continuou simples como o mais comum dos homens”, disse.

Clarice Lisnpector

Que êxtase de gratidão por ter “conhecido” Clarice Lispector! Conheci-a através da famosa entrevista que ela deu pouco tempo antes de morrer, em 1977, ao jornalista Junio Lerner. Em suas poucas palavras, pareceu-me sempre restar um “algo mais” muito mais profundo que Clarice parecia querer dizer, um incomunicável que se vive. Contrastando com isso, tem a irritante e insuportável categoria do jornalista que a inquire a todo instante com um “por que”, ele quer retirar de Clarice o “conceito” e a “explicação”, e a escritora se recusa a participar desse jogo de discurso previsível. É uma pena que Lerner não tenha percebido que a dimensão do diálogo a que Clarice parecia estar aberta não era a do diálogo coerente com o raciocínio.

Assim, a partir dessa entrevista busquei conhecer um pouco da obra da escritora, e como critério, parti não da sua obra mais conhecida e famosa, mas sim das mais periféricas. Ora, o que me chamou profundamente a atenção assistindo à entrevista da Clarice, em primeiro instante, foi justamente a sua relação com a linguagem que parece ser sempre insuficiente para conseguir dizer o que se vive e experiencia: Clarice parece travar uma luta com a linguagem. De tal modo as obras mais periféricas possivelmente seriam as que teriam mais “conteúdos” ocultos nas entrelinhas, dado que uma obra literária dificilmente vem a se tornar famosa se se exige para sua “compreensão”, um distanciamento da lógica da linguagem, sem perder a própria linguagem. Em suma: “A hora da estrela” foi a obra que escolhi de Clarice para não ler, talvez em outro momento.

Li dois “pequenos” livrinhos da autora que certamente ficarão grafados na carne. Perto do coração selvagem e Um sopro de vida: pulsações. A primeira é obra da juventude de Clarice, a segunda uma publicação póstuma. Ambas me deixaram maravilhado: duas das obras escritas mais “verdadeiramente” possível, na medida em que o discurso literário é antes um mostrar-se do devir enquanto fluxo. Através delas experienciei uma leitura que foi mais um estar-junto-presenciando-a-vida-das-personagens do que uma leitura onde se junta frases para se construir um sentido: o que a autora quis dizer? – Certamente essa não é uma pergunta que se faz a


Clarice nessas duas obras.
Em Um sopro de vida: pulsações Clarice cria um autor que cria uma personagem e a partir daí a obra transcorre num fluxo de devir despreocupado com a estrutura mais formal de um romance. Para que enredo, apresentações e divisões se a vida não comporta demarcações? Precisa-se, mais do que ler, sentir e acompanhar as vivências do autor com sua personagem Ângela Pralini, que tem como fundo a própria presença de Clarice enquanto autora, por excelência, que capta o devir com seu movimento e o coloco em palavras que necessitam de um distanciamento dos sentidos mais literais e usuais para que se possa pegá-las em suas múltiplas colorações; nessa perspectiva é quase impossível não ser intensamente afetado e arrastado pelo oceano semântico criado por Clarice que nos impele para as profundezas sem-fundo das suas palavras.

O personagem “Autor” é um escritor não por ofício, mas existe enquanto escritor. E logo de início nos convida para o seu livro que também não é um livro-comum:

Este é um livro silencioso. E fala, fala baixo.

Este é um livro fresco — recém-saído do nada. Ele é tocado ao piano delicada e firmemente ao piano e todas as notas são límpidas e perfeitas, umas separadas das outras. Este livro é um pombo-correio. Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta própria e auto-risco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever. Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me en¬contrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim.

Sua necessidade de criar Ângela é sua necessidade de existir, Ângela antes é a expressão e manifestação do seu sentido criativo: Ângela é a sua presa, mas também ameaça ser a caçadora, na medida em que o objeto da criação acaba se misturando com o próprio criador e daí não se vive mais separadamente.

