sábado, 3 de julho de 2010

200 anos de cinismo

Agência FAPESP

 

200 anos de cinismo

Em Eclipse da moral, Sílvio Rosa Filho, professor da Unifesp, interpreta a visão de Hegel sobre o declínio da moralidade moderna e o nascimento do cinismo contemporâneo a partir de inversões da moral kantiana

 

Por Fábio de Castro

O discurso moral da modernidade entrou em declínio após a Revolução Francesa, ao passo que um tipo específico de cinismo começava a emergir no cenário literário e filosófico do mundo contemporâneo. Durante esse momento crítico de passagem da idade Moderna para a Contemporânea, o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), no auge de sua maturidade intelectual, investigou o problema da moralidade na nova era, revelando como o nascimento do cínico teve lugar no ninho de contradições formado pelos postulados da moral kantiana.

Esse é o tema central do livro Eclipse da moral – Kant, Hegel e o nascimento do cinismo contemporâneo, de Sílvio Rosa Filho, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A obra, lançada em maio com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações, é fruto de mais de 15 anos de trabalho.

De acordo com Sílvio Rosa, o livro procura organizar o repertório que torna possível reformular o debate sobre o problema da moralidade naquele período de transição. Entre 1807 e 1817, Hegel estudou intensamente o processo de declínio do discurso moral da modernidade e estabeleceu conexões entre a abstração moral kantiana e outras abstrações conjunturais, oferecendo um depoimento histórico e conceitual de sua época.

A ideia do livro surgiu durante a graduação de Sílvio Rosa na Universidade de São Paulo (USP), a partir de uma proposta do professor Paulo Arantes, que ministrava um curso sobre Hegel na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas (FFLCH). Mais tarde, em seu doutorado, orientado por Arantes, Sílvio Rosa consolidou a pesquisa procedendo, segundo os termos de Arantes, à "remontagem de um dos passos mais vertiginosos da dialética hegeliana". Essa interpretação do pensamento de Hegel permite entrever uma galeria conceitual de microfiguras cínicas que surgiram a partir de uma inversão da moral kantiana.

O livro é organizado em duas partes: “Transição ao novo tempo” e “Reviravoltas do discurso moral”. “A primeira parte consiste em uma abordagem histórica, que estuda a maneira pela qual Hegel consegue abarcar a transição do moderno ao contemporâneo, concluindo que o discurso moral tende à inocuidade. A partir daí, na segunda parte, tento mostrar como Hegel trata cada um dos três pontos de incidência de sua crítica à moral kantiana: ela é formal, inefetiva e contraditória”, disse Sílvio Rosa à Agência FAPESP.

Na primeira parte, Sílvio Rosa trata a transição aos novos tempos em quatro níveis. O primeiro é o nível das representações que flutuam na superfície da época, oscilam e se alternam: a representação nostálgica, a exaltada, a moderada e a romântica.

“Essa camada superficial, feita de ondulações, é seguida de três outras. A segunda diz respeito à maneira como Hegel concebe a abstração da economia. A terceira corresponde à abstração política e a quarta se refere à abstração cultural”, explicou.

Em relação à segunda camada, Sílvio Rosa acompanhou o testemunho oferecido por Hegel – desde sua juventude até os manuscritos de Heidelberg, em 1817 – sobre a mudança de patamar da abstração da economia.

“Ao ter contato com a economia política britânica, ele se deu conta de que havia um tipo de abstração muito peculiar à economia moderna, entendida como divisão do trabalho. Entendeu que se tratava de uma mudança de patamar, cujo avanço iria redundar na Revolução Industrial. Esse é um abalo sísmico que o pensamento hegeliano documenta e eleva ao plano conceitual”, disse.

Outro “abalo sísmico” teria sido responsável pela chegada da abstração ao poder político: a Revolução Francesa. “Um dos capítulos debate esse tema: Hegel, leitor de Kant, testemunha a Revolução Francesa e coloca em debate a chegada da liberdade absoluta no exercício do poder com o terrorismo de Estado”, disse.

A abstração no plano da cultura é discutida em torno da primeira literatura romântica alemã, que iria se politizar aceleradamente, formando uma frente de resistência à Revolução Francesa. Um grupo de 70 intelectuais que incluía poetas como August Schlegel (1767-1845) e Novalis (1772-1801) se converteria em 1815 ao catolicismo monarquista, apostando na restauração e na contrarrevolução. Enquanto isso, Hegel mostra uma espécie de fidelidade estrutural à revolução, apostando na reforma alemã, tendo como horizonte os valores oriundos da Revolução.

Moralidade em xeque

“Com isso se completa o quadro de transição para a contemporaneidade. A moldura para esse quadro seria a ideia de Kant, exposta na Crítica da razão prática, segundo a qual seria possível calcular a conduta do homem no futuro como quem calcula um eclipse, afirmando, entretanto, que o homem é livre. Dessa forma, o debate que está em jogo trata de calcular as determinações políticas, econômicas e culturais como se fosse um fenômeno físico e, apesar disso, tenta afirmar a liberdade humana, colocando assim sobre o homem a responsabilidade histórica e moral por seus atos”, explicou Sílvio Rosa.

A partir desse quadro, com os tempos modernos assim constituídos, com tal conjunto de abstrações e contradições, a crítica de Hegel identifica a inocuidade do discurso moral. Essa crítica, segundo o professor da Unifesp, tem três pontos de incidência. Em primeiro lugar o discurso moral é formal e vazio, enquanto os tempos modernos avançam como um colosso avassalador que toma conta do planeta.

“O segundo ponto de incidência é que, se o colosso avança dessa maneira, a política tende a se tornar tão inefetiva como Dom Quixote diante dos moinhos de vento. Em terceiro lugar, essa moralidade formal kantiana é um ninho de contradições. A segunda parte do livro é uma tentativa de mostrar como Hegel aborda cada um desses pontos de incidência: o formalismo, a inefetividade e a contradição”, explicou.

No ponto de incidência da contradição aparecem as nove microfiguras concebidas por Hegel na interpretação de Sílvio Rosa como inversões da moral kantiana.

“Hegel não diz que Kant inverte a moral, mas que há uma espécie de transformação da matéria-prima do discurso moral. A maneira pela qual a moral é lida e estimada é que dissolve a própria moral em reviravoltas que correspondem as essas microfiguras. É desse ‘álbum de microfiguras’ da moral invertida que vai nascer o cinismo contemporâneo”, disse.

Coleção de microfiguras

Três microfiguras se situam na região do primeiro postulado kantiano, que diz respeito ao arbítrio: se a lei moral for escolhida por falta de opção, deixa de ser moral. Essas microfiguras são o “ativismo supérfluo”, o “protelacionismo” e o “ascetismo provisório”.

“Quando a moral enfrenta a realidade efetiva do mundo, o ativismo se mostra supérfluo. Quando não se consegue realizar com o ativismo o que se poderia realizar moralmente, a estratégia é adiar a ação, daí o ‘protelacionismo’. A última microfigura soluciona seu compromisso com a moral se aproximando de uma das duas anteriores: ou assume que o fim-último não pode ser levado a termo, ou sustenta que a consciência moral deve ser ‘para si’”, disse Sílvio Rosa.

O segundo bloco de microfiguras corresponde ao segundo postulado da moral kantiana, relacionado à imortalidade da alma: o “perfeccionismo interior”, o “amoralismo exterior” e o “attentisme permanente”.

“O perfeccionista interior é aquele que foi derrotado na tentativa de realização da liberdade e passa a cultivar um aperfeiçoamento moral restrito a sua própria alma. Quem veste a máscara do amoralista exterior diz que não há muito o que fazer. A última máscara ou microfigura tem o nome derivado do verbo francês ‘attendre’, que, significando 'esperar', expressa uma atitude política. Trata-se de um ‘expectacionismo’: essa microfigura fica na expectativa que as coisas mudem por si sós”, explicou.

O terceiro postulado kantiano – que afirma a existência de Deus – é o campo das três últimas microfiguras: o “sagracionismo secular”, o “sincretismo inefetivo” e a “hipocrisia externada”.

“A primeira máscara corresponde a uma teologia vulgar tendendo ao conformismo: ‘o curso do mundo é esse, Deus fez assim’. O sincrético inefetivo é aquele que tenta recompor uma realidade moral que há muito foi estilhaçada. A última microfigura coroa todo esse desenvolvimento, refazendo todos os deslocamentos da moral por cada uma dessas máscaras. Vale lembrar que a própria palavra ‘hipócrita’ significa ‘ator’ e ‘mascarado’ em grego”, disse.

Nasce o novo cínico

Mas essa última microfigura, segundo Sílvrio Rosa, não é um hipócrita qualquer. O atributo que o acompanha é a exteriorização dessa hipocrisia.

“Trata-se, desta vez, de um hipócrita curioso, que não dissimula sua hipocrisia. Aqui, estamos no ninho de nascimento do cinismo. Vamos entender cinismo como aquilo que exerce, por assim dizer, um tipo de sinceridade indesejada na simulação. Em um primeiro momento, esse cinismo ainda repassa por todas essas máscaras: é o cinismo nascente, ou ingênuo. Depois, o cínico chega à sua maioridade e seu discurso transforma-se em uma espécie de estilo que transfigura suas contradições”, disse.

Sílvio Rosa destaca que a definição de cinismo para os monges medievais é a pessoa que diz a verdade para causar danos aos outros. “Essa é uma noção até certo ponto vulgar sobre o cinismo. Mas é próxima da visão de Hegel sobre o que ocorreu quando se completava a transição para os tempos modernos. O resultado é um mundo amoral”, apontou.

O autor conta ter estudado como Hegel se viu às voltas com essas nove microfiguras abstratas. Mas, de certa forma, não há lugar para elas no sistema hegeliano, que defende uma vida não moralista, mas ética. "Por outro lado, elas se prestam a aprimorar o uso do discurso em níveis distintos de elaboração: primeiro sob o modo da mimesis; em seguida, sob o do amaneiramento; por fim, sob o do estilo."

“A partir de 1817, Hegel começa a integrar essas personagens à filosofia do direito e elas se dissolvem no interior de seu sistema. Hegel absorve, assimila, dissolve e, de certa maneira, abandona essas microfiguras. Procurei estudar esse momento em que ele não tinha ainda a certeza de integrá-las ao seu sistema. Por outro lado, o livro toma distâncias da imagem habitual de Hegel – como autor de uma filosofia da liberdade e do progresso na história – para enxergar no filósofo uma testemunha histórica e conceitual de sua época”, disse Sílvio Rosa.

  • Título: Eclipse da moral – Kant, Hegel e o nascimento do cinismo contemporâneo
    Autor: Sílvio Rosa Filho
    Lançamento: 2010
    Preço: R$ 46
    Páginas: 682
    Mais informações: www.editorabarcarolla.com.br/releases/1201

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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Arte de vestir personagens

        Agência FAPESP

Arte de vestir personagens

Livro analisa evolução do teatro ocidental no século 20 a partir do trabalho de criação de figurinos de sete encenadores: Stanislavski, Brecht, Artaud, Appia, Craig, Reinhardt e Ariane Mnouchkine (reprodução)

Por Alex Sander Alcântara

Durante séculos os figurinos teatrais foram utilizados como adereços e apresentavam pouca adequação à dramaturgia. Os encenadores se contentavam com figurinos belos e vazios que, em muitos casos, mantinham pouca relação com as personagens ou com o ambiente cênico.