Se nessa relação podemos levantar algumas questões que permeiam e dão o tom mais consistente dos devires entre Autor e Criação [Ângela], estas são a batalha infernal que o “escritor” [ora, entenda-se por Clarice] irá travar com a linguagem em sua insuficiência e ao mesmo tempo que é fundamental para o ser, a morte enquanto incompreensível individual que em vão busca por compreensões, o sentido das coisas que são captadas sob um fundo de sem-sentido (sem-sentido que não necessariamente se apresenta como sentido, mas pura necessidade das coisas ser como são), além de uma espiritualidade manifesta enquanto “mistério” e que se revela principalmente em Ângela tanto quanto ela se debate com a certeza da finitude.

Através das obras de Clarice encontrei-me com um mundo afirmado em sua própria inocência de ser assim tal como é, um mundo que, embora não possível de ser silenciado pelo ser que o impele para que “explique-se”, é antes de tudo contemplado pelo espanto e encanto de existir.
Abaixo separei alguns trechos que ainda estão latejando em minhas veias. Certamente que muito do selecionado envolve a diabólica e metabólica relação com a linguagem e a morte.

Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.

Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu silêncio e na penumbra. Vejo pouco, ouço quase nada. Mergulho enfim em mim até o nascedouro do espírito que me habita. Minha nascente é obscura.


Estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não sei o que fazer com meu espírito. O corpo informa muito. Mas eu desconheço as leis do espírito: ele vagueia. Meu pensamento, com a enunciação das pala¬vras mentalmente brotando, sem depois eu falar ou escrever — esse meu pensamento de palavras é precedido por uma instantânea visão, sem palavras, do pen¬samento — palavra que se seguirá, quase imediatamente — diferença espacial de menos de um milímetro. Antes de pensar, pois, eu já pensei. Suponho que o compositor de uma sinfonia tem somente o “pensamento antes do pensamento”, o que se vê nessa rapidíssima idéia muda é pouco mais que uma atmosfera? Não. Na verdade é uma atmosfera que, colorida já como símbolo, me faz sentir o ar da atmosfera de onde vem tudo. O pré-pensamento é em preto e branco. O pensamento com palavras tem cores outras. O pré-pensamento é o pré-instante. O pré-pensamento é o passado imediato do instante. Pensar é a concretização, materialização do que se pré-pensou. Na verdade o pré-pensar é o que nos guia, pois está intimamente ligado à minha muda inconsciência. O pré-pensar não é racional. É quase virgem.

Às vezes a sensação de pré-pensar é agônica: é a tortuosa criação que se debate nas trevas e que só se liberta depois de pensar — com palavras.

É o meu interior que fala e às vezes sem nexo para a consciência. Falo como se alguém falasse por mim. O leitor é que fala por mim?

(…) Ângela de pé junto a mim. Ei-la que se aproxima um pouco mais. Depois senta-se ao meu lado, debruça o rosto entre as mãos e chora por ter sido criada. Consolo-a fazendo-a enten¬der que também eu tenho a vasta e informe melancolia de ter sido criado. Antes tivesse eu permanecido na imanescença do sagrado Nada. Mas há uma sabedoria da natureza que me faz, depois de criado, mover-me sem que eu saiba para que servem as pernas. Ângela, eu também fiz meu lar em ninho estranho e também obedeço à insistência da vida. Minha vida me quer escritor e então escrevo. Não é por escolha: é íntima ordem de comando.

Faço o possível para escrever por acaso. Eu quero que a frase aconteça. Não sei expressar-me por palavras. O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio. Expressar-me por meio de palavras é um desafio. Mas não correspondo à altura do desafio. Saem pobres palavras. E qual é mesmo a palavra secreta? Não sei e por que a ouso? Só não sei porque não ouso dizê-la?