Até meados do século 19, ir ao teatro era muito mais um encontro social do que uma atividade artístico-cultural. Mas, pouco a pouco, esse cenário se transformou e imprimiu uma feição moderna ao teatro ocidental, principalmente quando se analisam as formas de conceber os figurinos.

A evolução histórica do teatro ocidental com foco no figurino foi cuidadosamente analisada no livro Figurino Teatral e as renovações do século XX, de Fausto Viana, que acaba de ser lançado, apresentando um panorama da evolução histórica do teatro ocidental a partir do trabalho de criação de figurinos de sete grandes encenadores.

A obra revela a importância dos trajes no desenvolvimento da arte de atuar e como eles se tornaram um componente importante na busca por um teatro moderno, de acordo com Viana, professor do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).

“Os encenadores analisados tinham qualidade, nível de pesquisa avançado, perseverança e acima de tudo amor pela arte. Uma das principais características em comum entre eles é a busca pela integração de todos os elementos que integram o espetáculo”, disse à Agência FAPESP. O livro teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

O trabalho é resultado da tese de doutorado de Viana, com bolsa da Fundação, intitulada “O figurino das renovações cênicas do século 20: um estudo de sete encenadores”, defendida em 2004 com orientação de Ingrid Dormien Koudela, professora do Departamento de Artes Cênicas da ECA/USP.

Em comum entre os encenadores estava a urgência pela mudança. O primeiro entre os pesquisados foi o suíço Adolphe Appia (1862-1928), com notável influência entre os diretores que vieram em seguida.

Tudo que soava falso desagradava Appia, contou Viana. “Ele criticava os excessos nos figurinos e nos cenários e propunha um equilíbrio. Cumpriu grande parte da renovação do teatro com seus projetos de cenários. No entanto, temos que reconhecer que Appia era acima de tudo um teórico”, disse.

Quem levou ao palco as teorizações de Appia foi o ator e diretor inglês Edward Gordon Craig (1872-1966), que tentou romper com a relação estática entre palco e plateia e defendeu a universalidade e a simplicidade dos figurinos como força dramática.

“A proposta dos dois é muito próxima, mas enquanto Appia propunha, Craig executava. O inglês mantinha uma linha de trabalho que tinha por objetivo final criar uma unidade entre todos os elementos do espetáculo. A elaboração dos seus trajes seguia o mesmo modelo. A busca pela universalidade na encenação passava pela universalidade do figurino”, explicou.

O equilíbrio entre a proposta da peça teatral e a recepção do espectador foi o que marcou a produção em teatro do ator e diretor austríaco Max Reinhardt (1873-1944), também cineasta. Mas, segundo Viana, mesmo diante de uma produção muito grande – cerca de 250 peças como diretor, totalizando cerca de 2 mil produções como produtor e supervisor –, Reinhardt não foi devidamente reconhecido posteriormente.

“Apesar de ter feito um manifesto teórico, Reinhardt escreveu pouco, ou seja, não formalizou a sua busca ou metodologia de forma que pudesse ser investigada mais profundamente, como Stanislavski e Brecht fizeram, por exemplo”, disse Viana.

O professor da ECA destaca que Reinhardt é o que se poderia chamar de “Disney do teatro”. “A comparação é inevitável quando se pensa nas duas atividades: diversão para a família, em bons ambientes, que não causem constrangimentos. Essa era sua visão”, contou.

O austríaco conseguiu chegar a uma medida ideal entre o que o ator pretendia e o público desejava. “Por isso, aumentou o status do figurinista e o deixou em igualdade com os demais profissionais envolvidos na produção teatral, como o iluminador, o cenógrafo ou mesmo o ator”, disse.

Teatralidade do traje

Outro nome destacado no livro é o do teatrólogo, diretor, ator e poeta francês Antonin Artaud (1896-1948), que admirava a pintura como inspiração e foi pioneiro em trabalhar com elementos orientais, uma característica que marcaria vários encenadores posteriores.

“Artaud queria chocar o público com o teatro da crueldade. Ele queria tirar o espectador da letargia, de uma situação acomodada. Colocou em cena temas sobre o incesto, manequins em cena, movimentos obsessivos e repetitivos. E acumulou uma série de fracassos, porque o público acabou não indo a suas peças”, disse.

Um exemplo foi Os Cenci, um fracasso financeiro e de público, mas, segundo Viana, um grande êxito do ponto de vista da criação de trajes e figurinos.

O russo Constantin Stanislavski (1863-1938) e o alemão Bertolt Brecht (1898-1956) são dois dos encenadores mais conhecidos do público e os mais bem-sucedidos na divulgação de seus métodos. A metodologia de interpretação de Stanislavski até hoje é amplamente difundida mundo afora, conhecida e pesquisada em vários aspectos, mas o figurino raramente é analisado nos espetáculos do encenador russo.

“Um traje ou objeto apropriados para uma figura cênica deixa de ser uma simples coisa material e adquire, para o autor, uma espécie de dimensão sagrada”, disse o russo, citado por Viana.

“Para Stanislavski, não importava mais a necessidade de reconstituição histórica precisa, mas a teatralidade do traje. Ele foi um dos que mais experimentaram no teatro. É um erro rotulá-lo como realista-naturalista, porque ele experimentou de tudo”, disse.

Com Brecht, o processo de criação da indumentária era tão elaborado que chegava a alterar a dramaturgia do espetáculo, segundo Viana. “Ele tinha uma importante parceria com o cenógrafo Caspar Neher (1897-1962)”, disse.

Influenciado pela cultural oriental, Brecht defendia que nada deveria entrar em cena sem merecer. A simplicidade era o que o norteava. “Mas era uma simplicidade profundamente sofisticada. Em seu aparente despojamento estava a grandiosidade, a capacidade de revelar tanto com tão pouco”, indicou Viana.

Outro destaque no livro é a francesa Ariane Mnouchkine, 71 anos, fundadora e diretora do Thêátre du Soleil. Segundo Viana, na concepção de Ariane, de acordo com a necessidade dos atores e da encenação, o projeto inicial pode mudar.

“Para ela, os atores têm toda a liberdade de criação. Durante os ensaios, eles têm à sua disposição costureiras e muitos tecidos”, disse Viana, que para fazer seu trabalho de pesquisa esteve em Moscou, Berlim, Alemanha, Londres e Paris.

  • Título: Figurino Teatral e as renovações do século XX
    Autor: Fausto Viana
    Páginas: 296
    Preço: R$ 67
    Mais informações
    : www.estacaoletras.com.br

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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sonoridades da história

        Por Alex Sander Alcântara  

Sonoridades da história

Livro analisa relação entre história e música no Brasil e destaca como as múltiplas influências contribuíram para a construção dos gêneros e gostos musicais (reprodução)

Agência FAPESP – Na década de 1920, jornais e revistas de São Paulo começaram a registrar um espetáculo curioso: pessoas se aglomeravam diariamente em frente às lojas de discos para ouvir os lançamentos da época, que incluíam tango, maxixe, marchinhas ou sambas, em gravações de artistas como Francisco Alves, Gastão Formenti, Stefana de Macedo ou Vicente Celestino.

Os mais abastados também se reuniam em cafés e outros lugares públicos, principalmente no centro comercial da cidade. A prática da escuta coletiva permaneceu mesmo após a proibição da Câmara Municipal, com o argumento de que o alto volume das vitrolas perturbava o sossego de comerciantes.

O episódio está registrado em um dos capítulos do livro História e Música no Brasil, organizado por José Geraldo Vinci de Moraes e Elias Thomé Saliba, que acaba de ser lançado. A obra reúne nove capítulos de pesquisadores ligados ao grupo Entre a Memória e a História da Música, do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), criado em 2004.

O livro, que é acompanhado de CD, analisa fragmentos da história musical do país desde a chamada música colonial, passando pela chegada da família real em 1808, que imprimiu nova dinâmica cultural ao país, até o surgimento da indústria fonográfica nas três primeiras décadas do século 20. Destaca também artistas que marcaram a história da música popular brasileira, como Nazareth e Pixinguinha. A obra recebeu apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

De acordo com Vinci, professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História Social da USP, apesar de estar organizada de forma cronológica, a publicação não busca linearidade ou “sentido para o tempo histórico”.

“O livro procura mostrar que a história da música no Brasil faz parte de uma construção múltipla. Não é apenas uma trajetória exclusiva e obsessiva da música nacional nem uma herança dada e muito menos exclusivamente afro-americana com relação às tradições populares. De outro lado, a obra evita fazer uma historiografia da música no Brasil baseada na dinâmica linear dos gêneros musicais ou nos autores”, disse à Agência FAPESP .

Uma das dificuldades do estudo realizado pelo grupo – que se centra sobretudo na música popular urbana – tem a ver também com as fontes de pesquisa. Os registros mais organizados são encontrados na imprensa ou são frutos de programas radiofônicos. É o caso de Almirante, cantor e radialista carioca que reuniu nas décadas de 1940 e 1950 um acervo fonográfico e bibliográfico que se tornou a base inicial do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, fundado por Carlos Lacerda (1914-1977), jornalista e político brasileiro, ex-governador e membro da União Democrática Nacional (UDN).

“A pesquisa pretende discutir como se constrói uma narrativa historiográfica. A música também é o que as pessoas dizem sobre ela e como elas compreenderão depois o que foi dito, como a música popular, por exemplo. Como se chega a essa música, que não foi registrada em partitura nem em disco? Somente por meio do que foi dito”, disse Moraes.

Ele escreveu o capítulo Entre a memória e a história da música popular, resultado do projeto com mesmo título e que recebeu apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular. A pesquisa de Moraes – e também do grupo que é coordenado por ele – resultou na construção do site Memória da Música.

O projeto também teve apoio da FAPESP na forma de Bolsas de Iniciação Científica para coleta de dados e já abriga quase 400 registros de trabalhos publicados por historiadores e musicólogos, acompanhados também de arquivos sonoros.

“A ideia foi criar um banco de dados para começar a refletir sobre os modos como os historiadores interpretam a música. A partir deste ano, pretendemos iniciar as análises qualitativas dos estudos arquivados no site”, disse.

A relação entre história e música ainda é um campo em aberto, segundo o pesquisador. “Existem algumas linhas de análises predominantes que, infelizmente, se tornaram também uma espécie de camisa de força e limitação, que se concentram no estudo da malandragem e da música no Estado Novo (1937-1945), na Bossa Nova e na década 1960 com os festivais. A maior parte das pesquisas ainda prefere abordar essas três linhas”, afirmou.

Construção do gosto brasileiro

O principal objetivo do livro, de acordo com o professor da USP, foi entender a história cultural da música. No capítulo Música na América Portuguesa, Paulo Castagna, do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), analisa a chamada música colonial, que marcou os três primeiros séculos após o Descobrimento, mas que é contestada pelo autor, que prefere utilizar o termo “música na América portuguesa”.