Eu adivinho coisas que não têm nome e que talvez nunca terão. É. Eu sinto o que me será sempre inacessível. É. Mas eu sei tudo. Tudo o que sei sem propriamente saber não tem sinônimo no mundo da fala mas me enriquece e me justifica. Embora a palavra eu a perdi porque tentei falá-la. E saber-tudo-sem-saber é um perpétuo esquecimento que vem e vai como as ondas do mar que avançam e recuam na areia da praia. Civilizar minha vida é expulsar-me de mim. Civilizar minha existência a mais profunda seria tentar expulsar a minha natureza e a supernatureza. Tudo isso no entanto não fala de meu possível significado. O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções. Estou perdida: eu não tenho hábitos.

Eu escrevo por intermédio de palavras que ocul¬tam outras — as verdadeiras. É que as verdadeiras não podem ser denominadas. Mesmo que eu não saiba quais são as “verdadeiras palavras”, eu estou sempre aludindo a elas. Meu espetacular e contínuo fracasso prova que existe o seu contrário: o sucesso. Mesmo que a mim não seja dado o sucesso, satisfaço-me em saber de sua existência.

Amo Ângela Pralini porque me permite que eu durma enquanto ela fala. Eu que durmo para uma certa experiência preparativa da morte. Experiência do curso primário porque a morte é tão incomensurável que me perderei nela. Não — para falar sinceramente — não permito que o mundo exista depois de minha morte. Dou remorsos a quem eu deixar vivo e vendo televisão, remorsos porque a humanidade e o estado de homem são culpados sem remissão de minha morte.

Descobri que eu preciso não saber o que penso — se eu ficar consciente do que penso, passo a não poder mais pensar, passo a só me ver pensar.

Eu sinto uma beleza quase insuportável e indes¬critível. Como um ar estrelado, como a forma informe, como o não-ser existindo, como a respiração es¬plêndida de um animal. Enquanto eu viver terei de vez em quando a quase-não-sensação do que não se pode nomear. Entre oculto e quase revelado. É também um desespero faiscante e a dor se confunde com a beleza e se mistura a uma alegria apocalíptica.

Esta noite tive um sonho dentro de um sonho. Sonhei que estava calmamente assistindo artistas traba¬lharem no palco. E por uma porta que não era bem fechada entraram homens com metralhadoras e mataram todos os artistas. Comecei a chorar: não queria que eles estivessem mortos. Então os artistas se levantaram do chão e me disseram: nós não estamos mortos na vida real, só como artistas, fazia parte do show esse morticínio. Então sonhei um sonho tão bom: sonhei assim: na vida nós somos artistas de uma peça de teatro absurdo escrita por um Deus absurdo. Nós somos todos os participantes desse teatro: na verdade nunca morreremos quando acontece a morte. Só morremos como artistas. Isso seria a eternidade?

Ângela.- Uma ânsia. Queria poder viver tudo de uma só vez e não ficar vivendo aos poucos. Mas aí viria a Morte.

Quando eu morrer não saberei o que fazer de mim. / Deve haver um modo de não se morrer, só que eu ainda não descobri. Pelo menos não morrer em vida: só morrer depois da morte. / O mundo está ficando cada vez mais perigoso para mim. Depois de morta, cessará o perigo periclitante. Respirar é coisa de magia. / Quero que meu fim seja tão inevitável como a morte: o meu fim na vida será possuir. Eu sou virgem. / Eu quase que já sei como será depois de minha morte. A sala vazia o cachorro a ponto de morrer de saudade. Os vitrais de minha casa. Tudo vazio e calmo.

A incomunicabilidade de si para si mesmo é o grande vórtice do nada. Se eu não acho um modo de falar a mim mesmo a palavra me sufoca a garganta atravessando-a como uma pedra não deglutida. Eu quero ter acesso a mim mesmo na hora em que eu quiser como quem abre as portas e entra. Não quero ser ví¬tima do acaso libertador. Quero eu mesmo ter a chave do mundo e transpô-lo como quem se transpõe da vida para a morte e da morte para a vida.

Na hora de minha morte — que é que eu faço? Me ensinem como é que se morre. Eu não sei.

Postado originalmente em:
http://www.eternoretorno.com/2010/03/03/clarice-lispector-a-rainha-do-sem-sentido/
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