“O texto de Castagna identifica as diferentes experiências e práticas musicais que ocorreram no país, sem criar fortes hierarquias entre a música erudita e popular. Ele analisa tanto a música religiosa e profana trazida pelos colonizadores europeus como também aborda as práticas dos indígenas e negros”, disse Moraes.

Um marco para a história da música brasileira se deu com a vinda da corte de D. João 6º, em 1808, que é analisada no capítulo Aspectos da Música no Brasil na primeira metade do século XIX. É nessa fase que se inicia um processo de “construção do gosto” musical específico no Brasil.

A chegada da Corte imprimiu nova dinâmica sociocultural ao Rio de Janeiro, com a entrada em cena de compositores, copistas e intérpretes como, por exemplo, os castrati, cantores representantes da escola italiana de canto setecentista cuja extensão vocal corresponde à das vozes femininas.

De acordo com Vinci, o momento seguinte – segunda metade do século 19 – inicia um interessante processo de hibridização e de misturas múltiplas. “É um período em que o Rio de Janeiro já tinha consolidado intensa vida musical que se manifestava tanto nos teatros fechados e ambientes cortesãos como nos espaços públicos e populares. Ou seja, é o momento em que se começam a decantar os gêneros musicais populares como choro, xote e samba urbano. Muitos deles vieram de influências da música europeia”, disse.

De autores como Pixinguinha – que sintetiza essa trajetória de hibridização cultural – ao samba-exaltação no Estado Novo (1937-1945), a obra aborda também a pouco conhecida produção fonográfica paulista na década de 1930 no capítulo Vitrola paulistana pelos olhos e ouvidos de um basbaque-andarilho, escrito por Camila Koshiba Gonçalves, doutoranda em história social pela USP.

“O artigo de Camila trata da presença do disco no meio da população, da função pública que cria para a difusão da música já que o público não tinha dinheiro nem para comprar o fonógrafo nem as bolachas. Toda essa prática pública foi importante para criar um gosto musical”, disse.

A década de 1950 é destacada no capítulo Na trilha das grandes orquestras. O ABC da cidade moderna. Aviões, Bailes e Cinema, de Francisco Rocha, pesquisador ligado ao grupo. O texto procura compreender as relações entre os signos da cidade moderna (avião, bailes e cinema) com a música popular.

Em cada capítulo do livro, o leitor poderá acompanhar os textos com referências das músicas contidas no CD. “A ideia original era que para cada capítulo tivéssemos dois registros sonoros do que é apresentado e discutido, mas, infelizmente, esbarramos na questão de direitos autorais”, disse.

Entre as músicas, há algumas preciosidades sonoras como a gravação de Batuque, de Henrique Alves de Mesquita, realizada em 1910, do programa do radialista Almirante de 1938, e Quem dá mais (ou Leilão do Brasil), gravada por Noel Rosa em 1932.

  • Título: História e Música no Brasil
    Organizadores: José Geraldo Vinci de Moraes e Elias Thomé Saliba
    Páginas: 412
    Preço: R$ 78
    Mais informações: www.alamedaeditorial.com.br

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terça-feira, 8 de junho de 2010

SMA lança caderno Biodiversidade

       Agência FAPESP

SMA lança caderno <i>Biodiversidade</i>

Secretaria Estadual do Meio Ambiente disponibiliza na internet publicação de educação ambiental sobre biodiversidade (reprodução)

A Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo lançou o caderno de educação ambiental Biodiversidade, o quarto de uma série que engloba os títulos anteriores Águas subterrâneas, Ecocidadão e Unidades de conservação da natureza.

A publicação, com muitas fotos, ilustrações e gráficos, é redigida de maneira didática por pesquisadores do Instituto de Botânica e visa a atingir especialmente professores e estudantes de ensino fundamental e médio.

A publicação é dividida nos tópicos “O que é biodiversidade”, “Biomas do Estado de São Paulo”, “Como conhecer a biodiversidade”, “Efeitos de impactos ambientais na biodiversidade” e “Gestão da biodiversidade”.

O lançamento marcou também as comemorações do Ano Internacional da Biodiversidade declarado pela Organização das Nações Unidas para 2010.

O caderno sobre biodiversidade e os demais volumes da série são gratuitos e estão disponíveis para download no site da Secretaria do Meio Ambiente.

Mais informações: www.ambiente.sp.gov.br/cadernos.php

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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Código de conduta dos piratas

http://livroseafins.com/codigo-de-conduta-dos-piratas/

 

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Talvez você imagine que, por serem supostamente bandidos (não poucas vezes contratados e autorizados por seus soberanos), os piratas não tinham um código de conduta.

Bem, eles viviam durante meses dentro de navios e, claro, grupos grandes de homens semi-selvagens (como ainda somos) precisam de regras claras para manter um bom convívio.

Cada capitão e cada navio tinha o seu. O livro Os Piratas Mais Perversos da História, de Shelley Klein – que então leio -, cita a obra A General History of the Robberies and Murders of  the Most Notorious Pirates, de 1724. Nela aparece o exemplo do capitão Bartholomew roberts, que durante uma viagem baixou as seguintes regras:

1.Todo homem tem direito a voto nos assuntos do momento; tem igual direito a provisões frescas ou bebidas fortes, asseguradas a qualquer tempo, e de usá-las à vontade, a menos que a escassez torne necessário para o bem de todos votar por um racionamento.

2. Todo homem tem o direito de ser convocado, segundo a Lista, ao Conselho dos Prêmios, porque (sobre e acima da sua devida parte) nestas ocasiões tem direito a uma muda de roupa; mas, se lesar a Companhia no valor de um dólar, em prataria, jóias ou dinheiro, sua punição será o desterro.

[Este era o costume bárbaro de colocar o infrator numa praia, em algum cabo ou ilha desolado ou desabitado, com uma arma de fogo, alguma munição, uma garrafa de água e uma garrafa de pólvora, para com isso sobreviver ou morrer de fome. Se o objeto roubado fosse de um dos membros da tripulação, eles se contentariam em cortar as orelhas e o nariz do culpado e jogá-lo na praia - não em um lugar desabitado, mas em algum lugar onde certamente ele encontraria dificuldades]

3. Ninguém deve jogar cartas ou dados por dinheiro.

4. As luzes devem ser apagadas às oito horas da noite. Se algum membro da tripulação, após essa hora, ainda permanecer inclinado a beber, deverá fazê-lo no convés.
[Roberts acreditava que assim reprimiria o vício, pois ele próprio não bebia, mas por fim descobriu que todos os seus esforços eram inúteis]

5. Os tripulantes devem manter suas armas de fogo e alfanjes limpos e prontos para o serviço.

6. Não é permitida entre a tripulação a presença de nenhum menino ou mulher. Se algum homem for descoberto seduzindo alguma mulher e a levar para o mar, disfarçada, será punido com a morte.

7. Quem desertar o navio ou se recolher aos seus aposentos durante uma batalha será punido com a morte ou com o desterro.

8. Nenhum homem deve agredir outro a bordo, e toda disputa, quando as partes não chegarem a uma reconciliação, deve terminar num duelo na praia, com a espada e a pistola: o contramestre do navio os acompanhará até a praia com a assistência que julgar adequada, e colocará os querelantes costa com costa, e depois os fará dar alguns passos. À voz de comando, eles se voltarão e atirarão imediatamente. Se ambos errarem, recorrerão a seus alfanjes, e então será vitorioso aquele que arrancar do outro a primeira gota de sangue.

9. Nenhum homem pode falar em mudar seu modo de vida até juntar mil libras. Se, para conseguir essa quantia, perder um membro ou ficar inválido, ganhará oitocentos dólares do cofre comum, e menos que isso, proporcionalmente, no caso de ferimentos menores.

10. O capitão e o contramestre recebem duas partes do prêmio; o imediato, o mestre e o homem de armas, uma parte e meia; os outros oficiais, uma parte e um quarto.

11. Os músicos devem descansar no sábado, mas nos outros seis dias e noites descansam apenas se receberem autorização especial.

Sim. Pelo menos os músicos podiam descansar no sábado.

Se tudo der certo, sortearei um exemplar deste livro entre os leitores do blog.

Código de conduta dos piratas | Livros e afins

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Machado de Assis - Poesia revisitada

 

Poesia revisitada

Livro publicado pela Edusp/Nankin reúne a mais completa seleção de poesia de Machado de Assis publicada em livros e periódicos do século 19. Além da recepção da crítica, a coletânea apresenta poemas que foram excluídos e modificados pelo escritor

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – Em ensaio publicado em 1939 pelo poeta Manuel Bandeira (1886-1968), intitulado “O Poeta”, o escritor lançava uma questão fundamental sobre a produção de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908): se o escritor carioca tivesse morrido antes de publicar as obras da chamada fase da maturidade teria sido lembrado como um dos maiores expoentes da literatura brasileira?

A interrogação de Bandeira se refere à produção da poesia de Machado de Assis, esquecida pela crítica da época e relegada a um plano secundário em relação à prosa machadiana. Passados mais de 100 anos após sua morte, pesquisadores ainda se debruçam sobre sua produção e percebem que, quanto mais se reexaminam seus textos, mas se descobre sobre o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

A prova disso é a publicação de Machado de Assis – A Poesia Completa, organizada por Rutzkaya Queiroz dos Reis, professora de literatura brasileira e coordenadora da graduação da pós-graduação em literatura do Centro Universitário Padre Anchieta, em Jundiaí (SP).

A edição com 752 páginas reúne 214 poemas publicados por Machado de Assis em livros e jornais da época. Além disso, a obra traz notas de esclarecimento sobre as origens dos textos e da publicação e revelam com detalhes cortes e modificações feitas nos poemas pelo próprio escritor.

Além disso, o livro inclui a recepção crítica aos poemas. Pela primeira vez, também foi incorporada em livro uma paródia do fragmento do Inferno da Divina Comédia, de Dante Alighieri, recuperada por Rutzkaya a partir de uma pesquisa feita por Eugênio Vinci de Moraes, da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com a organizadora da obra, grande parte dos poemas incluídos são conhecidos do público e já haviam sido publicados em alguns volumes anteriores, mas nunca haviam sido reunidos tal qual se encontram na coletânea.

“A contribuição original para o público se dá pela confiança que se pode ter no texto apresentado nesse volume. Os poemas de Machado de Assis que foram publicados em volumes anteriores não estavam com o texto estabelecido, ou seja, apareciam com estrofes a menos ou, às vezes, com o verso invertido e outros problemas tipográficos”, disse Rutzkaya à Agência FAPESP .

O livro é parte dos resultados de pesquisas que Rutzkaya desenvolve desde a iniciação científica e mestrado. Atualmente, está concluindo o doutorado em Teoria e História Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sobre a poesia de Machado de Assis, com orientação de Orna Messer Levin, professora do IEL.

Na iniciação científica, Rutzkaya trabalhou no “estabelecimento e fixação” do primeiro livro de poemas Crisálidas, publicado em 1864, e no mestrado com Falenas(1870), Americanas(1875) e Poesias Completas (1901). Em ambas as pesquisas, a autora recebeu bolsa da FAPESP.

A doutoranda ressalta que não analisou a poética de Machado de Assis, mas trabalhou com a “fixação” e o “estabelecimento” de textos. “Como não temos os originais, é preciso recorrer à última edição publicada e revisada pelo autor em vida”, explica ao salientar o sentido dos termos.

No doutorado, a pesquisadora do IEL estuda a “configuração do nome de Machado de Assis por meio da produção poética de 1854 a 1880, e tenta responder quem era o escritor e qual era o seu lugar na literatura brasileira antes da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

No entanto, a ideia inicial desde a iniciação, segundo a pesquisadora, não era de estabelecer textos, mas analisar os poemas. “Percebi, porém, que seria impossível analisar o texto por conta da variação de uma edição para outra. Eu não sabia qual era de fato o texto do escritor, quais ele havia escrito. Era necessário organizar para depois fazer um trabalho analítico”, explica.

O “Bruxo do Cosme Velho”, como era conhecido, publicou quatro livros de poesia. Nas duas primeiras partes da coletânea, a organizadora reúne os poemas publicados por Machado de Assis em Poesias Completas, que foi último livro publicado pelo escritor em 1901.

Segundo a pesquisadora do IEL, Poesias Completas reunia alguns poemas dos três primeiros livros (Crisálidas, Falenas, Americanas ), além de poemas do livro inédito Ocidentais, que foi incorporado apenas no último livro.

“Nesse último livro, o que Machado de Assis chama de ‘poesias completas’ na verdade é uma seleção de alguns poemas dos livros anteriores, somados ao até então inédito Ocidentais, ou seja, é a palavra final do poeta sobre sua produção. Ele faz algumas mudanças, retira muitas epígrafes dos poemas, por exemplo”, diz.

Na seleção feita por Machado que consta em Poesias Completas, além dos 27 poemas de Ocidentais, o escritor selecionou alguns de cada livro. De Crisálidas, que possuía originalmente 29 poemas, sendo que 28 eram de Machado de Assis e um de Faustino Xavier de Novas (cunhado), Machado publica 12. De Falenas são selecionados 19 poemas (de um total de 29).

“Mas no livro Americanas que tinha 13 poemas, somente o poema ‘Cantiga do Rosto Branco’ foi retirado pelo escritor”, acrescenta. Na edição organizada pela pesquisadora, todos os poemas que haviam ficado de fora foram incluído na coletânea.

Recepção crítica

Na terceira parte, Rutzkaya reúne os poemas que foram publicados de forma dispersa em jornais e revistas da época. E na última traz o que se pôde recuperar da recepção crítica, ou seja, a recepção da produção poética machadiana à época de sua publicação, tanto nos livros quanto revistas e jornais, como Marmota, onde o escritor fluminense colaborou regulamente de 1855 a 1858.

Segundo a pesquisadora, aquela crítica já não sabia como lidar com a poesia machadiana, considerada inferior quando comparada à sua produção de romances e contos. Hoje algums das análises quase sempre tentam enquadrá-lo em escolas literárias e se esbarravam em lugares-comuns.

“A crítica do século 20 sempre o caracterizou como um poeta romântico, principalmente nos primeiros livros Crisálidas e Falenas. Já em Americanas também é apontado como um livro com características de um ‘indianismo tardio’, um viés também da crítica do século 19, e em Ocidentais é destaco como obra parnasiana”, diz Rutzkaya.

Mas, segundo ela, apesar de temas comuns à época tratados em seus poemas, Machado de Assis não se enquadrava em nenhuma escola. “A maneira como ele conduzia o enredo do poema vai frustrar um pouco as expectativas desse público que estava acostumado com literatura mais amena e de final feliz”, explica.

A pesquisadora cita como exemplo o poema “Pálida Elvira”, do livro Falenas. “É um poema bastante extenso, com 97 estrofes. O poema conta uma história de amor entre Elvira e o Heitor, mas no final ela morre e o Heitor se mata”, conta.

Outro ponto destacado é a presença frequentes das epígrafes. Segundo Rutzkaya, elas compõem “uma verdadeira biblioteca” e um vasto caminho de análises pode ser recolhido a partir das epígrafes, que abordam textos que vão dos gregos aos autores contemporâneos a Machado. Além disso, inúmeras outras referências literárias estão diluídas no próprio corpo dos poemas.

De acordo com a pesquisadora, o livro abre novas perspectivas de estudos sobre a produção da poesia machadiana.

“A literatura de Machado de Assis na sua época foi apontada como estrangeira e muito estranha, desde quando era poeta. Era tido como poeta estrangeiro em terras brasileiras. E, segundo a crítica, ele não fazia jus ao projeto literário da época que era de uma literatura nacional, voltada para os ícones e símbolos da nacionalidade. O que se vê é que a cada vez que se volta aos seus textos sempre nos surpreendemos com o que pode nos oferecer. Apesar de ter sido muito estudada, sua produção – principalmente a poesia – ainda é uma obra em aberto”, diz.

O lançamento oficial do livro ocorrerá no dias 25 de maio, na livraria da Editora da Unicamp, localizada na rua Sergio de Buarque Holanda, 571, em Campinas (SP).

Machado de Assis – A Poesia Completa
Organizadora: Rutzkaya Queiroz dos Reis
752 páginas
R$ 100,00

Mais informações: 
www.edusp.com.br/
www.nankin.com.br/

:: Agência FAPESP :: Especiais - Poesia revisitada

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Conheça a 7Letras, uma editora que revela novos talentos - Entrevista com Jorge Viveiros de Castro

 

Posted by Leonardo Schabbach em 13/05/2010

Categoria(s): Dicas para escritores, Matérias sobre literatura, Mercado Editorial

Sigo aqui tentando apresentar boas possibilidades a todos os novos autores que possam acompanhar o blog. Numa postagem mais antiga, apresentei a Editora Multifoco (leia o texto + a entrevista), uma ótima opção a quem ainda não foi publicado. Hoje, falarei da 7Letras, uma editora que costuma revelar bons talentos, sendo muito bem vista e posicionada no mercado. É uma empresa série, que faz uma divulgação muito boa de seus autores, enviando releases para os principais meios de comunicação e se esforçando para que as obras recebam algum reconhecimento em território nacional. Trago aqui, além de mais algumas informações, uma entrevista com Jorge Viveiros de Castro, dono e editor da 7Letras.
Para aqueles que não sabem, de uma maneira geral, como poderão observar nas respostas abaixo, a editora cobra do autor publicado uma parcela da tiragem, para que possa assim arcar com os custos de produção, distribuição e divulgação. Apesar de muitos acharem ruim pagar para publicar o primeiro livro, não acho que, neste caso, realmente o seja. A 7Letras tem uma distribução boa, seu livro estará acessível na maioria dos sites das grandes livrarias, e ainda estará presente em uma quantidade boa de livrarias físicas. Além disso, a editora costuma realizar uma excelente divulgação de seus autores, que são, normalmente, bem recebidos pela crítica, recebendo inclusive, resenhas em alguns jornais. Então, a publicação pela 7Letras seria quase como um investimento do autor em si. Vale lembrar também que eles não publicam qualquer um; fazem a análise dos originais como de costume, o que garante a qualidade de suas publicações.
A vantagem da 7Letras em relação a algumas outras editoras que fazem o mesmo serviço, como a Novo Século com o selo Novos Talentos da Literatura Brasileira, é sua maior flexibilidade em realizar tiragens menores e mais em conta para quem quer publicar.  Além disso, a credibilidade do selo 7Letras também pode ajudar mais quem está começando. Entretanto, aos que produzem literatura fantástica, o selo da Novo Século me parece mais receptivo. Enfim, confiram abaixo a entrevista!

ENTREVISTA COM JORGE VIVEIROS DE CASTRO
Primeiro, gostaria de pedir para falar um pouco dos objetivos da Editora 7Letras. A idéia de procurar por novos talentos e etc...
R: Desde o início de sua trajetória, a 7Letras abriu as portas para escritores inéditos, poetas, ficcionistas, e procurou selecionar os melhores autores entre os originais que recebíamos. Aos poucos, a editora se firmou como uma descobridora de talentos. Nosso objetivo é o de realizar um trabalho editorial de qualidade, desde a seleção de títulos até a edição dos textos e o projeto gráfico, mesmo com poucos recursos e em pequenas tiragens.
Como vocês costumam divulgar os seus autores?
R: Enviamos exemplares dos livros, acompanhados de release, aos principais suplementos literários do país. Hoje em dia, estamos tentando aprimorar a divulgação na internet, em nossa página e nas redes sociais.
Um dos grandes problemas para toda a editora é a distribuição. A 7Letras, embora aposte em novos autores, tem uma boa visibilidade nas livrarias. Qual a política de vocês em relação à distribuição? Os autores novos da editora também tem uma boa visibilidade?
R: Acho que conseguimos alguma visibilidade em função do grande número de títulos que lançamos e do respeito que o selo conquistou ao longo do tempo. Mas de fato é difícil conseguir um bom espaço nas livrarias em escala nacional – temos dificuldades em alguns estados. Para os autores estreantes, o problema é ainda maior. Procuramos trabalhar com bons distribuidores locais, e também atendemos diretamente algumas livrarias. Em última instância, dependemos do discernimento dos livreiros – até pelo fato de trabalharmos com produtos menos comerciais – e de uma boa divulgação na mídia, com resenhas que chamem atenção para a qualidade dos autores ainda não estabelecidos.
Como funciona o recebimento de originais pela 7Letras? Em quanto tempo vocês costumam dar uma resposta?
R: Estamos sempre abertos ao recebimentos de originais, até pelo e-mail. Atualmente são quase duzentos por mês. É impossível responder a todos os autores – entramos em contato com os autores das obras selecionadas, à medida que sejam indicadas para publicação pelo nosso conselho editorial.
Pelo que me informaram, a 7Letras cobra do autor um valor correspondente a uma determinada parcela de uma determinada tiragem inicial. Quanto exemplares tem geralmente esta tiragem inicial? E quantos os autores precisam comprar?
R: Esses números variam muito, de acordo com o tamanho do livro etc. A tiragem normalmente é discutida com o autor, pois de fato dependemos de uma compra mínima inicial para viabilizar os custos de produção, uma vez que a venda nas livrarias (especialmente com a estrutura atual, em que os livros saem consignados, sem nenhuma garantia de venda ou mesmo de uma boa exposição) dificilmente sustenta o investimento em títulos e gêneros menos comerciais.
Há casos em que a editora não exige a compra dos exemplares?
R: Sim, mas em geral os investimentos exclusivamente da editora se dão em títulos de autores mais consagrados (como nas traduções de alguns clássicos) ou em projetos mais comerciais.
Alguns autores da 7Letras participam de grandes eventos, como a FLIP, isso se dá por contatos do próprio autor ou com o auxílio da editora?
R: No caso da FLIP, os autores são convidados pela organização do evento; não há participação da editora. Em geral, como temos um grande elenco de autores, inclusive no âmbito acadêmico, é natural que muitos deles participem de eventos em diversas áreas.
Que dicas você daria para os novos autores?
R: Leiam, leiam, leiam. E escrevam sem a preocupação de seguir alguma fórmula ou estilo e sem nenhuma preocupação comercial, mas sim exercitando a liberdade e criatividade para desenvolver um estilo próprio. Só assim se faz a verdadeira literatura

Conheça a 7Letras, uma editora que revela novos talentos - Entrevista com Jorge Viveiros de Castro

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